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Vozes da Literatura

Álvaro Salgado e a arte de escavar a profundidade da alma

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A coluna Vozes da Literatura do  Café Literário recebe o escritor fluminense Álvaro Salgado para uma conversa profunda sobre as dores e os prazeres do fazer literário. Leitor voraz desde a juventude e declaradamente influenciado pelos clássicos russos — com especial destaque para Máximo Gorki —, Salgado discute como sua sólida bagagem cultural formou o substrato de sua escrita ficcional. Autodefinido como um “escritor amador” no sentido mais puro da palavra — aquele que escreve por amor, diversão e necessidade de compreender a realidade —, ele detalha como o exercício constante da leitura é o combustível essencial para lapidar e refinar sua performance nas páginas.

Muito além das técnicas narrativas, a entrevista revela o forte teor humanista e a densidade social que ancoram a produção de Álvaro Salgado. Com uma trajetória marcada pela militância política no movimento operário e, atualmente, por sua atuação administrativa na área criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o autor extrai das margens e das contradições do cotidiano o material bruto para as suas histórias. Ao longo do diálogo, ele explica sua forte conexão com a bioficção e defende a urgência de pautas fundamentais em suas obras, como a inclusão de pessoas com deficiência e a crítica social de matriz marxista, transformando o ato solitário de escrever em uma poderosa ferramenta de diálogo com as aflições do mundo.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Sou um leitor voraz. Leio em média tres livros por semana. Muitas vezes, leio dois livros ao mesmo tempo. Como eu consigo fazer leituras simultâneas? Quase sempre são gêneros bem distintos: poesia e quadrinhos, crônica e novela. Lembro que na minha pré adolescência e adolescência, eu já me aventurava em temas que exigiam maturidade intelectual.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Os chamados clássicos foram devorados e muito pouco digeridos, Mãe do Makxim Gorki foi um deles. Ler é um exercício constante e me facilita a escrever cada vez melhor pois no exercício da escrita a gente se descobre um escritor ou um escrevinhador de boa performance.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Por muitos anos militei no PCB. Fiz porta de fábrica com 26 anos. Ali nos alimentávamos pelo duro cotidiano dos trabalhadores. Era fábrica de sardinha e a gente distribuía panfletos e orientações médicas. Ouvíamos muitas histórias de lutas e vitórias de pessoas humildes mas de muitas grandezas morais. Foi uma escola de Vida prá mim. Lembro que na época lia muito os Clássicos Russos. Gorki era o meu preferido.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

A vida se faz vivendo, abrindo caminhos com os companheiros de estrada. Comendo poeira e repartindo o pão de cada dia. Gorki me instruiu através de seus textos para as minhas conquistas futuras. A matriz do meu pensamento é o marxismo, em tudo que escrevo, a crítica social é o substrato dos meus escritos.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Atualmente estou ligado intimamente a aquilo que se convencionou chamar de BIOFICÇÃO, ou seja, quando o autor coloca no texto personagens com características suas ou que espelham a sua visão de mundo e ou valores. Tenho feito muito isso. Acontece de amigos meus dizerem esse ai é você. Veja bem, não é um texto autobiográfico, o personagem só traz para a cena ficcional elementos da vida real do autor.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Eu me vejo mais como um escritor amador que um escritor profissional. Digo amador no sentido de não viver dos ganhos financeiros da minha escrita. Escrevo para me divertir e advertir sobre a realidade que vivo. O meu cotidiano e as minhas interações com as pessoas. Quase sempre estou envolto com questões sociais e políticas. Não gosto de discutir questões políticos partidárias.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Eu ainda não tenho um público leitor. Os três livros meus escritos até agora(Andarilho sobre Rodas, Na Curva do Tempo e Mal te Vejo) não tiveram uma boa divulgação. Como já havia dito, a minha preocupação atual é divulgar os meus textos e ter uma postura mais profissional. Espero obter um contato com uma Editora que possa acolher os meus textos e divulgá-los.

Sou um animal político e o tema da inclusão das pessoas com deficiência, me é muito cara. Sou um homem de 68 anos, um cidadão com deficiência desde que nasci. Eu procuro sempre encaixar esse tema, o da inclusão, na minha escrita. Acredito que assim estou contribuindo para o amadurecimento da sociedade e da democracia.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

O maior compromisso de um autor ou escritor, penso eu, é fazer a crítica da sociedade. Claro, isso também não pode prendê-lo a um tema muito em voga no momento em que ele escreve. Um tema muito badalado pode ser pouco empolgante para o escritor que escreve, e isso pode empobrecer o texto. O escritor tem que ser fiel ao que pensa e sente. A escrita deve beber do humanismo. A sensibilidade do escritor é que deve orientar na escolha do tema.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Não, nunca participei de nenhuma oficina de escrita criativa. Quiçá num futuro próximo eu venha participar de uma. Sinto muita necessidade de lapidar os meus textos. Sem prejudicar a minha liberdade na escolha dos temas. Eu, por exemplo, tenho dificuldade em construir diálogos. Eu precisava de frequentar um grupo que me ajudasse a superar essa dificuldade. Duas ou mais pessoas pensando o mesmo problema fica mais fácil de se chegar a uma solução. O trabalho coletivo ajuda muito.

10) O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

A internet abriu um campo vasto para a divulgação de autores que não teriam a menor chance sem a net. O trabalho em Rede Multimídias abre um leque enorme e conecta pessoas que trocam informações cruciais no enriquecimento mútuo. Uma ideia ou um incentivo pode revelar um talento perdido na multidão.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

O escritor deve perseguir a boa técnica de sua escrita. Todo escritor, acredito, tem preferência por um ou mais gênero literário. Há os romancistas, os contistas e os poetas. Mas há também aqueles que se expressam bem em qualquer gênero. Eu quando me interesso por um tema não me preocupo em que formato estou escrevendo, procuro ser claro e finalizar o texto passando a mensagem que a minha sensibilidade capturou. O meu compromisso não é só com o leitor, o objetivo da boa escrita é escavar a profundidade da alma e os efeitos da ação humana. Escrevo, muitas vezes, para libertar-me de uma angústia. Olho ao redor e observo o mundo e as suas aflições, as pessoas e suas grandezas e misérias e desse material faço a minha escrita.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Sou Técnico Judiciário no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, na área criminal. A minha função é administrativa mas me ajuda muito a prospectar a alma humana. Casos absurdos de violências domésticas, por exemplo, me põe em contato direto com o que há de pior na sociedade, a perversidade contra idosos e pessoas com deficiência. Conhecer a dinâmica social facilita muito a entender o homem e as suas motivações, para o bem ou para o mal. Material riquíssimo para a minha escrita.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Procuro não cair nas armadilhas das falsas demandas. Procuro verificar bem as informações que me chegam antes de construir o texto; pois o leitor também quer uma leitura que sirva para formar a sua opinião sobre um assunto ou tema. Não podemos deixar que a rapidez do tempo nos atropele no conteúdo da mensagem que necessitamos passar. A velocidade não pode prejudicar a qualidade. No tempo exíguo de publicação para se encaixar em determinada mídia que exige consumo rápido não pode ser fonte de textos rasos, de conteúdo pobre.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Notibras facilitou muito a minha vida, hoje as pessoas leem as minhas poesias,contos e crônicas e a repercussão tá sendo muito legal. Até agradeço a Equipe pela boa acolhida. Posso agora me projetar para uma carreira que pra mim era apenas uma distração de velho pré aposentado. Aqui faço uma sugestão: a criação de um espaço para que o público leitor interagisse com o texto publicado e o autor com críticas e opiniões, convergentes e divergentes filtrando os haters. Os folhetins digitais são ferramentas que transgridem a burocracia de uma editora e isso é muito bom. Grupos de estudos e fanzines abrem espaço para o diálogo com outras formas de pensar e produzir conteúdos culturais.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Escrevam, escrevam, escrevam. Se vocês não virarem escritores, pelo menos desopilarão o fígado!

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Instagram do escritor Álvaro Salgado: @alvaroeduardoguimaraes

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