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Vozes da Literatura

Conheça a visão ácida e bem-humorada da escritora Luciana Assunção

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A literatura e o jornalismo se encontram de forma brilhante quando o cotidiano é transformado em arte. Para dar início à nossa conversa, a convidada de hoje do quadro Vozes da Literatura é a escritora Luciana  Assunção, uma autora que traz um olhar apurado, ácido e poético para o anonimato das cenas mundanas.

Nesta entrevista exclusiva, ela compartilha suas reflexões sobre o peso dos grandes clássicos, a diferença entre arte engajada e literatura de qualidade, e o papel fundamental da crônica urbana na era digital. Acompanhe a seguir este mergulho profundo no processo criativo e na visão de mundo dessa grande autora.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Bem, não sei se sou uma autêntica leitora de “grandes clássicos”. Já li um bocado deles, mas meu interesse é bem eclético. Gosto de ler os contemporâneos, principalmente os novos poetas. Entretanto, os escritores seminais são sempre uma fonte de inspiração. Quando se lê um romance como Anna Karenina ou Grande Sertão Veredas, nada é mais sublime. Um clássico ecoa em nossa memória eternamente.
Quanto à leitura crítica, é fundamental. No cenário atual tem faltado esta baliza. Publica-se muito e mal. Muitos escritores “incensados” da atualidade não me convencem.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Não vejo a literatura contemporânea “flertando com a filosofia”. Para mim, namora firme com as pautas identitárias e ideológicas. E talvez por isso estejam publicando tanto livro com mais qualidade panfletária do que literária. Arte engajada pode ser um tiro no pé. Sem falar que pode ficar datada em pouco tempo. Meus conflitos seguem abarcando questões universais: ética, utopia, memória, amor, morte, perda.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Ah, para mim, a crônica é um caso de amor crônico. Despir o anonimato das cenas cotidianas. Trazer à tona. Expor a própria rotina sob um olhar ácido ou bem-humorado. Delatar imagens ordinárias com pinceladas poéticas. A crônica conta a história mundana, óbvia, trivial. Não utiliza artifícios estilísticos, complexidades de enredo, clímax e anticlímax. Seu trunfo está em ser empática com as agruras e as delicadezas experimentadas por todos, porém reverberadas por quem tem olhar deferente para a fatalidade das horas.

Nesse ponto, esbarra na poesia e na fotografia. Instantes pueris, às vezes dramáticos, captados em palavras e em imagens fadadas à inexistência. O tema da crônica tem começo, meio e fim. A situação passa, vira outra história a ser contada. “Amanhã vai ser outro dia”…

Injustamente, é um gênero considerado “fácil’, “menor”. Esquecem-se de que foram grandes cronistas como Rubem Braga, Clarice, Fernando Sabino, Drummond (olhaí intersecção com o poema) quem formaram legiões de leitores e de novas gerações de escritores.

Acho que a crônica tem a cara do polaroide, do instantâneo, da surpresa esquematizada em frases curtas em primeira, terceira pessoas. Por isso é fiel companheira dos jornais impressos, que nascem com o intuito de fenecer em 24 horas. Borboleta. Passa amarela e deixa a lembrança de sua fluidez*.

Por exato motivo, a crônica é o estilo on demand no mundo vertiginoso e fugaz das redes sociais. Ao lado da poesia e do mini e microcontos, poucos parágrafos e alguns versos adoçam ou coalham a percepção. Ressignificam o banal. Estremecem o modus operandi autômato das obrigações diárias. Perturbam a superficialidade do lago de memes e de mesmices. Tiram o indivíduo da sua bolha platônica, pois o cronista também denuncia, espeta. A amenidade se reveste de profundidade. Espanta. A crônica vive um dia de cada vez. Pode parecer simples, mas sabemos o quanto é complicado atravessar as noites contemporâneas sem ansiedade.

“Prefiro mesmo escrever sem amarras”

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Eu brinco que jornalista gosta de escrever sobre balanços, e que eu gosto é de balançar. Pois é, não sou muito apegada ao tal “rigor dos fatos”, por isso hoje estou mais escritora do que jornalista. Trabalhei por 20 anos com cobertura do judiciário, especificamente do STJ, temas espinhosos e complicados. Sinto-me meio formada em Direito, uma vez que era preciso traduzir o juridiquês para a população ao final de cada julgamento importante para a sociedade. Conseguia separar bem o que eu produzia como autoficção, poesia e crônica no tempo livre do que era imperioso nos leads. Mas prefiro mesmo escrever sem amarras. Se voltasse ao jornalismo, gostaria de ser editora de cultura ou de um portal literário ou até mesmo repórter fotográfica. Adoro fotografar.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Ficção não tem limites. Ficção é invenção. Literatura é liberdade. Se a literatura debate os temas universais que já mencionei: morte, amor, vida, utopia, ética, pluralidade, igualdade e fraternidade, ela já está cumprindo o seu papel de incitar a crítica, de fomentar a inteligência, de ampliar horizontes e de dignificar a humanidade. Literatura como denúncia entra na seara da arte engajada que não me agrada. Vira manifesto. O jornalismo, sim, precisa denunciar, apontar, investigar.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Nossa, eu sou muito rebelde. Ainda me considero amadora, pois não quero me ater a nenhum rigor formal de nenhum estilo. Já me perguntaram por que não escrevo poesias rimadas. Porque não é assim que elas saem de mim. Não busco mesmo a cartilha. Escrevo visceralmente. Talvez um dia, quando me considerar uma escritora de papel passado, eu venha a me ater nestes conceitos.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Meu lugar de fala é o de uma mulher cis, mãe, casada, 50+. Brinco que jamais serei famosa porque não me incluo nas hashtags da atualidade. Gosto de aprender com pessoas trilhões de vezes mais cultas do que eu. E o fato é que tem autor/a pegando carona nessas hashtags para fazer manifestos, não literatura. Acho o etarismo uma praga contemporânea. Não tenho a menor chance: não sou preta, não sou gay, não sou não binária, não sou gorda, não sou periférica, não sou mãe-solo, não tenho filhos PCD… Atualmente, se você não está nas hashtags, você não tem visibilidade ou lugar de fala, saca? Quem me dera encontrar a tal ancestralidade indígena. Seria uma forma de me apropriar #escritoraindígena. Hahahaha Imagina se Drummond, Adélia, Pessoa, Cecília e toda essa galera branca, hetero (ou enrustida), macho alfa “homem branco sempre no comando” estivesse na batalha por um lugar ao sol na poesia de hoje? Ralariam um bocado, né? A letra dos Engenheiros do Hawaii teria de mudar para “longedemaisdashashtags”.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em detrimento de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

A ideia do Daniel Machi é bacana, mas pouco concretizável. Escritor é vaidoso pacas, não? De todo modo, já existem muitos coletivos de escritores, muitos portais de divulgação para quem escreve como eu, “longe demais das hashtags”. O próprio Café Literário do Notibras é um exemplo. Infelizmente, o que realmente dá visibilidade é furar a bolha dos seus leitores “de sempre”. E furar a bolha é a resposta de 1 milhão de dólares. Como se faz? Se meu livro “Horizonte de Eventos” tivesse caído nas graças de algum influencer, pronto. De repente estaria sendo chamada para todos os bate-papos literários. O coletivo de escritores ajuda a gente a não se sentir tão deprimido de nunca sair do nosso círculo, mas não faz a gente vender mais.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Sim, deveras solitário. Sinto falta do trabalho jornalístico e publicitário neste ponto. Tudo era compartilhado e havia pitacos, discordâncias, concordâncias. Hoje estou exercendo meu lado revisora, algo ainda mais solitário. Participo de um grupo chamado “Literatura a céu aberto”, projeto da poeta Sara de Melo que aproveita o deleite do parque urbano que é Brasília para ler poesias e fazer exercícios criativos ao ar livre a partir delas. Uma vez por mês, a gente se senta em alguma área verde das superquadras e debate em grupo. É sempre uma delícia.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Hum, não sou tão otimista assim não. Nada do que eu li de contemporâneo, digo de 10 anos pra cá, foi melhor do que ler Gabriel García Márquez ou Guimarães Rosa ou Clarice ou Machado ou León Tolstoi ou Scott Fitzgerald ou Mansfield. Acho que hoje todo mundo se considera escritor de forma muito leviana. Há verborragia e muito plágio nas redes sociais. É cada vez mais importante separar o joio do trigo.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Escapista por natureza, pisciana da gema, sem dúvida, escrever é fuga, mas também é autoterapia. Criei meu blog (Pisciana de Juba) num momento de depressão no trabalho. Precisava dar vazão à criatividade e o jornalismo não é o lugar para se viajar na maionese. Minhas crônicas são ao mesmo tempo confessionais, mas levam as pessoas a refletir: “puxa, preciso olhar mais atentamente ao meu redor”. Ao menos são assim os comentários que me fazem.

“Quando me angustio ou me revolto produzo bastante, compulsivamente”

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Quem me dera viver só do que escrevo. Sou servidora pública, desconsolada como Drummond. O tédio e a burocracia de um tribunal já foram temas de inúmeras crônicas e poemas. Como a tal “ostra feliz não faz pérola”, quando me angustio ou me revolto produzo bastante, compulsivamente.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Ainda não atingi este objetivo. Ainda não furei a bolha, então acho que não estou me divulgado da forma correta. Ainda estou pregando para os convertidos, gente que me lê faz tempo. De vez em quando surge um novo seguidor, mas realmente gostaria de entender esta alquimia. Talvez seja o caso de contratar um especialista nessas artimanhas dos algoritmos.

“Quando uma nova oportunidade de divulgação aparece, reacende a chama”

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Como já dito, esses espaços mantêm nossa esperança de que um dia vamos atingir novos leitores. Sem eles tudo ficaria ainda mais difícil. É sempre uma alegria quando somos publicados num novo portal. A vontade de desistir de escrever, de acreditar na nossa escrita é diária. Quando uma nova oportunidade de divulgação aparece, reacende a chama.

Também comecei a participar de um encontro mensal sobre “Arte e Espiritualidade”. A espiritualidade é algo que me fascina. Gostaria de ter fé. Sigo na busca. Todos esses encontros viraram texto de uma maneira ou de outra. Instigam. Mas confesso ter preguiça de “oficinas para ensinar a escrever”. Acho que já estou em outra fase da vida ou estou mesmo é mais rabugenta. 🙂

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

As telas nos tiraram o céu. É a impressão que me dá ao observar as pessoas ao ar livre. A límpida e ampla manhã não atrai a atenção dos que estão sob o azul. O infinito não causa mais espanto. Sem exceção, todos abduzidos por seus celulares.

Certamente não há urgência ou relevância maior que a beleza daquele espetáculo natural e isto é o que é mais triste. Perdem o movimento das nuvens, o voo de pássaros diversos, o risco do avião, as fases da Lua e até o incensado pôr-do-sol, por bugigangas.

As redes sociais, o Zap são basicamente isso: miçangas, espelhinhos, bagatelas. Não passamos de novos indígenas ingênuos ludibriados pela nova forma de colonização. Entregamos nossa capacidade de encantamento e de deleite com o entorno por memes num eterno looping de reprodutibilidade.

Como repactuar nosso olhar com a profundidade lúdica da natureza se estamos quase que permanentemente absortos pela luz artificial? Tornamo-nos vulneráveis digitais, sujeitos ao vício, à superficialidade e ao imediatismo.

No filme Perfect Days, do diretor Wim Wenders, a personagem principal mantém uma rotina espartana e estoica. Num primeiro momento, aquele homem aparenta ser monótono e solitário. Mas um dentre outros sinais é de grande prova de riqueza interior: todos os dias ele sai à porta de casa e, antes da jornada de trabalho, olha para o céu.

Eis algo que se perdeu em tanta gente. O universo digital passou a ser mais importante do que o universo astronômico. Se ao menos pudéssemos manter as ordens de grandeza nos seus devidos lugares, estaríamos a salvo da alienação.

A recondução aos alumbramentos celestes é imperiosa. Alguns minutos como exercício diário do olhar. O espaço físico, real, é aliado do pensamento poético, recreacional, criativo, científico. É a nossa humanidade básica, imprescindível, que jamais deveria estar sendo trocada por ninharias virtuais.

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Conheça o Blog Pisciana de Juba, da escritora Luciana Assunção: https://lulupisces.blogspot.com/

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