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Bastidores do Café Literário

José Seabra revela engrenagem da editoria que pulsa literatura

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Acervo Pessoal

O Café Literário, espaço consolidado em Notibras, nasceu sob a visão estratégica e o olhar atento de seu fundador, o jornalista José Seabra. Em tempos dominados pelo imediatismo das redes sociais e pela pressa dos algoritmos de clique fácil, Seabra idealizou um oásis de resistência cultural, transformando a página em um palco democrático e vibrante. Sob o seu comando e mentoria, crônicas ácidas, contos confessionais e poesias visuais ganharam um lar definitivo, unindo a agilidade do jornalismo à profundidade da literatura independente.

Nesta entrevista exclusiva, José Seabra abre os bastidores dessa engrenagem cultural e revela a mecânica humana por trás do sucesso da editoria. Ele detalha a sinergia diária com os editores-escritores Daniel Marchi e Eduardo Cesario-Martínez, analisa com precisão a transição na assistência editorial entre Cecília Baumann e Ju Trinxet, e exalta o impacto de colunas dominicais marcantes como a de Cassiano Condé. É uma conversa generosa com um gestor que, além de descobrir talentos, prova que o prazer da leitura longa e o respeito à palavra escrita continuam mais vivos do que nunca no jornalismo brasileiro.

Como mentor-mor do Notibras, como funciona a sua dinâmica diária de divisão de tarefas e tomadas de decisão com o Daniel Marchi e o Eduardo Cesario-Martínez, que acumulam as funções de escritores e editores do Café Literário?

Nossa dinâmica é de total sinergia! Já que o Dan e o Edu também escrevem, nossa tomada de decisão é muito mais uma “roda de conversa” do que uma hierarquia rígida. Dividimos as demandas de forma orgânica, onde a confiança mútua é a chave. Eles trazem o olhar atento de quem vivencia o processo criativo, o que torna nossa gestão mais empática, ágil e horizontal.

O fato do Daniel e do Eduardo também escreverem traz alguma vantagem na hora de selecionar e compreender as angústias dos demais colaboradores?

Com certeza! Eles conhecem na pele o frio na barriga que é submeter um texto. Isso transforma nossos editores em verdadeiros mentores. Eles compreendem as angústias, os bloqueios e as inspirações dos colaboradores, oferecendo retornos construtivos que acolhem o autor e elevam a qualidade do texto. É uma troca de igual para igual que gera um ambiente de muita segurança e liberdade criativa.

Qual foi o principal legado que a Cecília Baumann deixou na organização do Café Literário durante a sua gestão?

Cecília deixou um legado de extrema organização, sensibilidade e rigor estético. Ela foi fundamental para estruturar nossos processos internos de triagem e estabelecer o padrão de qualidade que nos define hoje. Ela nos ensinou a valorizar a essência de cada autor, montando bases sólidas que nos permitem crescer com elegância e carinho.

Atualmente, a Ju Trinxet assumiu o posto de editora-assistente. Como tem sido o fluxo de trabalho com ela e quais energias ela trouxe para a triagem?

A Ju trouxe uma lufada de ar fresco e uma energia contagiante! O fluxo de trabalho com ela tem sido fluido e inspirador. Ela trouxe um olhar muito atento às novas vozes da literatura contemporânea. Seu critério de triagem alia o respeito à nossa tradição com uma busca entusiasmada por textos que tragam frescor, diversidade de formatos e uma conexão profunda com o leitor.

Como você avalia essa transição de bastidores entre Cecília e Ju para manter a engrenagem do Café Literário funcionando?

Foi uma transição impecável e de muita generosidade. A Cecília passou o bastão com excelência, e a Ju abraçou a missão com maestria, o que garantiu que a engrenagem não apenas mantivesse o ritmo, mas ganhasse novos contornos de beleza. Essa continuidade fluida é a prova de que nossa equipe é viva, resiliente e está sempre em evolução.

Como surgiu a ideia de criar o espaço dominical O Lado B da Literatura com Cassiano Condé e qual o impacto desse conteúdo no tráfego de fim de semana?

A ideia nasceu da vontade de oferecer aos nossos leitores um respiro reflexivo e provocativo no dia de descanso. O Cassiano tem um talento ímpar para explorar as margens da literatura. O impacto tem sido maravilhoso: ele cativou um público fiel que aguarda ansiosamente o domingo para mergulhar em análises fora do convencional, movimentando lindamente nossa comunidade nos fins de semana.

A proposta de O Lado B da Literatura complementa ou subverte o estilo das crônicas tradicionais que rodam nos dias úteis sob o olhar de escritores como Cadu Matos, Luzia Couto, J. Emiliano Cruz, Simone Magalhães, Gilberto Motta, entre tantos outros nomes?

É uma combinação perfeita de todos! O Lado B da Literatura complementa nossa linha editorial ao mesmo tempo em que subverte as expectativas de forma brilhante. Enquanto os contos, crônica e poesias encantam os leitores, o Cassiano nos convida a explorar os cantos obscuros e fascinantes dos autores. Isso cria um cardápio literário riquíssimo, onde a tradição e a experimentação dançam juntas.

“Em vez de “mediar egos”, nós celebramos as individualidades”

Coordenar uma equipe com editores-escritores, uma nova assistente e colunistas de peso exige jogo de cintura. Qual o maior desafio em mediar egos e prazos de um time tão talentoso?

O maior e mais belo desafio é canalizar essa intensidade criativa para o mesmo objetivo! Em vez de “mediar egos”, nós celebramos as individualidades. Quando você tem pessoas brilhantes, prazos e debates são naturais. O segredo é manter o diálogo aberto, a admiração mútua e focar no propósito maior: entregar arte de qualidade aos nossos leitores. O talento deles é o nosso maior combustível.

Olhando para a estrutura atual, você sente que o formato de ter outros editores dedicados blindou o Notibras contra o desgaste de gerenciar centenas de textos?

Sem dúvida! Essa estrutura foi um divisor de águas. Ter editores dedicados não apenas nos protege contra o desgaste, mas nos permite dar a devida atenção a cada obra que chega. Isso garante que a curadoria permaneça humana, amorosa e cuidadosa, mesmo diante do grande volume de textos, preservando a nossa saúde mental e a excelência do Café Literário.

Se pudesse definir o papel de cada um deles (Daniel, Eduado, Cecília, Ju e Cassiano) na consolidação do Café Literário em uma única palavra, quais seriam?

Que desafio lindo! Eu diria:
• Dan: Lirismo
• Edu: Realismo
• Cecília: Estrutura
• Ju: Oxigenação
• Cassiano: Provocação

Como você define formalmente a linha editorial do espaço? Existe um manifesto ou um fio condutor invisível entre os textos?

Nossa linha editorial formal é o acolhimento da pluralidade humana. Nosso fio condutor invisível é a autenticidade. Quer o texto seja uma crônica ácida, um conto confessional ou uma poesia visual, o elemento central é a verdade com que ele é escrito. Nosso “manifesto” é que a literatura deve ser um espaço de conexão genuína, reflexão e beleza.

“O lirismo do Dan nos ensina a olhar a beleza nas entrelinhas e na imaginação”

De que forma o estilo literário de cada um deles — o lirismo imagético de Daniel e o realismo perspicaz de Eduardo — moldou a identidade dos textos que aprovam?

Eles trazem um equilíbrio fantástico! O lirismo do Dan nos ensina a olhar a beleza nas entrelinhas e na imaginação. O realismo do Edu nos ancora na perspicácia, na observação afiada do cotidiano. Juntos, eles moldaram uma identidade onde o Café Literário consegue ser, ao mesmo tempo, profundamente poético e tocantemente humano.

Qual o critério de vocês para aceitar novos colaboradores sem descaracterizar a linha editorial que leitores assíduos já esperam encontrar?

Nosso critério é a “alma do texto”. Procuramos vozes que, mesmo com estilos próprios e inovadores, conversem com a nossa essência de valorizar a palavra compartilhada. Aceitamos novos colaboradores de braços abertos quando percebemos que eles também encaram a escrita com sinceridade, sensibilidade e respeito pelo leitor.

Como a linha editorial combate o algoritmo do clique fácil para manter vivo o prazer da leitura longa no Notibras?

Nós combatemos a pressa valorizando o respiro. Em vez de títulos caça-níqueis ou textos efêmeros, investimos na profundidade, no aconchego da palavra bem escrita e em reflexões que valem a pena ser saboreadas. Nossos leitores sabem que encontram aqui um refúgio para desacelerar, o que cria uma relação de extrema fidelidade e amor pela leitura longa.

A transição entre Cecília e Ju trouxe algum impacto ou oxigenação nas escolhas estéticas do Café Literário? O que mudou sob a nova assistência?

Trouxe uma oxigenação belíssima! A Cecília nos deixou um alicerce impecável de organização. A Ju manteve essa excelência, mas trouxe um olhar ainda mais aguçado para estéticas contemporâneas, poesias visuais e narrativas que brincam com novos formatos digitais. O filtro de entrada continua rigoroso, mas agora com um convite ainda maior para a modernidade.

Autores prolíficos, como Cadu Matos, usam a metalinguagem para ironizar e brincar com as regras da própria editoria. Até que ponto a linha editorial é flexível para rir de si mesma?

Totalmente flexível! Nós amamos a metalinguagem e a autossátira. Autores como o Cadu trazem uma leveza e uma inteligência absurdas para a página. Acreditamos que um projeto literário que não consegue rir de si mesmo perde a sua essência humana. Essa flexibilidade é a prova de que o Café Literário é um palco verdadeiramente democrático e vivo.

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