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Cantinho do Leitor

Como o ex-escrivão Gilmar desarmou a rotina com literatura

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Seja muito bem-vindo ao Cantinho do Leitor, o novo espaço do Café Literário feito sob medida para quem está do outro lado da tela. Diariamente, nosso portal ferve com contos, crônicas e poesias que desafiam a realidade e afagam a alma; mas uma obra só ganha vida de verdade quando encontra os olhos, a mente e o coração de quem a lê. É por isso que, a partir de hoje, abrimos as portas do nosso balcão para ouvir as vozes, as críticas e as conexões humanas que transformam a literatura digital em uma comunidade viva e pulsante.

Para inaugurar este espaço em grande estilo, conversamos com um leitor assíduo cuja bagagem de vida se mistura diretamente com as veias abertas do Distrito Federal. Gilmar Barbosa de Oliveira, ex-professor de História e ex-escrivão da Polícia Civil do DF, traz o olhar atento de quem passou décadas transitando entre o giz das salas de aula da periferia e a realidade nua e crua dos plantões policiais. Hoje, na calmaria da aposentadoria, ele encontrou no Notibras um ponto de encontro com a arte. Confira abaixo como as nossas publicações ajudaram a ressignificar a sua trajetória e o seu olhar sobre o Brasil real:

Como o hábito de ler e acompanhar as publicações no portal moldou a sua percepção sobre a literatura independente nacional?

Minha trajetória profissional me deu uma visão muito crua da realidade. Primeiro nas salas de aula da periferia do DF e, depois, nas delegacias como escrivão de polícia. Acompanhar o portal me provou que a literatura independente nacional é o espelho mais fiel dessa nossa sociedade. Ela dispensa os filtros das grandes editoras para entregar uma escrita visceral, livre e perfeitamente conectada com as contradições, as dores e a resistência do cidadão comum.

Entre os diversos gêneros publicados no Café Literário, qual deles mais desperta a sua vontade de ler até a última linha e por quê?

O conto é o gênero que mais me prende. Comecei a acompanhar o Notibras justamente atraído pelas narrativas do Daniel Marchi e do Eduardo Cesario-Martínez, isso muito tempo antes do Café Literário existir. Talvez pelo meu vício profissional de ler depoimentos e ocorrências, eu aprecio a precisão cirúrgica do conto. Ele precisa agarrar o leitor pelo colarinho logo no primeiro parágrafo e entregar um desfecho impactante em poucas linhas.

Que tipo de conto, crônica ou poesia mais reflete o seu cotidiano e as suas vivências aqui no Brasil?

Aqueles que mergulham no realismo urbano e social. Quem já passou anos ouvindo histórias nos plantões policiais da PCDF e ensinando jovens em regiões administrativas da periferia conhece a fundo o Brasil real. Textos que retratam as batalhas diárias do trabalhador, os dilemas éticos e a ironia trágica das nossas ruas ecoam profundamente nas minhas próprias vivências.

Já aconteceu de um texto publicado no site mudar a forma como você enxerga algum aspecto da sua própria vida?

Sim, especialmente no meu processo recente de aposentadoria. Desacelerar depois de anos lidando com a adrenalina e a carga pesada do meio policial é um choque de identidade tremendo. Algumas reflexões mais intimistas do Daniel Marchi sobre o tempo, a memória e as marcas do passado me ajudaram a processar esse silêncio atual. O texto me fez ver que descalçar as botas e guardar a caneta do escrivão não era o fim da minha história, mas o início de um tempo legítimo de leitura e calmaria.

Se você pudesse pedir para os autores do Café Literário abordarem um tema específico, qual seria?

Eu adoraria ver uma série que cruzasse a ficção com as memórias reais da segurança pública e da educação nas cidades satélites nos anos 80 e 90. Trazer contos ou crônicas que resgatassem a fundação e o crescimento dessas comunidades sob a ótica de quem estava na linha de frente — seja no giz ou na segurança — seria um resgate histórico e literário fascinante.

Qual foi o autor ou autora revelado recentemente no portal cuja escrita mais chamou a sua atenção e por quê?

O Gilberto Motta é, sem dúvidas, um dos que eu mais gosto e faço questão de buscar todos os dias. Mas o Cadu Matos me ganha muito pelo humor; a escrita dele é hilária e funciona como uma válvula de escape necessária para aliviar o peso do dia a dia. Também destaco o trabalho adorável do J. Emiliano Cruz, além das escritas marcantes da Luzia Couto e da Simone Magalhães.

Para você, qual é a principal diferença entre ler um texto em formato digital no Notibras e acompanhar um livro físico?

O livro físico é o meu refúgio solitário na poltrona. Já o digital no Notibras funciona como um ponto de encontro dinâmico, quase um folhetim moderno de Brasília. A grande diferença para mim é o senso de atualidade e comunidade. Leio sabendo que outros brasilienses, brasileiros e estrangeiros estão acessando aquela mesma página no calor do momento, transformando a leitura em um debate vivo sobre o nosso quadrado.

Você tem o costume de compartilhar os contos e poesias lidos nas suas redes sociais para incentive outras pessoas?

Muito. Compartilho frequentemente nos grupos de WhatsApp dos colegas aposentados da Polícia Civil e do pessoal da antiga dos tempos de magistério, além do Facebook. Passei a vida inteira lidando com documentos e relatórios técnicos pesados; agora, faço questão de inundar as minhas redes com arte e boa literatura, mostrando que a cultura está viva e acessível.

Qual foi a última história lida aqui que te deixou com aquela sensação de “quero mais” ou gerou uma reflexão profunda?

Foi um dos contos recentes do J. Emiliano Cruz e da Brígida de Poli sobre personagens lendários de clássicos como Dom Casmurro. Eles têm uma ironia ácida fantástica para desmascarar o moralismo e a hipocrisia das relações humanas. O texto terminou e eu me peguei pensando em quantas situações parecidas eu já tinha registrado em boletins de ocorrência ao longo da carreira. É o tipo de literatura que te faz digerir a crítica social muito tempo depois de fechar a aba do navegador.

Se você tivesse a oportunidade de escrever e publicar o seu próprio texto no Café Literário, sobre o que ele falaria?

Escreveria uma crônica chamada “O Plantão da Memória”. Nela, eu cruzaria a minha transição de vida: as lembranças do giz riscando o quadro-negro na periferia, o barulho incessante das máquinas de escrever e teclados nas delegacias do DF, e o silêncio cortante do primeiro dia em que acordei oficialmente aposentado, livre para apenas ler o meu jornal e tomar o meu café.

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Caro leitor, caso você também queira ser entrevistado para o Cantinho do Leitor, entre em contato conosco através do e-mail: concursocontosecronicas@notibras.com

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