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Fome dos virtuosos

Jaques comeu bolo do Master em apê de 4 suítes

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José Seabra - Foto Reprodução das Redes Sociais

Em mais de meio século de jornalismo vi políticos que viviam discursando contra os banquetes do poder. Subiam, e ainda sobem, em palanques, de onde apontam o dedo para os comensais da República. E juram, com a mão sobre o coração e a outra sobre o microfone, que jamais se aproximariam da mesa onde são servidas as fatias mais generosas do bolo.

Mas nesta quinta, 18, a Polícia Federal, atendendo determinação do ministro do Supremo André Mendonça, acendeu a luz da cozinha de um apartamento com quatro suítes na Salvador de ‘Todos os Santos’ e de um anjinho esperto. Flagrou-se, então, o senador Jaques Wagner (PT-BA) com a cereja do bolo na mão.

Ex-governador baiano, ministro do Trabalho com Lula 1 e hoje líder do governo no Senado, Jaques Wagner é personagem histórico do PT, homem de confiança do presidente e veterano das trincheiras ideológicas. Mas, segundo a Polícia Federal, o revolucionário de ontem pode ter descoberto, já em 2022, que o bolo do Banco Master era mais saboroso do que qualquer cartilha partidária.

A investigação da PF descreve um cardápio digno de restaurante estrelado. Há o apartamento em Salvador avaliado em 2 milhões 500 mil reais, com vista panorâmica desde a varanda da sala a uma de suas quatro suítes. E há mais: repasses milionários para empresa ligada a familiares do senador, viagens em jatos privados, ingressos para camarotes de shows nos Estados Unidos… tudo comprovado em documentos e mensagens trocadas com operadores do grupo financeiro.

O mais constrangedor (para os petistas) é que os investigadores indicam uma relação que não parece ter sido construída em torno de amizade desinteressada ou paixão pela teoria econômica. Curioso observar, portanto, como a velha política brasileira consegue transformar adversários do capital em consumidores preferenciais do luxo patrocinado pelo capital.

Durante décadas, a esquerda brasileira denunciou banqueiros, rentistas e especuladores como se fossem criaturas mitológicas responsáveis por todos os males nacionais. Porém, bastou aparecer um banco distribuindo afagos, gentilezas e oportunidades para que alguns descobrissem que nem todo banqueiro é um monstro. Alguns, aparentemente, podem até virar grandes companheiros.

O Banco Master, pelo visto, entendia como poucos a importância das relações institucionais. Sua carteira não era apenas de crédito, porque não oferecia apenas produtos financeiros. Ao longo dos anos foram construídas amizades, cultivadas proximidades, contatos foram bem regados, e, claro, as atenções foram distribuídas com atenção, uma moeda mais valiosa do que dinheiro.

Quando um político recebe um favor, ele raramente o chama de favor. O nome muda conforme a conveniência. Pode ser cortesia, convite, apoio logístico, hospitalidade ou até mesmo mera coincidência. O problema é quando as coincidências começam a se acumular com um apartamento presenteado ali, alguns milhões acolá, uma viagem que leva a camarotes mais adiante.

De repente, aquilo que parecia uma sucessão de episódios isolados, passa a formar um desenho. É exatamente esse desenho que a Polícia Federal tenta compreender agora. Fico imaginando as consequências para quem tem telhado de vidro e suponho que o aspecto mais devastador para o discurso petista não seja o valor dos benefícios investigados, mas sim sua simbologia.

O PT, se bem me recordo, nasceu prometendo ser diferente, jurando que jamais se confundiria com as elites que criticava, que não se sentaria à mesa dos privilegiados. Entretanto, o tempo, esse velho contador de histórias, costuma ser cruel com os moralistas.

Depois de décadas no poder, muitos daqueles que denunciavam os banquetes passaram a disputar os melhores lugares no salão. O caso das investigações envolvendo Jaques Wagner, não pode ser visto apenas como um problema policial ou jurídico. É, sim, o retrato de uma geração política que começou pregando a revolução dos pobres e terminou frequentando camarotes VIP.

E o bolo Master, ao que tudo indica, não escolhe ideologia. Serve fatias para todos os gostos. Agora, alguns dos antigos fiscais da festa parecem ter se transformado em convidados especiais. Resta saber se a conta ficará apenas para os contribuintes ou se algum dos convivas terá de explicá-la à Justiça. Na quarta, 18, num entrevero com seu colega Alexandre de Moraes em uma das votações do Caso Master, o ministro André Mendonça antecipou que viria mais coisas pela frente. Como ninguém tem bola de cristal, penso ser oportuno aguardar para ver de fato ‘o que é que a Bahia tem’.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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