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Percurso íntimo

O começo, o fim e o percurso

Publicado

Autor/Imagem:
Thalita Delgado - Francisco Filippino

A vida e suas contradições!

Da varanda da minha nova casa, eu coloco minha cadeirinha de praia, que apelidei carinhosamente como “cadeirinha do pensamento”, e fico todos os dias olhando a mesma paisagem: a igreja, o cemitério e a estrada!

E todos os dias eu penso: o começo, o fim e o percurso. Não necessariamente nessa ordem, porque o começo pode ser no percurso, o fim pode ser assim que se nasce, e o percurso pode ser um fim eterno. E digo isso sem nem saber se dá pra entender o que quero dizer.

A igreja é o local do começo e também dos desesperados. O lugar em que ainda batizamos, mesmo depois abandonando o Deus católico, mas onde certamente todos vão quando nada te abraça mais. Aí você senta no banco duro de madeira, olha o altar e pensa: qual é, Deus, o que você espera de mim?

O cemitério é certamente macabro, e todo santo dia olho milhares de túmulos, que estão rodeados de meia dúzia de mato e meia dúzia de árvores. Não vejo ninguém, nem alma viva nem penada, mas vejo histórias ali que certamente não são lembradas mais, e tenho a certeza de que somos todos iguais. Cemitérios não me incomodam mais.

Mas a estrada me deixa agoniada. Existe uma quantidade considerável de caminhões. Dá pra ver daqui o leva e traz diário, e fico pensando no percurso. Todos fazemos percursos. Uns, todos os dias a mesma coisa. Outros talvez estejam como eu, fazendo o percurso de se encontrar e se permitir viver aquilo que o peito pede pra ser vivido.

Isso não significa que não exista uma rota, uma estrada da qual se sabe o caminho a que se quer chegar. Até porque eu sei quem quero ser. Quero ser grande. Quero que cada mulher se sinta empoderada ao poder falar sobre amor e sobre dores. Mas existe uma estrada cheia de curvas, buracos, quebra-molas e muuuuuitos outros carros no caminho.

Então o percurso vai ser esse mesmo: a gente pode passar várias vezes pelo mesmo caminho, mas nunca com a mesma carga. Assim como os caminhões que passam por aqui. Eu os reparo todos os dias, e eles são os mesmos, mas cada dia com cargas diferentes. Certo que alguns dias elas são pesadas. Talvez eles levem, às vezes, arroz e feijão; em outros, sejam cargas leves, como papel higiênico. Mas sempre carregando…

E todos os dias eu sento na minha cadeirinha do pensamento e me deixo pensar sobre a igreja, o cemitério e a estrada!

……………..

Thalita Delgado (@tha_delgado): Jornalista, publicitária e empresária, também se expressa como crocheteira e escritora. Apaixonada por música, livros e pelas pequenas sensibilidades do cotidiano, lançou, em 2024, seu primeiro livro, ‘Sorrindo e Chorando — porque é isso que a gente faz’, pela Editora Autoria.

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