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Homenagem ao escritor sueco Stieg Larsson

Vaga-lumes piscando no Cerrado

Publicado

Autor/Imagem:
Ray Cunha - Texto e Foto

NÃO HAVIA MOVIMENTO algum no café, exceto pelo homem, já com certa idade, sentado à mesa junto à vidraça, em uma posição em que podia descortinar o corredor lá fora. Bebericava um espresso, chupando-o aos pouquinhos. Era quase que completamente calvo e deixara a parte cabeluda crescer, parecendo uma moita em meia lua. Tinha as mãos sólidas, grandes e peludas, como todo o resto do corpo. Terminou o café e ficou fazendo que lia a quarta capa do primeiro caderno do Correio Braziliense, de modo que quem chegasse visse a capa do jornal. Precisamente às 9h59 chegou outro sujeito e se dirigiu para a mesa ocupada pelo homem calvo, que o vira ainda no corredor e olhara para seu relógio.

– Você toma um cafezinho? – o calvo perguntou.

– Sim – disse o outro.

O calvo fez sinal para a garçonete e pediu mais um espresso.

– Cem mil; metade agora e a outra metade quando meu cliente souber que o velho viajou – o calvo disse, baixinho.

– Combinado – o outro respondeu. Era alto e magro, usava chapéu de feltro de abas curtas e seus olhos eram pretos e mortiços.

– Quando eu entregar a outra metade, depois do negócio feito, você vai sumir de Brasília – disse o sujeito calvo, sempre baixinho.

– Já estou com passagem comprada para viajar hoje à noite mesmo pro Recife.

– Esta pasta aqui contém R$ 50 mil, o endereço do spa onde o velho está, foto, instruções sobre como chegar a ele e pentobarbital. Não falhe!

– Nunca falhei – disse o outro, secamente.

Chegaram mais fregueses. Os dois saíram. O homem calvo se dirigiu para o oitavo andar da Business Center Tower, do Centro Empresarial Brasil 21, no Setor Hoteleiro Sul, a poucos passos da cafeteria. Na recepção, identificou-se como Carlos e ficou esperando. Logo depois foi introduzido a uma sala de reunião, onde aguardou cerca de meia hora, ao cabo da qual um homem ainda jovem entrou na sala. Trajava-se de terno azul marinho de algodão, bem cortado. Seus cabelos, negros, eram sedosos e bem penteados.

– Tudo certo – disse o sujeito calvo.

– Já fiz o depósito – o outro respondeu.

– Ele vai lá dez minutos do fim do horário de visita – volveu o calvo.

“Nunca mais esse filho da puta vai desligar a televisão e me mandar estudar, nem me pôr de castigo, nem suspender minha mesada, nem impedir que eu faça retiradas, e muito menos irá ao cartório colocar uma aliança na quenga” – pensou o homem jovem, esfregando a mão e imaginando tudo o que poderia fazer com o patrimônio avaliado em 10 milhões de reais.

No dia seguinte, uma nota no Correio Braziliense informava o passamento do empresário, membro informal do Clube dos Pioneiros. Causa mortis: colapso cardíaco.

Na noite anterior, logo que soube da morte de um hóspede, a proprietária do spa, Mariza Pereira, delegada aposentada da Polícia Civil, chamou seu amigo, o delegado Gabriel Silva, da Homicídios.

– Não deixe tocarem em nada; vou providenciar a necropsia do cadáver. Também vou fazer uma varredura na vida do filho único do pioneiro aqui – disse o delegado.

– Vamos tomar café na minha sala – propôs a elegante dona do spa, meneando a cabeça para ajeitar a bela juba dourada. Era uma louraça madura; uma cirurgia plástica cingira-lhe leve e constante sorriso, quase imperceptível, como o da Mona Lisa.

– Essa história está cheia de furos – o delegado murmurou. “Se foi mesmo aquele playboyzinho, ele vai gastar o dinheiro da herança com advogados e carcereiros corruptos” – pensou, aspirando o aroma do Illy, tirado na pequena máquina. Pela vidraça, podia-se descortinar, ao longe, a miríade de luzes do Lago Sul, como vaga-lumes piscando no cerrado.

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Capa da edição do Clube de Autores: Tuiuiú Crucificado, grafite sobre tela do gênio do pincel e espátula do Amapá, Amazônia, Olivar Cunha
BRASÍLIA, 10 DE JUNHO DE 2026 – Vaga-lumes piscando no Cerrado é um conto policial que faz parte de TRÓPICO, coletânea publicada no Clube de Autores, amazon.com.br e amazon.com

Blog do autor: https://www.raycunha.com.br/

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