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Vozes da Literatura

Um mergulho na alma e na filosofia da escritora Hannah Carpeso

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A literatura contemporânea frequentemente se vê desafiada pela velocidade do consumo digital e pelo fechamento de um mercado editorial seletivo, exigindo dos autores não apenas criatividade, mas uma profunda resiliência artística. É nesse cenário de resistência e entrega que a coluna Vozes da Literatura recebe hoje a escritora Hannah Carpeso, uma autora polímata que equilibra a precisão herdada de anos na Administração Pública Federal com a sensibilidade nata que desabrochou ainda na infância, aos 14 anos. Com uma produção versátil que transita entre a poesia confessional e a prosa densa de obras como Vidas Paralelas e Espalhando Contos, Hannah molda sua voz criativa a partir de uma sólida bagagem de leituras clássicas e de uma formação filosófica multifacetada, encarando o ato de escrever como um transbordo emocional livre de amarras metodológicas.

Nesta entrevista exclusiva, a escritora abre as portas de seu processo criativo para discutir temas urgentes que cercam o fazer literário atual, desde o papel da crônica urbana na era das narrativas rápidas até as complexas dinâmicas do conceito de “pós-verdade” e as ferramentas de inteligência artificial. Sem fugir de debates provocativos, Hannah questiona a visão de redes coletivas que anulem a individualidade do autor, defende a liberdade de expressão contra os perigos da intolerância que historicamente queima livros e compartilha, com honestidade tocante, o seu anseio por um espaço mais aberto à crítica e ao engajamento com os leitores. Acompanhe, a seguir, uma conversa franca sobre a escrita que espelha a vida, denuncia a violência, abraça as angústias do mundo e, acima de tudo, celebra a singularidade humana.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Em verdade, os clássicos mostraram-me o viver, os personagens, as histórias, sonhos, desejos e conflitos. Permitiram-me com o tempo saber, que dentro de mim havia um potencial para a escrita. Seus vários estilos fizeram-me compreender que cada autor é único. Para mim, criar é prazeroso; não consigo ser uma só, sou levada a escrever conforme a emoção do momento e na forma como o sentimento se revela.

Vidas Paralelas, livro que fala sobre misoginia e violência contra a mulher

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

A sua afirmativa é real no questionar valores, princípios e ética; atualmente, sendo discutidos na sua validação. Muitos pretendem pensamentos diferenciados do senso até então, considerado comum e, incentivam novos discursos. A minha escrita mantem a carga filosófica da minha formação, não baseada em um único filósofo porque eles se somam. Todavia, aquilo que impacta uma boa história é bem-vindo. Posso falar da misoginia e violência contra a mulher como no livro Vidas Paralelas, de conflitos de alma em alguns poemas. Em Espalhando Contos, textos que falam da maldade, prejuízo, mentiras, alegrias, esperança, loucura, liberdade, medo e terror. Portanto, o leitor encontra diferentes sentimentos diante da vida que cada personagem assume.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond? Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Lamentavelmente, vejo grande parcela da população jovem, submetida à influência digital acostumada a breves leituras; isso faz com que os textos sejam abandonados quando longos. Mas insisto que a crônica tal como contos ainda são apreciados por muitos, e em algum momento serão resgatadas e reconhecidas.

Eu acredito no jornalismo real – aquele que narram os fatos como são, sem interferência opinativa do relator, deixando que o ouvinte conclua por ele mesmo, se assim o desejar. Já a narrativa jornalista beira a ficção como se uma história fosse criada dando rumos diversos aos fatos, assemelhando-se a uma produção literária fictícia.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Pergunto; o que é pós-verdade? No meu conceito a verdade é única, como filosoficamente é discutido. Existe a verdade e a mentira, não creio em meias verdade. E o que viria após a verdade? Considero fundamental a liberdade de expressão: toda e qualquer manifestação falada ou escrita sob a responsabilidade do autor. A censura é uma ferramenta que embota a criatividade. Concordar ou discordar é questão de posicionamento diante do que se acredita. E, o maior perigo que vejo é a manipulação dos fatos, o desconhecimento da linha do tempo, a credibilidade ingênua e a intolerância ao contraditório que queima livros.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Ao meu entender, a criatividade é liberta. Definir a organização da escrita; melhora a qualidade do texto e, eleva o nível da obra do autor. Os domínios das técnicas e gênero textual ajuda o leitor a se conectar com o conteúdo, a identificar a sua preferência. Se, ele busca suspense ou romance, cordel ou soneto, clichês ou narrativas mais complexas, é a forma de responder às suas expectativas e interesse. Quanto ao escritor, também há escolhas que vão definir sua obra.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Apesar de escrever a 25 anos, ainda não conquistei um espaço de crítica e engajamento com o leitor. O mercado é muito seletivo e fechado. Anseio por críticas.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer prol em detrimento de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Vejo nessa proposta três possibilidades: a primeira: positiva – um espaço e incentivo à divulgação, troca e cooperação em desenvolvimento e projeção de escritores iniciantes ou maduros quebrando a bolha do mercado; em segundo lugar, uma dúvida. – o que é a própria literatura? Como construir uma literatura conjunta diante das personalidades dos escritores?

Terceira possibilidade por que chamar de egoísmo a obra individual? Quando na verdade o autor expressa suas emoções, cria seus personagens como forma de legado? Eu não chamaria de egoísmo a busca por reconhecimento literário, o prazer de conquistar leitores que são a razão da sua obra. Assim como você aprecia uma boa refeição, o chef fica feliz. Talvez o egoísmo falado seja a fama. O best-seller – para isso, o mercado é quem decide.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Venho acompanhando a oferta das oficinas criativas, contudo ainda não tive a oportunidade de participar .

“Os antigos não dispunham de instrumentos de correção”

O escritor Eduardo Cesário-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Sim, é sempre bom ser otimista. Atualmente é mais fácil escrever porque você dispõe de ferramentas de acesso fáceis. Hoje, a IA traz textos interessantes e criativos, embora ainda se discuta o seu valor literário. Os antigos não dispunham de instrumentos de correção, a escrita era caligráfica exigindo deles o conhecimento da língua e a criatividade nata.

A língua é dinâmica sofre atualizações e conceitos são aperfeiçoados. Não gosto de comparações entre passado, presente e futuro porque, não há como apagar os méritos de cada época e a tendência de evolução é sempre um novo conceitual.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Penso que não necessariamente um ou outro. Meu conto: O Homem Holográfico – é uma ficção entre o existir e o não estar. Situação onde o personagem é real e irreal, todavia, capaz de grandes descobertas. Também Narciso onde existe o espelhamento. No entanto, na poesia, emoções transbordam no texto, e desabafos são colocados em prosa como o poema O QUE É A VIDA? Creio que ambos sim acontecem, mas outras formas distanciadas do eu, também.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Também faço parte desse universo. Aos 14 anos esbocei o meu primeiro livro, que foi publicado em 2005 – O Lápis que escrevia sonhos.

No magistério, a literatura ainda era viva nas leituras e artes cênicas. Ao assumir a Administração Pública Federal, ela adormeceu, restringindo-se aos técnicos e relatórios de gestão. Textos formais. De repente, como uma coceirinha reapareceu. No inicio, relatando experiências pessoais, intuitiva e íntima, aos poucos, foi-se abrindo ao mundo, na observação, na abstração e imaginação. Um processo criativo expandido, difícil de explicar porque a história se concretizava no papel de modo sequencial, contínuo e impetuoso. E, foi preciso, assim como um cavalo selvagem ser domada, cuidada e protegida até amadurecer.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Nesse aspecto, sofro pela não familiarização e domínio das ferramentas digitais. Tento divulgar no instagram e no facebook, no entanto, a dedicação é ínfima. Confesso que falho neste quesito e preciso de ajuda.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Os espaços abertos e acolhedores são de suma importância para visibilidade dos autores resilientes. Com certeza, podem colocá-los em evidência em algum momento. Digamos, por caçadores de talentos. Quanto às grandes editoras, não sei se elas se preocupam muito em abrir a bolha.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Não deixem o livro impresso morrer.

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