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O Botafogo e a Seleção

Os cartolas e o diabão

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Não costumo escrever sobre efemérides, mas esta Copa merece. Não apesar do futebol medíocre dos amarelões, mas justamente por ele.

Desculpem qualquer coisa, amigos botafoguenses, mas a versão original do causo envolveu o glorioso time da estrela solitária, em algum momento da era pós-Garrincha e pré-Textor.

O futebolzinho de bosta da seleção brasileira diante do Marrocos semeou o pânico entre as hostes da CCF, Cambuta de Cartolas Fiosdeumaégua (ou coisa pior, há versões mais cabeludas, rimadas, do significado da sigla).

– Joguinho horrível – disse um cartola. – Os patrocinadores vão chiar – completou o prócer do ludopédio.

– Pior, vão deixar de patrocinar – acrescentou outro. – Vamos perder uma grana!

O mais apreensivo era Afrânio, estrela em ascensão na CBF. Vindo de uma obscura federação de futebol, fora o idealizador da campanha da estrelinha. As peças publicitárias, divulgadas incessantemente pela TV, mostravam milhões de brasileiros sonhando com uma estrelinha, mais uma, a do hexa. Havia mil possibilidades para garimpar o filão e ganhar uma nota, entre elas sorteios que davam direito a batizar, no céu, a estrela do hexa. E melhor, a coisa podia ser globalizada, ao som da canção de ninar inglesa Twinkle twinkle little star (cintila, cintila, estrelinha). Com isso, sua eleição para a presidência da CCF estava garantida.

“E tudo vai ralo abaixo por causa do futebol de merda da seleção”, lastimou-se Afrânio pela milésima vez, desolado.

Nesse momento, uma nuvem de enxofre envolveu a sala da CCF onde se realizava a reunião da cartolagem, ou melhor, o velório dos canarinhos. No meio dela, materializou-se um diabão, nos conformes, de chifres, presas afiadas, garras e rabo.

– Boa noite, coleguinhas. Vim oferecer um meio de garantir a conquista do hexa. Mas, claro, haverá um preço a pagar: levo uma alma comigo, após a vitória.

– Leva a do Afrânio! – berrou o dirigente principal da CCF, que morria de ciúmes do idealizador da campanha da estrelinha, seu provável rival na futura eleição para a presidência da entidade.

Os demais próceres futebolísticos (menos um, evidente) apoiaram a sugestão. Apesar dos furiosos protestos do cartola expiatório, sua alma foi prometida aos infernos.

Os dias passaram, o Brasil foi eliminado da competição. A cartolagem reuniu-se de novo, revoltada com o demônio mentiroso, quando surgiu de novo a nuvem de enxofre e o diabão se materializou.

– Oi colegas, tudo bem? Vim buscar a alma prometida – e deu um sorriso maligno, mostrando as presas podres e aguçadas.

– Como buscar? – berrou o pobre Afrânio, com um misto de pavor e indignação. – Você prometeu o hexa e o Brasil foi eliminado!

– Prometi mesmo – admitiu o coisa ruim. – Mas com esse time? Sem conjunto? Assim, só milagre!

Cravou as garras de uma das patas no peito do Afrânio, as da outra no peito do cartola-mor, e voltou ao inferno com duas almas que esperneavam inutilmente.

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