Curta nossa página


Negócios escusos

Sujeira do PicPay com BRB deixa servidores sem a carne da Friboi

Publicado

Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

Brasília, definitivamente, parece ter desenvolvido uma estranha vocação para transformar o contracheque do servidor público em matéria-prima de grandes negócios. Nesta sexta, 19, mal a poeira do escândalo BRB-Master começou a baixar, surgiu mais uma história envolvendo o Banco de Brasília, a Secretaria de Economia, entidades associativas que orbitam o universo dos servidores distritais e o PicPay — banco controlado pela J&F dos irmãos Batista, que também são donos da Friboi.

A pergunta que ecoa nos corredores do Buriti, na Câmara Legislativa e em rodas políticas é simples: quem autorizou transformar a folha salarial do funcionalismo em um gigantesco balcão de oportunidades financeiras? A resposta pode estar com o Ministério Público do Distrito Federal, que acaba de colocar o dedo nessa ferida ao desencadear a Operação Juros Zero.

O que se viu, então, não foi uma visita protocolar, muito menos um churrasco de desjejum. Os investigadores foram diretamente ao BRB, à Secretaria de Economia, ao Iprev, ao PicPay e a associações envolvidas na engrenagem. Quando promotores, procuradores e integrantes do Gaeco resolveram acordar cedo para cumprir mandados, deixaram claro que não estão atrás de receitas de bolo.

O mais curioso é que tudo começou com uma proposta aparentemente sedutora, de antecipar parte do salário dos servidores sem juros. Diante de uma visão dessas, quem poderia ser contra? Mas havia algo errado e o problema apareceu quando órgãos de controle passaram a enxergar cores diferente da propaganda oficial. Relatórios apontaram a existência de cobranças e tarifas que, na prática, poderiam descaracterizar a promessa de gratuidade vendida ao funcionalismo. O TCDF determinou a suspensão de novas operações e exigiu explicações.

E aqui surge a velha doença da política brasiliense, onde a promiscuidade é institucional. De um lado, uma empresa privada interessada em acessar milhares de servidores. De outro, estruturas públicas capazes de operacionalizar descontos diretamente na folha. No meio do caminho, associações que deveriam proteger os trabalhadores e acabam aparecendo no radar das investigações. Por fim, o servidor, que deveria ser o beneficiário, transforma-se em produto.

O caso é ainda mais delicado porque envolve o BRB, banco estatal que já atravessa uma crise de credibilidade decorrente do escândalo Master. A cada nova operação policial ou ministerial, aumenta a sensação de que aquela instituição deixou de ser instrumento de desenvolvimento regional para se transformar em personagem recorrente das páginas policiais e dos relatórios de auditoria.

Não se trata, aqui, de condenar previamente ninguém. Essa tarefa cabe ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas e ao Judiciário. Mas é impossível ignorar um padrão onde primeiro aparece uma parceria considerada inovadora, depois surgem os contratos e em seguida, os intermediários entram em ação.

Todo esse cenário leva a denúncias. Os órgãos de controle entram em cena e, por fim, descobre-se que o discurso de modernização escondia mecanismos que poucos compreendiam e muitos lucravam. Assim, como um uma fio sem fim, o contribuinte, o servidor e o GDF pagam a conta da meada.

Se o caso Master revelou como operações financeiras sofisticadas podem contaminar instituições públicas, a Operação Juros Zero levanta uma questão igualmente perturbadora. O importante agora é saber quantas mãos passaram a disputar um pedaço do salário do servidor antes mesmo de ele receber o próprio dinheiro. Essa é a resposta que Brasília aguarda, mas não vale ser apresenta por meio de uma mera nota oficial.

…………….

José Seabra é CEO fundador de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.