Curta nossa página


Vozes da Literatura

Um mergulho no fazer literário de Fernando de Assis

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A coluna Vozes da Literatura tem a honra de receber o escritor Fernando de Assis para um mergulho profundo nos bastidores do fazer literário e nas sutilezas da sensibilidade criativa. Em uma conversa que transita entre a despretensão e o insight agudo, o autor compartilha sua rotina de escrita diária, na qual a leitura atua como um farol crítico para moldar a fluidez narrativa e evitar caminhos estéreis. Sem amarras acadêmicas e movido por uma honestidade intelectual refrescante, Fernando revela como o existencialismo pulsa de forma espontânea em seus personagens — repletos de angústias e escolhas —, transformando sua literatura em um espelho intuitivo das complexidades humanas diante do destino.

Com a bagagem de quem domina a arte da observação, o escritor também lança um olhar atento sobre o papel da crônica urbana no atual cenário de saturação digital, alertando para o perigo de “perdermos a pegada do tempo” diante do consumo veloz de informação. Entre reflexões sobre a pós-verdade como uma ficção maldosa e a defesa da leitura crítica como escudo social, Fernando de Assis brinda o leitor com a sua verve de cronista ao resgatar uma hilária e tensa história de bastidor em um voo rumo a Belo Horizonte. Trata-se de um convite irrecusável para conhecer a mente de um autor que enxerga o ato de escrever não apenas como ofício, mas como uma busca contínua por conexões genuínas e desprovidas de ego.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Muito embora tenha lido alguns clássicos, não creio que tenha dedicado tempo suficiente à leitura do gênero, na verdade preciso muito me redimir dessa falta. O ato de escrever é para mim uma rotina diária, de modo que ler com olhar crítico é fundamental para auxiliar no desenvolvimento de um pensamento durante a tarefa de escrever. O simples ato de ler auxilia enormemente na prática da fluidez de uma narrativa; mas também permite ao escritor perceber caminhos que não deve trilhar.

“Por certo que escrevo com alguma influência filosófica, mesmo que o faça de forma não intencional”

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Aconteceu recentemente que uma psicóloga, pessoa amiga, ao ler uma frase de abertura de um dos livros no qual estou trabalhando, identificou Sartre naquele pensamento. Confesso que não foi algo proposital de minha parte. Por certo que escrevo com alguma influência filosófica, mesmo que o faça de forma não intencional, acredito que aconteça. Os personagens são carregados de desejos, receios e angústias, e por esse perfil a obra apresenta uma abordagem existencialista, com pessoas envolvidas com suas escolhas, mas também com uma certa dose de destino.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Houve uma época em que era comum ao cidadão abrir um jornal para se informar ou mesmo se entreter com algum texto solto, como uma crônica. Gosto da crônica, um texto de leitura rápida e relaxante, e por isso mesmo relevante, penso mesmo que sempre será relevante. Eu mesmo escrevo crônica urbanas, na verdade gostaria de tornar este hábito mais frequente. Por vezes penso em publicar um livro de crônicas, mas preciso criar mais, dar mais material ao livro. O que percebo é assustador, pois, se antes do caos das mídias digitais, reclamávamos do tempo curto que o dia parecia ter, hoje, absurdamente, com tudo mais veloz, esse tempo parece evaporar. Temos que tomar cuidado, muito cuidado para não perder a pegada do tempo, pois ele é impassível, invisível e leve em seu caminhar, e não há retorno para o tempo perdido. Como tudo, as redes sociais precisam ser consumidas com moderação.

“Transformar o ocorrido em um texto de leitura fluida e por vezes engraçada é muito criativo”

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Como cronista sim. Observar um fato e usá-lo com criatividade, passando para o papel o que observou; transformar o ocorrido em um texto de leitura fluida e por vezes engraçada é muito criativo. Vou inclusive aproveitar para narrar um ocorrido que ainda não transformei em crônica, mas veja isto:
Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. Estávamos dentro de um avião da TAM, um turboélice, aeronave pequena, cem passageiros apenas. Todos acomodados, celulares desligados, cintos devidamente afivelados. O comandante partiu as turbinas. É natural que a coisa vibre, mas uma placa da forração do teto da aeronave cair no meio do corredor… isso não é coisa que se veja todo dia.

Bem! A tripulação comunicou à cabine dos pilotos o ocorrido e de imediato as turbinas foram silenciadas. Não demorou e uma equipe da manutenção entrou na aeronave com uma escada e outras ferramentas para sanar o contratempo. O forro foi rapidamente recolocado, porém foi adesivado ao teto com fita ‘Silver Tape’. Obviamente que era para não cair novamente. Só então me dei conta de que havia outras fitas prateadas a enfeitar o teto da aeronave. A coisa causou espanto geral. O passageiro que estava a meu lado não se conteve, soltou o cinto, levantou-se do assento e com um dedo levantado foi em alto e bom som que despejou:

— Eu sou escritor e isso vai para meu próximo livro.

Sem me erguer do assento, encarei o sujeito. Por nada eu perderia aquela bola levantada dentro da área, e no melhor de minha performance, soltei, e o fiz para que todos também ouvissem:

— Só se o senhor chegar vivo a Belo Horizonte.

A gargalhada foi geral.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Pergunto-me… não seria a pós-verdade uma ficção criada por quem tem apreço por convicções pessoais em detrimento da realidade dos fatos? Ou, de outra forma… não seria a pós-verdade uma maneira de formar opinião e conduzir a grande massa em direção a um pensamento ficcional, por sinal maldoso, com o intuito de iludir? A realidade humana, eu diria, é baseada no caos decorrente de cada passo que se dá, por isso é preciso saber para onde se deseja ir, e essa é uma providência que gera menos conflito no trajeto, de outro modo, conforme disse o ‘gato a Alice’: ‘para quem não sabe para onde vai qualquer caminho serve’. Também vale dizer que não basta saber ler, é preciso que a leitura seja feita de modo crítico. O mesmo valendo para o ouvir.

“não podemos esquecer que quebrar as regras pode ser um caminho criativo”

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

O domínio de técnicas pressupõe algum tipo de formação, porém percebo que além da formação o que torna uma pessoa hábil em determinada tarefa é a dedicação em fazer e a busca do aprimoramento ao fazer. Quanto a libertar ou aprisionar a criatividade, penso que os dois podem ocorrer, porém não podemos esquecer que quebrar as regras pode ser um caminho criativo, e é o que por vezes revela um trabalho diferente. Percebo que a segunda pergunta está bem encaixada ou complementa a primeira, porém, não tenho como responder, pois, não possuindo formação acadêmica, minha visão fica incompleta ou carente de referência.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Venho de uma família onde meus pais tinham pouca instrução, e, apesar dessa carência, eles gostavam muito de ler, e foi o que muito me incentivou na leitura e mais tarde na escrita. No final desse questionário, segue um texto, na verdade, o prefácio de meu primeiro livro. Pode ser que ele proporcione uma visão mais detalhada do que pode vir a ser o meu ‘lugar de fala’.

Quanto às críticas e a conexão emocional com meu público, confesso que ainda não tenho essa referência. Seria preciso ter um substancial público leitor, e minha trajetória ainda é modesta. Recebi algumas críticas positivas por uma primeira publicação, porém existe um pensamento filosófico, que agora me escapa em seu texto original, mas que não permite, ou, que não deixa dúvida que é preciso que se tenha certo cuidado com os elogios que recebemos de pessoas próximas.

Obs.: Fiz uma pausa e fui pesquisar na internet o tal pensamento filosófico, pois não o recordava em sua construção original. O pensamento é de Pierre Bourdie: “Os circuitos de consagração social serão tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado.”

“Os grupos são atuantes, complementam e até superam o esforço individual”

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Conhecemos pessoas que se dedicam a esta árdua tarefa. Admiro e concordo. Os grupos são atuantes, complementam e até superam o esforço individual. Por certo que acredito nisso. Imagino que reunir leitores beta para um trabalho em andamento ou já concluído deve funcionar de modo muito positivo também. Penso muito sobre buscar essa ajuda.

“Estou inserido no perfil da escrita solitária”

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Estou inserido no perfil da escrita solitária. As orientações que recebo ocorrem por causa da leitura, momento em que observo, faço críticas e aprendo, por isso, e como não poderia deixar de ser, vejo o ato de conhecer outros pensamentos como uma forma muito positiva de aprimorar a técnica de escrita.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Teclados e telas substituíram a caneta, o papel, a máquina de escrever, de modo que escrever hoje é muito mais fácil. Para alterar um texto, é com muita facilidade que o escritor retorna a uma narrativa ou cena que escreveu vinte, cinquenta páginas antes (por vezes fico a imaginar como era isso no passado). Para o leitor, o acesso à leitura também ficou mais fácil, ou, se preferirmos, mais rápido e menos dispendioso. Lembro-me dos dias em que tinha que entrar em um ônibus e fazer uma longa viagem para ir até uma biblioteca; e era essa a forma única para ler um livro que eu não tinha e que provavelmente não conseguiria comprar; na verdade, uma realidade que atingia não só a mim. Isso sem contar no quanto era difícil enviar um texto para um amigo ou amiga, que por vezes nem morava tão longe. Correios, selos, demoras a receber retorno. Enfim, a tecnologia facilitou mesmo, certamente que foi a grande inspiradora de novos leitores e obviamente escritores, isso sem contar a qualidade que entrega. Mas muito cuidado… temos agora, plantado em meio a esse jardim, o que pode vir a ser uma erva daninha, a emergente IA.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Não sei se alcancei a primeira pergunta, mas vamos lá. Escrever é uma forma de fuga para mim. Fuga da realidade do mundo. Quando escrevo estou dentro da história, junto com os personagens, em florestas, montanhas, vilarejos e casebres, por vezes castelos. Mas carrego um mundo real na narrativa. Por vezes preciso esquadrinhar o passado para dar seguimento, e é quando percebo que nada mudou muito ao longo dos séculos. As dores, fraquezas, angústias e medos permanecem no espírito humano, mas também permanecemos guerreiros e resistentes diante dos problemas.

Trecho do Livro I-MDF de 3mm

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Minha formação é na área exata, mais precisamente eletrônica e instrumentação, que de forma objetiva nada mais é do que física aplicada. Trabalhei por muitos anos em chão de fábrica e unidades marítimas de exploração petrolífera. Muito distante, portanto, das letras. O envolvimento com o trabalho, com a necessidade imediata de ganhar dinheiro para sobreviver foi o responsável por fazer dormitar o desejo de escrever, que por sinal surgiu na adolescência. Hoje estou aposentado, mas faz algum tempo que trabalhos com madeira me atraem, é um hobby, uma herança de meu padrinho. Recentemente fiz um trabalho gráfico que ao final recortei e gravei com auxílio de uma CNC a laser (veja fotos anexas), é um trecho de meu livro, fiz em MDF de 3mm e em papel paraná de 2mm.

O envolvimento com as tarefas sempre ajuda na criação de cenas, e com a oficina não é diferente. Por vezes surge uma fala de um personagem quando a grosa desliza removendo imperfeições da madeira, ou quando o formão dá o acabamento. Caminhadas também proporcionam momentos de desprendimento da mente, o que é muito positivo para a criação. São momentos únicos, que somente quem escreve pode entender.

Trecho do livro I-EnvelhecidoO mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Uma ótima pergunta. Eu gostaria de compreender melhor esse tema. Por outro lado, percebo que, para um autor iniciante, a publicação independente, com lucro de venda o mais baixo possível já é um bom passo para ajudar no marketing. Quando o autor se une a uma editora, o livro não fica accessível em termos de valor. Para um autor iniciante, vender um livro a R$79,00 + Frete é inviável. Não há marketing que possa impulsionar tal venda. Eu não me importo se nada ganhar com a publicação, se o custo do livro e o valor de venda ficar no 0x0, por mim tudo bem, o que preciso é que o livro seja lido, que a obra se torne conhecida, que a crítica venha. Vejo como excelente início ter mil leitores e nenhum real na conta. O dinheiro tem que ser consequência, uma resposta futura ao trabalho, e não um objetivo, uma meta imediata.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

A oportunidade de responder este questionário só existe em espaços democráticos. Receber voz dentro de um sistema que até então era restrito, obviamente que é oportuno e não pode ser desprezado. Contudo percebo que as grandes editoras não são as únicas a impor barreiras a autores novos. Com o crescimento do número de escritores, o mercado se tornou um bom negócio para pequenas editoras, que percebem no autor, não no leitor, sua fonte de renda.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Embora seja um romance de ficção, a obra entrega algumas reflexões ao leitor. Nem todas as reflexões são entregues de forma direta, mas certamente que são perceptíveis dentro do contexto de diálogos. Contudo, tem uma frase que julgo muito forte, e ela aparece de forma direta na abertura do livro II.

“A alma humana é constantemente perturbada pela necessidade de angustiantes decisões.”

PREFÁCIO DO MEU PRIMEIRO LIVRO

Quem nunca contou uma história? Se não contou é certo que chegará o momento de fazê-lo, quer seja para um filho na hora de dormir, para uma netinha ou, quem sabe, para um sobrinho. Mas e se a pergunta sofrer uma ligeira mudança, como por exemplo: “Quem nunca escreveu uma história?” Por certo que a maior parte das pessoas responderá, sem refletir, que nunca escreveu, porém é certo que é mais fácil alguém nascer e morrer sem contar uma história do que viver sobre esta terra sem escrever uma. E isso é uma verdade porque todos nós escrevemos; a cada dia o fazemos, com certeza. Escrevemos um livro único. O livro que conta a história de nossas vidas.

Alguns poderão perguntar o porquê dessa abordagem inicial, e eu respondo que somente quando nos propomos a contar a história de um personagem fictício, que surge em nossa imaginação com seu mundo totalmente particular ou não, é que percebemos como é fantástico o poder de manipular a existência de um ser imaginário a quem damos vida, e é essa sensação que me diz que escrever diariamente os capítulos de nossas próprias vidas pode e deve ser tão fantástico quanto escrever um livro em papel e tinta.

Somos todos personagens nesse grande livro universal, cada qual se debruçando sobre sua própria existência para escrever o melhor que pode sobre si mesmo, e sem percebermos, ao final, temos uma história única e fantástica gravada em alguma região da memória do grande universo que nos cerca.

A tarefa de escrever se configura como uma aventura para mim, porém posso asseverar que tem sido muito prazerosa a experiência, e a apresentação ao público deste primeiro trabalho é extremamente gratificante. Comparo este à obra de um ferreiro que tendo que fabricar a espada de um guerreiro, realiza sua tarefa com esmero, dando o melhor de si, e isso porque da mesma forma que os metais precisam ser combinados e forjados durante muito tempo no calor do carvão, sendo exaustivamente malhados em martelo e bigorna a fim de se obter a dureza e resiliência necessárias, assim também tem sido com esta obra; mas faz somente algum tempo que me dei conta disso.

Meus pais foram pessoas simples, que gostavam muito de leitura. Três filhos homens e uma vontade imensa de vê-los crescer como pessoas de bem. No início, ainda em nossa infância, tivemos nosso primeiro contato com livros ilustrados das fábulas de Esopo, Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Jean de La Fontaine, Walt Disney e, mais tarde as obras do nosso grande Monteiro Lobato. Crescemos nesse ambiente e não poderia deixar passar tais coisas sem registro, expondo de forma simples, porém de coração aberto, o que está gravado em minha alma.

No primário, tive a oportunidade de ser aluno de uma adorável mestra que tinha por hábito de premiar seus alunos com livros. Não eram mais do que dois ou três livros a serem disputados por uma turma numerosa, e eu nunca esqueci do dia em que ganhei o livro O mágico de Oz, de Lyman Frank Baun.

O tempo avançou, veio a adolescência. Eu já havia lido algumas obras de Júlio Verne e ficava fascinado com suas histórias cheias de ficção e ciência. Lembro-me de que foi nessa fase que a vontade de escrever despertou. Não posso precisar a idade exata, mas certamente entre treze e quinze anos.

A leitura de ficção fez nascer o desejo de escrever uma obra daquele gênero. Ora, mas como fazê-lo se nunca me dediquei ao estudo da língua de forma mais profunda? As análises gramaticais e sintáticas eram, para mim, por demais tediosas e complexas, o que tornava minha vontade de escrever um tanto quanto pretensiosa. Porém aconteceu que, sem que fosse algo que premeditasse, essa vontade hibernou como um urso que precisa esperar um longo e rigoroso inverno passar.

Com o seguimento da vida, me formei numa área distante do mundo das letras. A leitura, que até então ainda mantinha por hábito, havia tomado outros rumos passando para o terreno da dura realidade científica do mundo, e menos pelo terreno fantasioso das ficções, se é que não se possa considerar que a dura realidade do mundo também não se configure uma grande ou até mesmo a maior das ficções. Porém é certo que o que dorme não está morto, e embora não percebesse, havia realmente um urso, e ele apenas dormia.

Lembro-me de que morávamos numa casa de dois andares; era uma pequena casa geminada. Foi ali que um novo hábito surgiu – todas as noites, no pequeno quarto de meu filho, eu lia algumas páginas de um livro, sempre antes que ele fosse dormir. Nós até nos revezávamos na leitura; mas como é certo que aconteça quando se lê um livro, um dia terminamos. E foi ao final dessa leitura que fui surpreendido por um pedido de meu filho – ele queria que eu contasse uma história que saísse de minha própria imaginação, e foi nesse momento que percebi que o inverno estava terminando, que o urso se remexia nos fundos da caverna.

É interessante quando penso que a história desse primeiro livro nasceu e foi se metamorfoseando, seguindo por caminhos que por vezes eu mesmo achei desconhecer – foi como andar numa floresta à noite, cheia de feras, duendes e bruxos. Obviamente que havia um roteiro a ser seguido, mas posso afirmar, sem receio de revelar minhas faltas, que me permiti certa liberdade no caminhar nessa floresta, e que devido a esse comportamento, é forçoso confessar que o caminho que trilhei trouxe surpresas. É essa, a meu ver, a grande essência de quem escreve de forma livre – se permitir surpreender por algum personagem ou mesmo por algum lugar que, em sua fantasia, e como se tal possibilidade seja cabível, venha a apresentar sutilezas que o próprio escritor desconheça.

A experiência tem sido algo fascinante, e se coloco dessa forma é porque sei que nada está terminado ainda. Hoje, com mais sessenta anos, não sei bem se foi o longo inverno que após passar trouxe a inspiração e a coragem para que me aventurasse nesse terreno nobre e ao mesmo tempo fantástico, mas o mais importante disso tudo é saber que esta obra não é só minha, e que o universo de alguma forma conspirou e conspira para que tudo seja possível.

…………………………….

Para leitores Beta – Leitor, se você aprecia um bom romance de ficção medieval e gostaria de ser o primeiro a lançar um olhar curioso e apresentar uma visão honesta sobre uma trilogia de tal gênero, então sinta-se pronto para embarcar em uma grande oportunidade. A história se passa num pequeno povoado, em uma floresta medieval, com muitas reviravoltas, cheia de surpresas e idas e vindas no tempo.

Eu, o autor, Fernando de Assis desejo submeter minha obra ao olhar cuidadoso e esquadrinhador de leitores que desejarem embarcar nessa narrativa envolvente.

Contato:

DM – Direct Message do Instagram no perfil @f.assis_escritor

E-mail fassisescritor@yahoo.com

Obs. Caso leitores que não são familiarizados com a temática da obra, porém desejem realizar a leitura, não deixem de fazer contato.

Sinopse

Cansado das perseguições ao povo de seu pequeno vilarejo, um sacerdote se dirigiu ao oráculo em meio à floresta, lugar onde costumava meditar e fazer rituais sagrados. Em estado contemplativo, pediu auxílio aos seres de outras dimensões, rogando força aos espíritos ancestrais. Uma deusa na figura de uma humilde anciã surgiu, e o encontro deu origem a um pacto envolvendo um misterioso enigma em torno de uma caixa contendo três objetos. Entretanto forças do mal se opuseram ao pacto, e mesmo contando com a proteção de um amuleto, o sacerdote foi assassinado. Com sua morte os objetos da caixa foram separados. Muito tempo se passou antes que o amuleto e a caixa fossem encontrados, e quando aconteceu, a história já tinha ganhado vento, como uma lenda soprada através do tempo pelos seres da floresta, espíritos que tudo testemunharam; e depois deles, homens, elfos e feiticeiros se encarregariam de fazer a lenda seguir seu rumo.

OS FILHOS DE WIGAND

Livro I – A Caixa

Livro II – A Poção

Livro III – A Vidente

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.