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Pensamentos

Entre reflexos e reflexões

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

— Se eu te dissesse que nosso cérebro vive no futuro?

Me viro e encaro minha amiga com o celular no colo, copo de cerveja na mão, sentada na cadeira da varanda.

— Qual é a loucura dessa vez?

Minha amiga tem o hábito de ler algo e criar suas próprias teorias; por isso, meu olhar é de julgamento, com a certeza de que lá vem uma história mirabolante.

Sem nenhuma mudança no semblante, apesar de perceber que estou julgando sua linha de raciocínio, ela diz:

— Estou lendo uma matéria que diz que nosso cérebro existe para evitar acidentes, que sua função é nos proteger. Então, pense comigo: se eu encosto minha mão na panela quente, mesmo antes de encostar completamente, eu a puxo, evitando assim uma queimadura mais grave. Certo?

— Sim. Respondo.

— Se estou caminhando na rua e um carro vem em minha direção, eu pulo e muitas vezes consigo evitar o acidente. Isso significa que o cérebro já havia percebido o que ia acontecer, o que significa que ele vive no futuro.

Penso: “É louca, mas o pior é que faz sentido.”

Não respondo nada, deixo-a envolta em seus pensamentos. Ela tece um comentário e outro sobre sua linha de raciocínio, e eu acompanho numa mistura de “é louca” e “a loucura dela tem uma certa razão”. Minutos depois, sento-me ao lado dela com meu copo de cerveja e o assunto desaparece completamente.

Não pude deixar de pensar nessa conversa por vários dias, mas, como a maioria das conversas, ela acabou esquecida.

Cinco anos depois, numa sessão de terapia, algo parecido retorna. Meu terapeuta me explica, ao final da sessão, que a principal função do cérebro é nos proteger. Compreendi a explicação e segui meu caminho.

Peguei o ônibus, já era noite. Segui ouvindo minhas músicas no fone, troquei de condução, desci próximo a minha casa e segui morro acima; uma caminhada de dez minutos. Viro o morro, sigo a rua reta entretida com a música alta, a via vazia e, de repente, dou um salto para trás.

Não sei como, mas o fato é que eu não vi, porém meu cérebro detectou uma lagarta, e eu tenho pavor de lagartas.

Calmamente, meus olhos buscam o “monstrinho” à minha frente: uma belíssima lagarta gordinha, verde-água, com uma larga listra rosa-claro, parecida com a lagarta de “Alice no País das Maravilhas”.

Olho, sorrio, contorno-a e sigo.

Nesse momento, lembro-me da conversa da minha amiga e da explicação do meu terapeuta. Rio. Na próxima sessão teremos muitos assuntos: tratar o medo e ter certeza de que não me contagiei com os loucos pensamentos da minha amiga pensante e profunda.

Hoje, um ano depois, penso que essas conversas são muito mais do que um bate-papo. Elas partem daqueles que se sentem à vontade para nos revelar os seus mais íntimos pensamentos, mesmo aqueles que parecem loucos. E esse tipo de amizade não tem preço: tem filosofia, amor e acima de tudo a beleza do que é ser humano.

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Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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