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Memórias alheias

Colheita de sonhos

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Adormeci na sombra de memórias alheias,
como viajante que entra descalço
em casas invisíveis,
onde cada porta é feita de silêncio
e cada janela se abre para o mistério.

Descobri que todo sonho é território sem fronteiras,
onde a tristeza se disfarça de ave noturna
e a alegria respira como aurora nascente.
Ali, cada rosto dormindo guardava uma história,
cada suspiro era segredo revelado pela noite.

Nos sonhos dos outros, amei sem retorno,
chorei lágrimas que não nasceram em meus olhos,
senti despedidas que nunca pronunciei.
E, no entanto, tudo era meu naquele instante,
como se a vida me emprestasse suas feridas
para ensinar que somos feitos
da mesma matéria invisível que arde e resplandece.

Caminhei por esse oceano de imagens,
com a respiração guiada por um farol distante,
e percebi que cada ser humano
é jardim secreto que floresce na escuridão,
onde medos sem nome crescem,
mas também brilham esperanças obstinadas,
como pirilampos na noite interminável.

Então compreendi:
os sonhos dos outros não são inteiramente alheios.
Há um fio profundo que nos liga,
uma raiz comum que bebe do mesmo mistério.
Ao adormecer, deixamos de ser ilhas,
somos água compartilhada,
eco do mesmo coração que atravessa o mundo.

Por isso desperto com a alma cheia de vozes,
com imagens que me habitam como sementes,
e ao escrevê-las em versos,
nasce uma árvore de humanidade entrelaçada,
onde cada ramo floresce em certeza:
todos sonhamos sob o mesmo céu,
todos pertencemos ao mesmo universo.

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