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Grande João Pessoa

Delegado comandava proteção e divisão de lucros do tráfico

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Divulgação/PCPB

As investigações da Polícia Civil da Paraíba revelaram um esquema profundo de corrupção institucional, desvio de armas e comércio ilegal de entorpecentes envolvendo a alta cúpula de delegacias especializadas. No centro do escândalo está o delegado Braz Morroni, ex-titular da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT), cuja participação ativa foi escancarada após a interceptação de comunicações internas do grupo criminoso.

O monitoramento policial resultou na análise minuciosa de mais de 40 mil áudios gravados que serviram como base para mapear a engrenagem ilícita. O material probatório detalha conversas explícitas sobre a divisão de lucros decorrentes do tráfico de drogas, o recolhimento de armamentos apreendidos e o uso estratégico do poder administrativo para blindar os envolvidos.

A maior parte dos diálogos interceptados traz a voz do investigador Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido no submundo do crime pelo apelido de “Bomba”. As autoridades apontam o agente como o principal operador logístico e financeiro do esquema, sendo o responsável direto por interligar os interesses de policiais corruptos e traficantes atuantes na região.

Além do delegado e de “Bomba”, o investigador Eduardo Jorge Ferreira do Egito, o “Mão Branca”, também integrava o núcleo principal da organização criminosa. O trio de servidores públicos e outros investigados foram alvos da Operação Perfídus, deflagrada pelas forças de segurança no dia 2 de junho, resultando no cumprimento de mandados de prisão.

Em uma das gravações mais contundentes obtidas pela investigação, Everton Aires aparece cobrando enfaticamente o pagamento de uma remessa de entorpecentes repassada a terceiros. No áudio, o operador faz menção direta ao chefe ao relatar que o seu primeiro contato profissional do dia com o delegado Braz Morroni foi uma cobrança sobre o destino daquele dinheiro.

Os áudios revelam ainda a engenharia financeira aplicada pelo grupo para gerenciar o fluxo de caixa do crime e ludibriar o próprio delegado em determinados momentos. Em um trecho, “Bomba” negocia com um comparsa o adiamento do repasse de uma cota de R$ 72 mil devida a Morroni, sugerindo reter metade do valor para utilizá-lo temporariamente como capital de giro.

Em outro momento capturado pelas interceptações, o operador festeja abertamente o recebimento de R$ 8 mil por meio de uma transferência eletrônica via Pix. Na mensagem, direcionada diretamente ao delegado, ele relata a venda bem-sucedida de entorpecentes para o município de Campina Grande e afirma que Morroni deveria ter migrado para a Delegacia de Roubos e Furtos há muito mais tempo devido à alta lucratividade.

O cotidiano de proximidade entre os criminosos e a liderança do esquema também ficou evidente quando “Bomba” informou a “Mão Branca” sobre um pagamento em espécie feito pessoalmente ao delegado. Na mesma conversa, o agente detalha o planejamento de um recesso conjunto que a equipe tiraria no mês de janeiro, acompanhando as férias programadas do chefe.

A atuação do grupo estendia-se também ao desvio e adulteração de destinações de armamentos apreendidos em operações oficiais na Grande João Pessoa. Áudios mostram “Bomba” articulando com Morroni uma ida à Central de Polícia para interceptar quatro armas de fogo, planejando legalizar apenas uma para incriminar um assaltante e dar um destino clandestino e lucrativo para as três restantes.

De acordo com as análises da investigação, a principal utilidade do delegado na organização não era apenas a facilitação dos desvios, mas a garantia de uma espécie de “guarda-chuva” contra punições. Em um áudio, Everton Aires explica a um interlocutor que o corporativismo institucional dificultaria a demissão ou prisão da equipe, pois qualquer denúncia precisaria atingir o próprio delegado primeiro.

A apuração do caso teve início em fevereiro de 2025, motivada pela denúncia formal de um traficante que se sentiu lesado ao notar que drogas apreendidas pela polícia haviam sumido dos depósitos. Ao longo de quatro anos de atividades contínuas, estima-se que a rede criminosa liderada pelos policiais tenha movimentado uma quantia aproximada de R$ 10 milhões em vendas ilegais.

O despacho judicial detalha que Braz Morroni tinha participação ativa e era beneficiário direto dos lucros da venda de substâncias como cocaína e skunk. A Justiça identificou diversas transferências bancárias suspeitas de Everton para contas ligadas ao delegado, além de comprovar que o próprio Morroni compareceu pessoalmente à delegacia em dezembro de 2025 para recolher sua fatia.

Diante do volume de provas, o magistrado do caso determinou a prisão temporária do delegado, o afastamento imediato de suas funções públicas, o bloqueio total de seus bens e a suspensão do seu porte de armas. Após passar por audiência de custódia na última terça-feira (2), a prisão de Morroni foi mantida, e ele foi transferido para o Presídio Especial do Valentina, na capital.

O investigador Everton Aires, também recolhido no mesmo presídio especial, possuía uma movimentação financeira declarada completamente incompatível com sua renda de servidor público. O documento da Justiça aponta que ele controlava a contabilidade clandestina do grupo, gerenciava estoques de drogas e ainda atuava em descaminho de mercadorias e venda de anabolizantes.

Após as prisões e a divulgação dos áudios, a defesa de Everton Aires limitou-se a declarar que o devido processo legal está em andamento e que o cliente refuta as acusações. A defesa de Eduardo Jorge alegou que não é crível que policiais negociassem drogas abertamente, apontando desgaste de imagem, enquanto os advogados do delegado Braz Morroni sustentaram que não existem elementos que comprovem a participação consciente dele nos crimes.

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