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Nise da Silveira

A mulher que amava os loucos

Publicado

Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura.
Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”
Nise da Silveira

Há poucos dias passei por um caminho que me é muito familiar por ter feito parte do trajeto entre o endereço do meu último emprego e minha casa, antes da aposentadoria definitiva, a Av. Duque de Caxias, e foi quando reparei em um edifício próximo à esquina da R. Sta. Efigênia.

O que me chamou a atenção foi, na fachada lateral, um lindo grafite com a imagem de uma das mulheres mais notáveis da nossa história recente, a psiquiatra Nise da Silveira e abaixo da pintura a reprodução de parte de uma de suas frases: “Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura.”

Aquela passagem, durante vários anos, fez parte do meu cotidiano, mas nunca havia observado o prédio, tampouco o desenho aplicado em sua parede externa. Estranhei, pois há bastante tempo me interesso pela história dessa médica admirável e, caso a imagem estivesse lá, até pelas suas dimensões, teria certamente reparado. De fato, pesquisando em sites de busca, descobri que a arte foi concebida mais recentemente, início do ano de 2025, época em que o caminho já não pertencia à minha rotina diária e fazia um bom tempo que não passava por lá.

A obra é da artista mato-grossense Nathalia Ursa, radicada em Alagoas, cujo título é “O Navegar de Nise”, ocupando toda a fachada lateral do prédio de 20 andares com 66 metros de altura. A pintora contou com a colaboração dos artistas do projeto Parede Viva Iskor, Loss, Negana e Bea Corradi.

O enorme painel, além de ser uma homenagem à psiquiatra, lembra também o “Museu de Imagens do Inconsciente”, criado por ela para expor as pinturas e esculturas de seus clientes, como chamava os pacientes, artes essas estimuladas por ela, servindo como forma de terapia, em substituição às técnicas comuns como choques, lobotomia, camisa de força etc. O museu conta atualmente em seu acervo com cerca de 400 mil obras, sendo 120 mil tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (HIPAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura.

A visão me trouxe imediatamente à memória um artigo, abaixo reproduzido, escrito por mim em 2024 para sítio da Internet político sindical agoraeparatodos.com.br no dia 18 de maio o “Dia Nacional da Luta Antimanicomial”:

O dia 18 de maio é consagrado nacionalmente à luta antimanicomial, cujos debates preliminares, em diversos países do mundo, aconteceram em meados do século XX, a partir da crítica aos métodos tradicionais do tratamento dado aos doentes mentais, considerados desumanos, por incluir, além do confinamento em hospitais psiquiátricos, o uso de camisa de força, eletrochoques, insulinoterapia e lobotomia, entre outros.

A reforma psiquiátrica italiana, ocorrida entre as décadas de 1960 e 1970 e seu principal ativista, o médico Franco Basaglia, nos hospitais de Gorizia e Trieste. Além de ser considerada a primeira experiência de sucesso nesse sentido em todo o mundo, transformou tanto a política, como seu líder, em referência para o movimento no Brasil, que ganha força a partir de 1978, quando o médico visitou nosso país.

A data se tornou marco porque no ano de 1987 ocorreram dois importantes eventos: o Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, em Bauru/SP, e a I Conferência Nacional de Saúde Mental, em Brasília. Em ambos, foram discutidas e aprovadas propostas que culminaram, em 2001, na aprovação da Lei 10.216, de autoria do então deputado federal Paulo Delgado (PT/MG), que define a atual estrutura da política de saúde mental no SUS, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), e dá início ao processo de extinção dos manicômios.

No entanto, ao falar sobre esse tema, não se pode esquecer da importância e do pioneirismo, nacional e internacional de uma personalidade, feminina e nordestina, nascida no ano de 1905, em Maceió/AL, a médica psiquiatra Nise da Silveira. A única mulher entre 150 estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia a se formar no ano de 1926, na qual ingressou com apenas 16 anos. Nise é também uma das primeiras brasileiras a exercer a profissão de médica.

Nos anos 1930 ela se muda para o Rio de Janeiro, e se especializa em psiquiatria, indo trabalhar no antigo Hospício Nacional de Alienados, e desde o início de seu trabalho, desenvolveu o senso crítico à forma violenta e desumana com que os pacientes eram tratados nesse tipo de instituição, promovendo uma revolução na área, com a introdução da terapia ocupacional a partir do estímulo ao desenvolvimento artístico dos pacientes e da interação com animais.

Por ser militante comunista e filiada ao PCB, ficou presa por 18 meses entre 1936 e 1937, durante a ditadura Vargas, tendo divido a cela com Olga Benário. Outro ilustre ativista de esquerda com quem teve proximidade nesse período, foi o escritor Graciliano Ramos, que a cita no livro Memórias do Cárcere.

Como consequência da perseguição sofrida por seu envolvimento político, ficou afastada do serviço público até 1944, quando conseguiu retomar suas atividades no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, também no Rio de Janeiro. Foi lá que iniciou seu trabalho de estimular seus clientes, forma com chamava os internos, a desenvolverem seus dons nas artes plásticas como a pintura e a escultura, à guisa de tratamento; e em 1946, cria, no mesmo hospital, a Seção de Terapêutica Ocupacional, à qual dirigiu durante 28 anos e hoje leva seu nome.

Em 1952 criou o Museu de Imagens do Inconsciente, centro de estudos e pesquisa, com as obras produzidas pelos frequentadores dos chamados ateliês de atividades expressivas. O museu continua em funcionamento atualmente e reúne mais de 400 mil obras entre telas, papéis, modelagens, textos e poemas; e os ateliês continuam a produzir.

Foi fundadora da Casa das Palmeiras uma clínica destinada ao tratamento de egressos de instituições psiquiátricas. Era estudiosa do filósofo holandês Baruch Spinoza e sua dinâmica dos afetos, o que a influenciou na forma de conduzir seu trabalho. Foi aluna de Carl Gustav Jung, criando no Brasil o primeiro grupo de estudos sobre a obra do psiquiatra suíço, tendo também escrito o livro “Jung: Vida e Obra”.

Nise da Silveira faleceu em 1999, aos 94 anos. Seu trabalho rompeu com uma longa tradição de tratamentos cruéis e desrespeitosos aos direitos das cidadãs e cidadãos vítimas de sofrimento mental, aos quais se recusava a chamar de pacientes, em vez disso se referia a eles como clientes, mas preferia mesmo chamá-los pelos nomes. É reconhecida mundialmente por seu trabalho e é lembrada e homenageada até os dias de hoje.

Em 2022 seu nome foi incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, em que são homenageadas as figuras de destaque na construção histórica brasileira, por meio da Lei 9.800, proposta pela deputada federal Jandira Feghali (PC do B/RJ), a qual Jair Bolsonaro impôs veto, mas derrubado pelo Congresso Nacional.

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