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Ser Mulher

Eu

Publicado

Autor/Imagem:
Edna Domenica - Texto e Foto

Meu nome, eu não me lembro.
Nasci com as luzes do céu.
Num certo outono, ou primavera,
(não me recordo bem).

Quando eu desabrochei,
perguntaram-me como eu me chamava.
Eu disse: – Lis.
– Se você não gostar,
dê-me o nome de qualquer flor do campo:

Basta ser pura.
Para me regar basta qualquer orvalho,
para me aquecer, qualquer raiozinho de sol
para me alegrar, qualquer pôr de sol,
para me agradar qualquer bem querer,
para me enlevar, qualquer sonhador.

Quando eu dei por mim,
já era flor feita: precisava de amor.
Caminhei com o olhar por doces prados,
ri risos largos e coloridos,
escancarei as portas do meu ser ao mundo,
sorri para os loucos,
amei os poetas,
vivi.
(Imaginando a vida)…

Ah! Doce jardim de minha infância,
calorosas rosas…
irrequietas primaveras
Ah! O pousar resfolegante de uma abelha…
O amor colocado em cada centelha
…do passado.

Ah! Doce brisa,
caloroso abraço
do sol da manhã,
no dia em que o cravo brigou com a rosa.

Tardes de Colombina sem Pierrô.
Noites de Vênus solitária,
vagando pelo Universo ébria de amor.
Cálidas crianças, viajores do passado…
Meninos – capitães da areia –
da saudosa pretérita Bahia,
berço da mãe Natureza,
espírito de sabedoria,
que faz esquecer toda melancolia.

Lígia, Eulália, Serafina, Cristina,
musas de um passado sem dor,
cálidas crianças que embalei,
nas noites frias de labor.

Musette mal tocada,
num piano ultrapassado…
Primeiros planos fracassados…
Sensação de abandono, de descaso.
Suave calor, doce mormaço
da puberdade a um passo.
Então o milagre se deu:
depois que a vista escureceu
e o corpo de menina adormeceu…
Acordou a mulher,
que logo emudeceu.

Solidão do claustro…
Vaidade engolida.
Meu eu enterrado sob a ameixeira
que cortaram do quintal sem me pedir licença,
(Acho que as taturanas não incomodavam tanto)
Varram-me da mente as lembranças funestas…
Expulsem esses demônios do passado
que habitam minha consciência presente.
Na roupa, vermelho marco inaugural
do primeiro ciclo mensal!
A mãe nem surpresa, nem alegre.
Bem no fundo o orgulho de menina:
– Também sou mulher!
Ah! “Vem noite tenebrosa e me reveste”
e esconde o prólogo desta tragédia,
e rabisca o primeiro ato,
e queima o segundo,
e censura o terceiro…
e joga pela janela essa tragédia sem epílogo,
cujo tema é SER
– Eu.

………………………….

“Eu” foi publicado em versão física no livro Cora, Coração (Nova Letra, 2011), escrito décadas anteriores à sua publicação. No entanto, a temática de “Eu” é bem mais antiga, por um lado, e ainda atual, por outro. Considera-se, ainda, que em tempos de misoginia, a escrita feminina não é uma fuga, mas sim um diálogo com a própria existência e com o estranhamento do mundo.

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