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De canteiro de obras a polo cultural

A história, o nome e a força do povo que construiu Samambaia

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Autor/Imagem:
Bartô Granja - Foto Divulgação

A história de Samambaia, a 12ª Região Administrativa do Distrito Federal, é o retrato vivo da determinação de milhares de pessoas que buscavam um lugar para chamar de seu. Oficializada no papel em 25 de outubro de 1989, a cidade não nasceu por acaso. Ela surgiu como uma grande ação de moradia planejada pelo governo da época, liderado por Joaquim Roriz. O objetivo era acolher famílias de baixa renda que viviam em condições muito difíceis, como em invasões e fundos de quintal por todo o país, transformando uma área de terra batida em um porto seguro.

Para entender como tudo começou, é preciso voltar um pouco no tempo, bem antes dasfalto chegar. Toda aquela imensa região que hoje abriga prédios e comércios era formada por chácaras de produção de alimentos, que faziam parte do Núcleo Rural Taguatinga. Desde o ano de 1958, agricultores cultivavam ali hortaliças, flores e frutas. Embora os primeiros moradores tenham começado a fincar suas raízes no local por volta de 1985, o desenho de como a cidade deveria ser já estava pronto desde 1978, graças a um plano urbanístico feito para organizar o crescimento do Distrito Federal.

O nome charmoso e marcante da cidade tem uma raiz bem brasileira e ligada à natureza do cerrado. Ele foi herdado do Córrego Samambaia, um riacho que corta a região e que, nos tempos antigos, tinha suas margens cobertas por uma quantidade imensa de samambaias. Curiosamente, a palavra vem da língua indígena tupi — samambaîa — e significa “corda de pesos, de brincos ou de pingentes”, uma descrição poética que os povos indígenas deram ao formato das folhas dessa planta. A nascente desse córrego fica bem pertinho das quadras residenciais 127 e 327.

Quando o governo decidiu oficializar a cidade no final dos anos 80, o local virou um verdadeiro formigueiro humano. Para dar dignidade aos novos habitantes, foram erguidas inicialmente mais de 3.300 casas populares voltadas para trabalhadores de baixa renda e servidores públicos. Essas famílias conseguiram realizar o sonho da casa própria por meio de financiamentos sociais facilitados. A partir dali, o que era um conjunto de moradias humildes começou a ganhar ruas traçadas e o contorno de uma cidade de verdade.

A cultura local de Samambaia começou a se desenhar justamente nessa mistura de pessoas vindas de todas as regiões do Brasil, trazendo consigo festas, sotaques e tradições diferentes. Um dos maiores símbolos dessa memória e da preservação da história local é o Parque Ecológico e Vivencial Três Meninas. O parque foi criado aproveitando o espaço da antiga Chácara Três Meninas, uma das propriedades rurais que resistiu ao tempo e à desapropriação. Hoje, o local funciona como um ponto de encontro e uma referência educativa para a comunidade.

Com o passar dos anos, a cidade deixou de ser apenas um lugar de dormitório e ganhou asas para crescer por conta própria. Um dos maiores empurrões para esse desenvolvimento foi a chegada dos trilhos do Metrô-DF. A Estação Samambaia encurtou as distâncias, conectando de forma rápida os moradores ao Plano Piloto e ao restante da capital. O transporte facilitado atraiu investimentos, o comércio ferveu e as grandes empresas de imóveis perceberam que a região tinha um potencial gigantesco para crescer e se modernizar.

Atualmente, quem caminha pelas avenidas de Samambaia se impressiona com a sua transformação urbana. A cidade se tornou a segunda maior Região Administrativa de todo o Distrito Federal, abrigando uma população que já ultrapassa a impressionante marca de 280 mil moradores. Aquelas primeiras casas do projeto inicial hoje dividem espaço com imensos prédios e arranha-céus, fazendo com que a localidade pareça um canteiro de obras permanente, impulsionado por linhas de crédito e forte apoio financeiro habitacional.

A divisão da cidade reflete bem a organização planejada desde o seu início. Ela é dividida de forma simples e direta entre Samambaia Norte, Samambaia Sul, o Setor de Mansões e as áreas rurais que ainda resistem ao redor. Com mais de 1.200 quadras desenhadas, o trânsito flui bem graças às ruas largas e asfaltadas, além de uma rede de esgoto eficiente. Por ter muito espaço para crescer, a cidade se destaca frente a vizinhas mais antigas, como Taguatinga, cujo espaço para novas construções já está esgotado.

A identidade cultural da região é extremamente rica e multicultural, alimentada diariamente pela convivência nas ruas. A vida comunitária pulsa forte em quatro feiras permanentes espalhadas pela cidade, onde o morador encontra comida típica, artesanato e conversa boa. Além disso, o Complexo Cultural Samambaia funciona como o coração das expressões artísticas locais, dando palco para artistas da terra mostrarem seus talentos em eventos que celebram a enorme diversidade e promovem a integração de todas as idades.

Na área da educação, a estrutura pública foi montada para acompanhar o crescimento das famílias desde a infância. A meninada conta com creches, escolas de ensino fundamental e centros de atenção integral espalhados pelas quadras. Para os jovens e adultos, existem centros de ensino médio e até um espaço dedicado exclusivamente ao aprendizado de novos idiomas. O grande destaque fica por conta do campus do Instituto Federal de Brasília (IFB), que oferece cursos técnicos e de faculdade, qualificando os moradores sem que eles precisem sair da cidade.

A saúde da população também ganhou uma rede de atendimento estruturada ao longo das décadas para garantir cuidados perto de casa. O cuidado do dia a dia é feito por cinco Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde as famílias realizam exames preventivos, vacinação e consultas de rotina. Essa estrutura na base ajuda a evitar o superaquecimento dos hospitais e garante que as gestantes, crianças e idosos tenham um acompanhamento médico constante e de qualidade bem perto de suas residências.

Já para os momentos de aperreio e casos mais urgentes que acontecem no meio da noite, a população conta com a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Samambaia, que funciona de portas abertas 24 horas por dia. Localizada na QS 107, a unidade oferece socorro rápido para adultos e crianças, além de contar com dentistas de plantão. Um fato histórico de orgulho para a comunidade é que essa foi a primeira UPA inaugurada em todo o Distrito Federal nesse modelo de pronto atendimento contínuo.

Olhando para trás, fica claro que Samambaia deixou de ser apenas um projeto social de habitação para se transformar em um verdadeiro motor econômico e cultural do Distrito Federal. Estrategicamente posicionada entre grandes centros urbanos como Ceilândia, Taguatinga e Recanto das Emas, a cidade caminha firme para consolidar seu papel de liderança regional. O nome que veio de uma simples planta aquática hoje batiza o orgulho de um povo que, com as próprias mãos, ajudou a plantar o futuro da capital do país.

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