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Política e futebol

Fanático não tem chance de ser o maior nem em cuspe a distância

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo/Paulo Pinto

Em tempos de Copa do Mundo, não há como dissociar o futebol da política. Atualmente, até o fanatismo define e une o torcedor e o seguidor. A diferença é que os fanáticos apenas votam e torcem. Eles pouco se importam ou se interessam pelas ações de quem elegem. A maioria deles também não está nem aí para a máxima de que o Brasil só é o país do futebol – na verdade já foi – porque ele não se aprende na escola. Apesar de palpáveis, esses detalhes são pequenos diante da grandeza com a qual deveríamos enxergar o esporte, principalmente durante os torneios internacionais.

Infelizmente, a política do fanatismo tem impedido que a explosão dos corações contagie e sacuda todo o país. Nas andanças pelos botecos e pelos gramados das cidades, tenho ouvido que torcer pela vitória da Seleção Brasileira nos Estados Unidos significará se render à força política do candidato que até agora é o favorito para vencer as eleições de outubro. Uma pena, pois, se realmente queremos que a política se pareça com o futebol, precisamos entender que, manter um time ou partido no coração, não impede que torçamos democraticamente pelo Brasil após a apuração das urnas.

Eis a razão pela qual, em situações extremas, eu acabo invejando a ignorância. Faço isso porque ela é eterna. Como cidadão que vota pensando no futuro da nação e, obviamente, da sociedade, não tenho nenhuma preocupação em garantir que aquele que torce contra o Brasil já perdeu sua significância de viver. Como o futebol não é sobre vitórias ou derrotas, mas sobre como se joga o jogo, a política se assemelha a um jogo de xadrez, no qual os resultados sempre dependerão de nossas escolhas, aquelas que nos mostrarão nossa capacidade de evitar o xeque-mate.

Sou um crítico ferrenho das paixões. No entanto, admito a do futebol, mas abomino a política, cuja definição, conforme textual do eterno cronista e jornalista Nelson Rodrigues, é cretinizante, pois é a única sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem. Baseado nessas constatações, talvez eu possa afirmar que se os brasileiros se informassem sobre a política como se informam a respeito do esporte bretão, se escalasse os políticos e os governantes como sabem escalar os diferentes times o país e se brigassem pelos direitos como brigam pelo futebol, certamente o dia a dia do Brasil seria outro. Alguém duvida? Provavelmente os de sempre.

Sabemos todos que, tanto na política quanto no futebol, toda unanimidade é burra. Entretanto, jamais torceria por uma equipe argentina ou uruguaia apenas porque o clube do traíra é, temporariamente, melhor do que o meu. Torcer pelo sucesso de um político ou de alguma coisa, no caso um time de futebol, é entender que o progresso é uma maneira de olhar para o vizinho e dizer: Sou melhor do que ele. Novamente parafraseando Nelson Rodrigues, cada vez mais me convenço de que a política, muito mais do que o futebol, é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes. Comparando o futebol das potências e a política de esquerda e de direita, a suposição é a de que todas as alegrias e as tristezas se parecem.

Todavia, respeitando as posições contrárias, a verdade é que a alegria rubro-negra e a dos progressistas não se parecem com nenhuma outra. Não sei se é vocação, tesão ou religião. Só sei que é diferente. Flamenguista e esquerdista não matam, não dão golpes, tampouco se suicidam nas derrotas. Por mais que não demonstrem, são capazes de torcer pelo Vasco e pelo conservadorismo barato nas arquibancadas do Flamengo e dos libertários ou anarquistas. Com todas as vênias, minha constatação é a de que o brasileiro que sofre do fanatismo congênito e sem nexo não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe a distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade. Isso a direita do Brasil ainda não tem.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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