Curta nossa página


Avenida Danças

Bailando no escuro

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Divulgação

“Quem descerrar a cortina / Da vida da bailarina / Há de ver cheio de horror / Que no fundo do seu peito / Existe um sonho desfeito / Ou a desgraça de um amor…”
*(VIDA DE BAILARINA, Chocolate e Américo Seixas, anos 1950)

NOITE DE 12 DE AGOSTO DE 1968

“Avenida Danças”, famoso “Taxi Dancing” desde os anos 50, recebe o lançamento do disco-manifesto da Tropicália. Na plateia, à frente da orquestra da casa (foto histórica), Gal Costa, Rogério Duprat, Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Mutantes na plateia.

SEXTA-FEIRA, SETEMBRO DE 1954

Na esquina da Av. Rio Branco com a Rua Aurora, coração do centro velho da capital de São Paulo, ficava o “Avenida Danças”, o já famoso ponto de encontro da boemia paulistana. Mulheres com vestidos “de noite”, salto alto, cabelos moldados com laquê, desfilavam seus corpos “calientes” à espera do convite de um cavalheiro para a contradança.

Maria Helena era uma delas. Manicure durante o dia e “bailarina, taxi-girl profissional” no Avenida nos fins de semana.

Naquela noite, o Avenida estava mesmo especial. No palco a Orquestra de Osmar Milani recebe a convidada de honra, Ângela Maria.

Vinha direto do sucesso na rádio Nacional do Rio de Janeiro, a “Saputi” cantaria grandes canções e, claro, a imbatível “A Vida de Bailarina”.

“Os que compram o desejo / Pagando amor a varejo / Vão falando sem saber / Que ela é forçada a enganar / Não vivendo pra dançar / Mas dançando pra viver!”

João Alberto chegou perfumado e com terno de casimira riscado, chapéu de feltro e sapato bicolor. Pediu um gin dry e vidrou na mesa em que Maria Helena o esperava.

— Olá, boneca… linda como um anjo!

— Grata. Pensei que você me daria “tábua”. Gostou das unhas?

Na tarde anterior, Maria Helena fizera as unhas de João Alberto com requintes de ourives nas cutículas e esmalte incolor.

— Nem pensar, “baby”, não perderia essa noite por nada. Danças?

E assim foram. Dançaram várias e tantas canções. Veio o show de Ângela Maria e choraram juntos de emoção.

Final da madrugada.

Já na calçada da Av. Rio Branco, João tirou o paletó e cobriu os ombros sensuais de Maria. Caía uma garoa típica da São Paulo daquela época. Pegaram o táxi e seguiram para o pequeno “cafofo” de João no bairro do Bexiga. E seguiram beijos e afagos e juras de amor eterno e todas aquelas ilusões marcadas pelos filmes de Hollywood.

Na manhã seguinte, Maria Helena acordou feliz, juntou a bolsa e a coragem e seguiu o seu caminho. João nem viu, pois dormia o sono dos vagabundos madrugões.

Nunca mais se viram até o dia em que, década depois, João Alberto decidiu voltar ao Avenida Danças após anos andando pelo Nordeste brasileiro. E lá estava ela, Maria Helena, na mesma mesa.

— Oi boneca…saudades de mim? Danças?

— Boa noite, João. Não. Vamos fumar um cigarro na varanda; quero conversar.

Na varanda, dez anos foram sendo descortinados frase a frase, fatos novos e surpreendentes.

— João, você não acordou naquela manhã. Eu fui embora, mas quero que saibas que fui feliz.

— Sim, bebi muito gim dry naquela noite… Eu também fui feliz.

— Pois então. Hoje não posso dançar, pois espero outro João, o Pedro. Nos conhecemos tempos depois de te encontrar; nos amamos, nos casamos e anos após ele morreu atropelado na Av. São João. Encontrei então outro João, esse de agora: João Maria.

— Nossa, fico feliz por você ter seguido o teu caminho e sobrevivido.

— Sobrevivido? Você é mesmo um egoísta de merda, hein? Sempre pensando em você e achando que as mulheres “taxis-girl” servem apenas para uma furunfa!

— Não, perdão boneca…

— Boneca é a mãe. Eu sou Maria Helena. Espero você há dez anos, apenas para te falar que a vida é bem maior que a tua vaidade.

Naquela noite, a orquestra tocou a canção “A Vida Bailarina” como nunca antes. E Maria Helena dançou com João Maria enquanto João Alberto era retirado do Avenida Danças travado de tanto beber gim dry.

……………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista/pesquisador saudoso de quando ainda conheceu o Avenida Danças, no final dos 70, no início de sua caminhada pela boemia da vida. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

 Foto: 1968 – Avenida Danças SP

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.