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A reinvenção de Ed Mort

Homenagem ao imortal Luis Fernando Verissimo

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Arcevo Pessoal

Entre entediado e amargurado, Ed Mort tomava café frio em seu escritório localizado no centro de São Paulo – prédio ladeado por uma fábrica de carimbos e um salão de cabeleireiros – pensando sobre como o tempo tinha sido cruel com sua imagem, saúde e mesmo com seu talento investigativo.

Ele ainda preservava a singularidade e o charme paradoxal (cínico – mas romântico) que o transformaram em um personagem icônico, mas já intuía que sua carreira de detetive e seu carisma de celebridade estavam se aproximando do ocaso.

Interrompendo as suas divagações, um homem de meia-idade entrou abruptamente no escritório sem bater na porta e, parecendo ansioso, perguntou:

— Você é o Ed?

Um tanto contrariado, o famoso detetive respondeu:

— Claro que sou…Mort, Ed Mort, está na plaqueta! Como posso ajudá-lo? Já sei, sua esposa desapareceu, não é mesmo?

— Não, não…na verdade eu não sou um cliente, respondeu o homem com um sorriso benevolente no rosto.

— Olha, me desculpe, mas não quero e nem posso comprar nada no momento.

— Na verdade, pode sim, Ed, mas não como você está pensando! Meu nome é J. Aulus e estou aqui por um motivo muito relevante e transcendente para nós dois, respondeu o homem com um ar misterioso.

Ed Mort foi interpretado no cinema pelo ator Paulo Betti

Mesmo intrigado, Ed respondeu de má vontade:

— Sei, essa entrance faz parte da sua técnica de vendas, não? Sinto muito, Aulus, mas hoje você procurou o cara errado.

— Deixe-me explicar, Ed. De certa forma, sou seu colega de profissão e, mais importante que isso, sou leitor, admirador e amigo do seu criador; sou muito fã de vocês dois! Estou aqui para ajudar você a se reinventar e levá-lo de volta para o futuro, quer dizer, de volta para os bons tempos.

Perplexo, Ed só conseguiu arregalar os olhos e murmurar de forma quase desconexa:

— Como? Você é amigo do Luis Fernando? Me reinventar, que história é esta?

— Explico! Naturalmente você já percebeu que os tempos mudaram muito rapidamente e que os seus métodos de trabalho, sua atividade, seu microuniverso, sua história e, mesmo você, já foram ultrapassados por outros personagens e outros contextos mais atraentes para as novas gerações, não é mesmo?

Recompondo-se como podia, Ed pareceu refletir e admitiu meio a contragosto:

— Pois é, por coincidência, eu estava justamente pensando nessas coisas antes de você entrar aqui, Aulus. Mas se você já sabe disso tudo, sabe também que não depende de mim e sim do Luís Fernando concordar contigo e me reescrever com elementos mais atuais.

— Você tem razão Ed, mas apenas em parte. Acontece que falei com o Luís e ele disse que concorda comigo, porém, qualquer mudança no teu contexto depende fundamentalmente de você também desejar mudar, evoluir e se adaptar aos novos tempos.

— Hum…isso é bem coisa dele, né? Sempre democrático, empático e humanista! Bueno, da minha parte, tudo bem. Mas por onde devo começar a mudar? Roupa, alimentação, lâmina de barbear? Escritório? E como vou fazer isso? Ultimamente, eu estou sempre duro.

— Calma! Isso tudo faz parte sim, mas primeiro temos que priorizar algumas mudanças mais estruturais… e o Luís vai dar um jeito de irrigar um pouco a tua conta bancária. Por exemplo: você precisa criar um Twitter, agora X, uma página no Instagram, no Thread, no TikTok e lançar um site para substituir os anúncios do teu trabalho nos classificados do Estadão.

— Insta e Tik o quê??? Hum…acho que já ouvi falar.

— É importante também fazer lives sobre seus casos e, principalmente, você precisa arrumar uma companheira fixa, charmosa, atuante e interativa para os fãs shipparem o casal, tipo Sr. & Sra. Smith remasterizados.

— Ship…o quê?? Ah, eu já tive algumas namoradas, a última foi a Shirley da lanchonete da esquina, mas ela me chutou há duas semanas porque eu não paguei a conta acumulada dos lanches.

— Alguém que tenha uma postura intelectual admirável, cultura cinematográfica e literária acima da média, posicionamento político progressista, carismática, comunicativa e cativante. Se ela for influencer com milhões de seguidores, nem precisa nada disso!

— Bah! Nunca conheci nenhuma mulher com tudo isso em cima.

— Conheceu sim, lembra daquela tua magnífica cliente do vestido vermelho decotado? Aquela que, quando sentou na frente da tua mesa, você imediatamente travou e pensou: “eles olhavam para mim”? Se bem me lembro, o nome dela era Bianca B., não?

— Sim, como poderia esquecê-la? Mas ela nunca deu sinal de olhar para mim com olhos outros que não fosse interesse profissional, ou seja, eu encontrar o marido dela que tinha desaparecido.

— Você é meio cegueta para essas coisas, Ed! Mas tudo bem você não possuir esse radar apurado, afinal, faz parte do teu charme. Ocorre que ela está solteira agora, te garanto que basta você ligar para ela, convidá-la para sair, conversar sobre a vida e, depois, como quem não quer nada, propor o projeto!

— Bem, se você diz e o Luís me der meios para pagar um jantar decente para ela, eu topo! Pensando bem, vai ficar legal ela falando: “Mort, Ed Mort & B., Bianca B está no – como é que você disse mesmo? – no Instagram!”.

— Excelente! Vai dar tudo certo! Vou falar com o Luís e dizer para ele que você está dentro. Tenho certeza de que ele vai priorizar o “novo Ed Mort” nos contos do próximo livro.

— Será que vai render um novo filme também? Se tiver, gostei do Paulo Betti me representando, viu?

— Sem dúvida! Por que não? E tenho certeza que o Paulo toparia interpretar você novamente com muito prazer!

— Bem, Ed, então está tudo combinado, mas antes de ir embora, queria te perguntar uma coisa meio íntima e delicada sobre a tua relação com o Luís, só curiosidade.

— Claro, pergunte à vontade, Aulus, afinal matar a tua curiosidade é o mínimo que posso fazer para agradecer a baita força que você está me dando.

— É que um dia o Luís me confessou estar meio chateado contigo, mas não disse exatamente porque. Parece que foi um papo contigo sobre personagens dele ou algo assim.

— Ah, sim! Ele já tinha me publicado, além de já ter criado o Analista de Bagé e a Velhinha de Taubaté. Queria inventar outro personagem, mas estava meio sem ideia, aí me pediu uma sugestão. Eu dei, mas acho que ele não gostou muito porque fechou a cara comigo e disse para eu deixar pra lá. Até hoje não entendi o motivo da chateação dele.

— Sério? E qual foi a tua sugestão?

— “A bicha de Anta Gorda”, não achas legal?

Batendo com a mão na testa, Aulus exclamou:

— Bah, Ed, mesmo o Luis Fernando sendo tão genial, ele vai ter muito trabalho para renovar a tua imagem, que os deuses deem muita paciência e inspiração ao coitado do teu criador.

Em seguida, o dedicado fã da criatura e do criador saiu resmungando pelo corredor, agora duvidando da própria ideia.

………………..

J. Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”, disponível no link da Estante Virtual:
.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

A conexão afetiva emulada pelo conto de J. Emiliano Cruz

SOBRE COMO L. F. VERISSIMO CONHECEU “A REINVENÇÃO DE ED MORT”

Brígida De Poli

Para L. F. Verissimo, com carinho e admiração

Durante o ano de 2024, meu amigo J. Emiliano Cruz retomou o prazer da escrita literária, fazendo uma homenagem a um dos escritores mais admirados por nós dois: o também gaúcho Luis Fernando Verissimo.

No conto “A reinvenção de Ed Mort”, Jota colocava o detetive criado pelo genial LFV diante da necessidade de o personagem adaptar-se às novas tecnologias para seguir com sucesso na profissão.

Depois de ler e revisar o texto, achei tão divertido que decidi encaminhá-lo ao criador do impagável investigador. Eu estava acompanhando pela imprensa os problemas de saúde de Luis Fernando, mas decidi que enviaria a inspirada estória mesmo assim.

O conto, publicado no Café Literário, foi remetido juntamente de um bilhete contando sobre nossa admiração por ele e da imaginativa brincadeira que J. Emiliano fizera com Ed Mort, imortalizado no cinema pelo talentoso Paulo Betti. Poucos dias depois recebi uma amável mensagem de Lúcia Verissimo, a esposa e companheira de toda a vida do escritor, acusando o recebimento.

Como LFV referia-se sempre à Lúcia nas suas crônicas, era como se eu já a conhecesse. Gentilmente, escreveu ela:

“Cara Brígida, obrigada pelo conto. Vou ler para o Luis Fernando que depois do AVC está com algumas dificuldades. Sempre é muito bom receber o afago de pessoas como vocês. Um grande abraço da Lúcia”.

J. Emiliano, não sem razão, ficou muito orgulhoso com a possibilidade de nosso ídolo ouvir aquilo que ele escrevera. Afinal, LFV é assumidamente uma de suas maiores referências quando escreve os seus singulares e inspirados contos.

Luis Fernando faleceu alguns meses depois, bem na época em que eu estava terminando de escrever meu segundo livro de crônicas “No Escurinho do Cinema-Memórias de uma cinéfila”. Dediquei-o a Verissimo, além de melhor cronista do país, também um amante do cinema. Enviei um exemplar para Lúcia que respondeu:

“Querida Brígida, desculpe a demora em agradecer a delicadeza de dedicar seu livro ao meu parceiro de cinema e de vida por 61 anos. Depois de contar algumas experiências próprias com a 7ª Arte e confidenciar que o marido adorava “Gunga Din” (1939), de George Stevens, a querida Lúcia encerrou de forma carinhosa e bem humorada: Muito obrigada e um grande abraço de todos nós, família de cinéfilos. P.S.: Proibido comer pipoca e se refestelar na poltrona do cinema Lúcia”.

Um ano depois de sua morte, o autor gaúcho faz muita falta com sua capacidade de falar de coisas sérias com humor, de observar pequenas coisas do cotidiano e transformar aquilo em crônicas impagáveis. Sua escrita ajudava também a chamar

atenção às necessidades sociais e colocar o dedo na ferida de um mundo desigual. Além das crônicas diárias em vários jornais, ele deixou mais de oitenta livros. Grande, imenso, Verissimo!

Brígida De Poli é jornalista e escritora, autora dos livros “As Mulheres da Minha Vida”, “No escurinho do cinema” e “Isto a TV não mostra”.

“ISTO A TV NÃO MOSTRA” e “NO ESCURINHO DO CINEMA” estão disponíveis no site da Editora Insular:

*https://insular.com.br/produto/isto-a-tv-nao-mostra-cronicas-e-revelacoes-de-uma-redacao/

No escurinho do cinema: memórias de uma cinéfila

Autora: Brígida De Poli ISBN: 978-85-524-0563-4 Páginas: 72 Ano: 2025 13 x 21 cm *** Entre a menina que viu um filme pela primeira vez e a mulher madura que saiu da sala de exibição décadas depois, algo permaneceu inalterado: a emoção de ver um filme! No escurinho do cinema, ela riu, chorou, sentiu medo, … Continue lendo No escurinho do cinema: memórias de uma cinéfila

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