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Genialidade da TV Cazé

Herói de um povo, Vozinha foi vencido pelos likes

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Autor/Imagem:
Misael Igreja - Foto de Arquivo

Sei que não adianta conversar com gente doida, aquela que confunde mestre fuleiro com maestro no fogareiro, mas adora optar pela transformação da boa história de um ser humano em like$ nas redes sociais. Embora achem lindo e o mercado dobre o faturamento, isso é muito pior do que navegar pelado em um pote de maionese. É o que faz corriqueiramente um tal Casimiro Miguel, mais conhecido como Cazé, cuja notoriedade deslanchou durante o governo do Pois é, mais especificamente no período mais tenebroso da pandemia.

Com mais tutano do que a maioria de seus seguidores, o denominado streamer (?) usou o isolamento decorrente da Covid-19 para “entreter” o público e, segundo as más línguas, para manter seu pai recluso. Louvável e justa forma de mostrar criatividade em um país no qual grassa a bestialidade virtual. Genialidade mercantil à parte, a ousada trajetória na pandemia lançou as bases para o que se tornaria a Cazé TV, hoje uma das alternativas às emissoras carimbadas na transmissão do futebol

Até aí nada a se contestar. O problema é que, muito mais do que atender ao público, a proposta do hoje midiático empresário é estimular o volume de curtidas em suas transmissões, particularmente nos conteúdos apresentados como pseudos comentários, de modo que eles (os likes) sirvam de termômetro para os atuais e futuros patrocinadores. Em outras palavras, pouco importa a vida. Importante é conjugar o verbo faturar em todos os tempos, mas sempre na primeira pessoa.

Foi o que ocorreu por ocasião da transmissão do jogo entre Espanha e Cabo Verde, país africano de renda média e debutante em uma Copa do Mundo. Associado à estreia e à fragilidade esportiva do país, o empate diante da poderosa Espanha seria, por si só, uma belíssima história de superação de uma nação longínqua, pouco conhecida, mas capaz de produzir um herói em pouco mais de 90 minutos de um épico jogo de futebol em gramados norte-americanos.

Pois Cabo Verde mostrou ao mundo do futebol que a obstinação de um homem vale muito mais do que os milhões de euros pagos às estrelas espanholas. Josimar José Évora Dias, mais conhecido como Vozinha, se tornou vedete cabo-verdiana. No entanto, aos 40 anos e com uma história familiar curiosa, o goleiro que parou os craques espanhóis perdeu a importância na Cazé TV para o volume de likes de enlouquecidos, omissos e desinteressados internautas.

A histórica atuação e o apelido de infância, decorrente da necessidade de buscar o colo da avó quando apanhava jogando bola na rua, perderam de goleada para os toques nas redes sociais. Vozinha tinha 50 mil seguidores. Hoje tem cerca de 6 milhões. E daí? Vozinha deve estar se lixando para a estultice digital do Brasil e de boa parte do mundo. Para o herói de Cabo Verde, muito mais importante é o reconhecimento do seu povo e certamente o aconchego do colo da avó. Em resumo, ao midiático Cazé, os números; a Josimar, a glória eterna.

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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

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