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Entre jornalistas

O ruído dos outros

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Não era um tipo resmungão, preferia o silêncio a embates infrutíferos, jamais vencidos, apesar dos mais prolixos imaginarem tal inverdade. Que seja, ao maior dos tolos, as batatas. Para que discutir, deixe-o vangloriar-se por qualquer ilusão, por menor que seja.

Osmar Augusto Bastos, jornalista há década e meia, defendia com unhas e dentes o apaziguamento. Os adversários e até os amigos costumavam provocá-lo. Talvez, assim, o sujeito tomasse uma atitude, certamente com os brios feridos. Que nada!

— Tu é mesmo um frouxo, Osmar!

— Do que você está falando, meu caro Antônio?

— Quando é que tu vai responder àquela afronta?

— Afronta?

— Pois não viu o Mauro afirmar que tu não passa de um zero à esquerda quando o assunto é escrever uma matéria decente pro jornal?

— Ele disse isso mesmo?

— Pois não estou te dizendo, homem?

— O Mauro?

— Sim! E quem mais?

— Hum…

— E o que tu vai fazer? Coisa pequena não há de ser.

— Nada.

— Nada?

— Pessoas têm opiniões, meu caro Antônio.

— Pois tu é mesmo um cagalhão!

Osmar poderia levar aquelas palavras para o coração, mas preferiu abster-se de contendas desnecessárias. Melhor seria escrever um poema. Inspiração não lhe faltava, até a simplicidade de vestimenta de um solitário joão-de-barro ganharia cores a cada verso.

Antônio, há poucos meses na redação, talvez entendesse aquela atitude como de alguém pusilânime, e isso o incomodava, como se fosse preciso encarar a ofensa como algo grave. Pensou em ir tirar satisfação com Mauro, porém, desprovido de sustança corporal, preferiu fazer nova investida no colega.

— Osmar, você sabe que isso não pode ficar assim, né?

— Hum… Creio que você tem razão.

— Ah, até que fim! Tu vai tomar uma atitude. Que bom!

— Você acha que poesia com rima está fora de moda?

— O quê?

— Poesia. Com ou sem rima?

O homem se aproximou e percebeu que Osmar estava escrevendo umas estrofes. Puxou o ar com força e o expeliu logo em seguida. Sem perspectivas de resolver algo que o incomodava, apesar de não lhe dizer respeito, Antônio foi ter uma conversa com Armando, o editor-chefe.

— Armando, tu tá sabendo o que anda acontecendo por aqui?

— Não.

— O Mauro.

— O que tem ele?

— Anda dizendo que o Osmar é um péssimo jornalista.

— Hum… E daí?

— E daí? Ah, se fosse comigo!

— E foi contigo?

— Não.

— Então, tá resolvido.

— Mas…

— Olha aqui, Antônio, enquanto a língua do Mauro é um escorregador, o Osmar parece que nasceu com uma batata em cada ouvido.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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