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Exotismo batismal

Xingar juiz é ruim, mas chutar as bolas de Donald Trump vale a pena

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

No futebol ricamente gerenciado pela Fifa nem tudo vale. Embora exista uma intensa cultura de superação e competitividade, o chamado esporte bretão é apinhado de regras, todas estabelecidas e regulamentadas pela International Football Association Board (IFAB). Ações antidesportivas, violência em campo ou manipulação resultam em punições disciplinares, como cartões, suspensões e até exclusão do futebol. O que a Fifa não pode evitar são as pérolas de batismo e apelidos hilários dos jogadores. No Brasil e no mundo, a criatividade dos cartórios e a verve boleira geram coleções de nomes extremante exóticos e, por que não dizer, divertidos. Seria o tal do exotismo batismal?

Acostumado com as peladas de Norte a Sul do Brasil, já me deparei com jogadores com nomes diferentes, complicados e, em algumas regiões, impublicáveis e inenarráveis. Nomes estrambólicos, os quais sempre imaginei criação da alta e única cultura esportiva da pátria de chuteiras. Ledo engano. Em todo o planeta, o futebol é um celeiro de trocadilhos. Entre jogadores e clubes, há quem tenha nomes ou apelidos que inevitavelmente geram piadas, confusões e duplos sentidos, seja pela sonoridade ou pela junção de sobrenomes. Por exemplo, no soberbo subúrbio do Rio de Janeiro, já joguei contra João Pica, Rola, Clímax, Santa Claus e Esparadrapo, todos jogadores do Filhos da Pauta FC, time de Campo Grande, o bairro mais populoso da América Latina.

Como jornalista esportivo, lembro de uma cobertura para o então Jornal dos Sports no Rio Grande do Norte. No gramado velho Castelão, jogavam América do Rio e ABC. Me postei ao lado de um jovem repórter de uma agência radiofônica pernambucana e juntos começamos a ouvir, por meio de uma difusora, o narrador da Rádio Poti tecendo loas a Dirran, jogador meio agalegado, entroncadinho, pernas curtas e tortas e craque da equipe norte-riograndense. Era Dirran pra lá, Dirran pra cá, Dirran pra acolá. Era Dirran pegar na bola e enlouquecer o moço do microfone. “Meu Deus, Dirran é um cracaço”. No fim do jogo, claro que Dirran foi eleito o melhor jogador em campo.

Vendo todo aquele sucesso, o colega radialista aproximou-se de Dirran para uma entrevista ao vivo à beira do gramado. Microfone ligado, foi logo perguntando: – Meu caro Dirran, você tem parentes na França ou sua origem é francesa?”. Simplório e espantado com a indagação, o inocente jogador respondeu para Pernambuco, para o Nordeste e para boa parte do Brasil ouvir: – Não sinhô! Como sou baixinho, meu apelido é Cú de Rã. Aí os cabra da narração, que num pode falar nome feio na rádio, abreveia. Ficou o dito pelo não dito, mas achei que aquela teria sido uma experiência única.

Não foi e, pelo visto, jamais será. Décadas depois, investido da condição de simples torcedor apaixonado pelo futebol, me vejo zapeando entre as boas, as mais ou menos e as péssimas emissoras com direito de transmissão da 23ª Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá e, mais do que a bestial quantidade de países, volto a me surpreender com a quantidade de nomes esquisitos e inusitados nas escalações das 48 seleções exigidas por Donald Trump, o conhecido, reconhecido e repaginado fazedor de média com o povão. Curiosamente, esse mesmo povo é louco para chutar as bolas do moço do topete amarelo.

Apenas um detalhe a mais na insignificância futebolística do moço. Voltando à TV, não sou chegado a vocabulários rudes e ofensivos, mas, nesses primeiros dias de Copa, tenho ouvido nomes de jogadores atuais e antigos tão bizarros que, se vivos forem, Pastel, Frankestein, Cabeção, Maionese, Bacalhau, Chulé, Anal, Arrombado, Banguela e Bilau, também companheiros do extinto Filhos da Pauta FC, podem facilmente requerer a canonização junto ao papa Leão 14. Sacanagem do tabelião, falta de criatividade dos pais ou disfunção linguística, técnicos e jogadores desfilam salientemente pelos gramados norte-americanos, canadenses e mexicanos com seus pomposos e nada sonoros nomes.

Como pai, tio ou avô, nunca permitiria chamar um dos meus de José Porras (Costa Rica), Yukinari Sugawara e Shota Fukuoka (Japão), Jérémy Doku (Bélgica), Khuliso Mudau (África do Sul), Milton Caraglio (Argentina), Tabakovic (Bósnia), Sandro Foda (Alemanha) e Phil Foden (Inglaterra). Já foi muito pior. Em outros tempos, a dupla de zaga do Japão assustava qualquer narrador: Tukuta Frosho e Tako Cuna Mão. Impronunciável era o volante da China dos anos 70, conhecido por mestre Ku Shai Chang. Perto desses, o italiano Salvatore Bochetti e os portugueses Thomas Turbando e H. Romeu Pinto eram fichinhas. Graças a Deus a Fifa proibiu o vale tudo no futebol. Ou quase tudo. De acordo com os nomes citados, me parece que proibido mesmo é xingar a mãe do juiz em diferentes idiomas.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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