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PASSADO PRESENTE

Depois do filme: o novo roteiro da vida

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Autor/Imagem:
Fabiana Saka - Francisco Filippino

O momento era de férias e descanso. Júlio se sentou na frente da tv e escolheu um filme aleatório, que lhe chamou a atenção. Era a história de dois jovens que se amavam, mas queriam futuros inconciliáveis. Não ficavam juntos no final. Havia no filme um pianista e uma atriz. Ambição, amor, despedida.

O filme era um musical bonito e bem trabalhado, ganhou até Oscar, recordava Júlio.

— Bom filme, prêmio merecido.

Quando os créditos começaram a subir, Júlio permaneceu no sofá, imóvel, como se alguém tivesse mexido numa gaveta antiga dentro dele. A história de amor não vivida pelo jovem casal o fez viajar no tempo e resgatar antigas e dolorosas memórias de um amor do passado. Na juventude, Júlio fora noivo de Sandra, uma linda moça com quem namorava desde a adolescência. Conheciam-se da escola onde estudaram. Eram um casal querido pelos colegas e até pelos professores, um modelo que servia de inspiração para os sonhos românticos de qualquer adolescente da época.

Mais tarde, no início de juventude, planejavam um futuro lindo: faculdade, trabalho, casamento. A vida seria construída em conjunto, não havia dúvidas que o destino deles estava escrito nas estrelas, e ambos batalhariam para tudo dar certo.

A notícia veio numa pizzaria de bairro, num sábado à noite. Sandra falava e sorria ao mesmo tempo, nervosa, os olhos brilhando de susto: havia sido classificada para uma bolsa de estudos no exterior. Inscreveu-se sem acreditar que teria chance, mas foi convocada para uma entrevista e passou. Seria um período difícil e de muita saudade, mas ambos ultrapassariam essa fase de distância. Ficaram noivos antes de Sandra partir para a Espanha, lugar em que ela viveria por um período da sua nova vida. Júlio ficara apreensivo e triste durante aquele processo seletivo, tentando ajustar a torcida pelo futuro profissional de sua amada com a ideia, que considerava egoísta, do afastamento. Mas jamais atrapalharia essa grande oportunidade na vida de Sandra. Daria tudo certo.

— Você me espera, meu amor?

— Claro que te espero. Todo o tempo que for preciso. Quero te ver feliz, estarei por aqui aguardando você voltar — garantiu Júlio, ainda que com certa apreensão sobre o que viria pela frente.

A adaptação de Sandra ao novo país foi difícil. Ligações eram caras, o dinheiro era contado, as cartas eram o bálsamo para o coração de ambos. Sandra enviava cartas toda semana, contando tudo: o que comia, as situações engraçadas do seu dia a dia no novo lugar, as novas amigas que conhecera. Júlio esperava as cartas de Sandra com alegria. A cada carta da noiva, seu coração se enchia de esperanças e lembranças de tempos felizes com ela perto dele.

“Meu Júlio, ainda não me acostumei a este frio que entra pelas janelas e parece ir além da pele, como se também esfriasse os pensamentos. Há dias em que a solidão pesa mais do que eu consigo dizer, e a distância de casa me aperta de um jeito mudo, sobretudo quando penso na dificuldade de falar com você, com minha família e em como tudo, daqui, parece mais longe do que deveria. Mas o que mais me dói, amor, é a tua falta — a falta da tua voz, do teu cuidado, do teu jeito de estar comigo sem esforço, como se o mundo fosse mais simples quando eu podia apenas te olhar.”

 

Depois de uns meses do noivado à distância, as cartas de Sandra começaram a rarear. Estava assoberbada com as novas responsabilidades, cansada, cheia de coisas para fazer no final de semana. Já adaptada e com novos amigos, a jovem, aos poucos, ficou mais independente, desligando-se da dependência emocional de seu noivo — era o que ele notava.

Sandra continuava afetuosa, mas já havia nas frases um cansaço novo, uma espécie de distração. Escrevia menos sobre o que sentia e mais sobre o que fazia. Júlio percebeu primeiro no ritmo, depois no tom. Não comentou com ninguém.

A distância e a falta de contato foram aumentando gradativamente, e Júlio esperava a noiva sem reclamar.

A carta do fim veio numa terça-feira. Abrupta. O envelope era o mesmo, a caligrafia era a mesma, mas algo já estava desfeito antes mesmo de ele abri-lo. Sandra dizia que a distância mudara tudo, que não sabia como nomear o que vinha acontecendo, que seria injusto prolongar uma promessa em que já não cabia inteira. Pedia perdão sem pedir de fato. Escrevia com delicadeza, mas de muito longe. Foi uma carta cuidadosa, mas distante. Sem o desfecho que a relação merecia, depois de tantos anos.

Júlio releu aquelas páginas até decorá-las. Ficou devastado. Sentiu seus sonhos de juventude ruírem juntamente com a relação que planejaram.

O jovem ficou meses em negação, como se a vida lhe tivesse sido interrompida numa estação e todos os outros tivessem seguido viagem. Depressivo e envergonhado. Tão ruim quanto a perda era a exposição dela. As pessoas queriam saber de Sandra, quando seria o casamento, e Júlio, na sua pouca vivência, não sabia se desembaraçar dessas perguntas inoportunas.

Decidiu, junto de sua família passar um período no campo, na casa de seus avós, que já estavam bem idosos. Seria bom sentir ares diferentes, um novo ambiente, descansar.

No período em que esteve na casa dos avós, Júlio foi tratado como um rei. Jogou bola com os vizinhos, passeou no centro da cidade, assou pães com a avó. Como, além de bom rapaz era muito bonito, logo apareceram moças interessadas, não demorando a receber comentários e até pressão de sua avó para conhecer alguma moça nova, virar a página.

Camila apareceu nesse intervalo.

Por que não convidar a moça da igreja, que sempre olhava para Júlio de soslaio na missa?

Foram tomar sorvete numa tarde clara, conversaram sem grande brilho, sem promessas altas, sem a vertigem que ele conhecera com Sandra. Havia, em compensação, sossego. Depois vieram outros encontros, e esse sossego foi ficando. Júlio aprendeu a gostar de Camila como se decora uma paisagem: primeiro pelos contornos, depois pela necessidade.

A partir desse convite para tomar um sorvete e conversar, Júlio e Camila começaram uma relação e construíram suas vidas. Casaram-se e formaram uma linda família. O rapaz formou-se em medicina veterinária e seguiu carreira vivendo no interior. O que seria uma viagem de férias, tornou-se a nova vida de Júlio. Casado, uma linda esposa, duas filhas risonhas e um cachorro barulhento. A vida dos sonhos, tranquila e firme, que o jovem rapaz sonhara, mas com outra personagem. Fotografias na estante, contas a pagar, domingos de visita, discussões pequenas e reconciliações costumeiras.

Com o casamento feliz, dentro das possibilidades de vida real, Júlio e Camila construíram um bom alicerce.

Os anos passaram, Júlio amava sua família e oferecia a estabilidade que ela demandava. Era companheiro, atencioso e fiel.

Ainda assim, Sandra não desapareceu inteiramente. sobreviveu como sobrevivem certas febres: silenciosa, à espera de ocasião.

O jovem Júlio, agora um homem, se entregou à nova vida, mas não completamente. Tinha, no fundo, o coração amargurado pela frustração dos sonhos de jovem não vividos com a dama de seus sonhos. Bastava uma notícia vaga, o nome de alguém da família dela, uma rua antiga, uma música de época, e algo se movia dentro dele. Às vezes, sonhava que encontrava Sandra.

As memórias voltavam.

Pouco após o rompimento, Júlio soubera, através de amigos, que Sandra estava namorando outra pessoa na Espanha.

— Então era isso! Ela se apaixonou por outro e, sem saber como agir comigo, me deixou sem notícias, deixou tudo esfriar até chegar ao rompimento — pensou amargamente.

 

Com o tempo, percebeu uma verdade menos romântica e mais dura: Sandra continuava existindo apenas no lugar onde a memória a havia conservado. A moça por quem sofrera já não existia. Talvez jamais tivesse existido da forma como ele a guardara. Restava uma versão juvenil, polida pela perda, protegida da realidade justamente porque se perdera cedo demais.

Enquanto pensava sobre o filme, que se chamava “La La Land: Cantando Estações”, e o relacionava com sua vida de outrora, Júlio refletiu que sim, a vida é feita de escolhas, e ciclos precisam se fechar.

— Não posso estar preso a uma relação que não existe, numa vida que jamais será a minha.

Uma parte de seus pensamentos sempre se lembraria daquele sonho juvenil, mas já passara da hora de superar o acontecimento.

Da sala escura vinha ainda a claridade muda da televisão. Camila já dormia no quarto. Uma das filhas deixara um copo pela metade na mesa de centro.

Da porta do corredor veio a voz baixa de Camila, sonolenta:

— Você não vem?

Júlio ergueu os olhos. A casa inteira estava ali, imperfeita e viva, esperando por ele.

Tinha uma família linda, cheia de amor e momentos preciosos. O passado podia dar o seu “olá” vez ou outra, mas não seria mais uma lembrança obsessiva.

Quando entrou no quarto, Camila já tinha voltado a dormir. Júlio deitou-se ao lado dela e ficou escutando, no escuro, a respiração tranquila da mulher com quem construíra os dias. Do lado de fora, não havia música alguma, nem aplausos, nem cidade de cinema. Apenas a noite fria e comum, o quintal, um cachorro latindo longe, a vida tal como era.

E, pela primeira vez em muitos anos, isso lhe pareceu suficiente.

— Eu mereço mais, e tudo o que construí também. O que não estava ao meu alcance não pode ser um eterno fantasma — pensou Júlio.

O presente estava ali, em suas mãos, e merecia ser vivido com toda devoção e amor.

Assim como o casal Sebastian e Mia de La La Land seguiram seus sonhos separados, desejando-se coisas boas no final da história, Júlio também se entregaria à vida, dali em diante, por inteiro. A ilusão sobre o “e se…”, o que a vida de outrora poderia ter sido, não comandaria mais o seu coração.

Júlio escrevia seu novo roteiro que, assim como o filme, é digno de Oscar.

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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024).

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