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Espaço Raiz

O poço falante

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Autor/Imagem:
Fernando de Assis - Foto Francisco Filipino

Faz tempo que assumi o compromisso de passar para o papel um caso muito interessante que tomei conhecimento. É isso mesmo, não se trata de uma dessas histórias fantasiosas que surgem em nossa cabeça; e repito, apesar de ter demorado a dedicar tempo em escrever, tudo que passo a relatar é a mais pura verdade.

O ocorrido se deu aqui mesmo no Rio da Prata, na nossa velha Estrada do Lameirão Pequeno, aconteceu com um vizinho, o Nilton, proprietário de um aconchegante espaço ao qual costumamos chamar de “Casa de Festas”. Não, o ‘Espaço Raiz’ é muito mais que uma casa de festas, seria diminuir sua importância chamar aquele lugar mágico desse modo. Eu diria que o ‘Espaço Raiz’ é um lugar de realização de sonhos, onde o toque da mão de quem ama o que faz, transforma o lugar no que a mente humana bem desejar.

O Nilton é um desses camaradas de sorriso fácil e franco, que transborda receptividade, simplicidade e simpatia; um sujeito que através de seu carisma convida o espírito de quem chega a se juntar ao seu e ocupar a casa. Sujeito criativo e sempre atento às necessidades dos clientes amigos que se servem do ambiente, o Nilton é zeloso com tudo o que cuida, e faz tudo com carinho.

Bem! O caso que passarei a relatar teve início em um desses momentos em que a casa estava cheia. O Espaço Raiz recebia familiares e amigos que comemoravam o feliz dia de aniversário do pequeno Pedro. Durante o evento, Nilton observou que as crianças realizavam uma atividade, uma brincadeira, que o deixou, porque não dizer, triste, pois vejam: seu pé de laranjas estava sendo depredado pela molecada; as crianças estavam arrancando as laranjas para se entreterem com uma brincadeira de guerra, onde um atirava contra o outro suas ‘bombas’ cítricas e esféricas. Obviamente que além de ver sua laranjeira destruída, havia o risco de as tais ‘bombas’ causarem um terrível contratempo, fosse por danos materiais ou conflito humano.

O fato é que Nilton observou o caso não só com tristeza e preocupação, mas com o sentimento de que algo teria que ser feito a fim de evitar que novas guerras ocorressem; afinal, sua laranjeira não teria como fornecer munição para muitas batalhas. No princípio, Nilton até pensou em fazer uma cerquinha toda pintada de branco em torno da laranjeira; uma cerquinha feita de estacas, que dá a clara sensação de se estar em uma fazenda. Contudo, não demorou e essa ideia não lhe pareceu ser a solução mais adequada, pois Nilton sempre teve em mente que seu espaço não deve possuir nenhum tipo de limitação à liberdade de quem o frequenta, e por isso a ideia foi deixada de lado.

É comum acontecer que ao nos depararmos com uma dificuldade, e após muito cismar sobre o que fazer para transpor tal obstáculo, acabemos deixando a questão dormitar nas gavetas de nossa mente. Mas deixar a coisa dormitar não significa esquecê-la – a coisa está lá… viva, sendo trabalhada em segundo plano por nossas atividades cerebrais. E, de forma inacreditável, quando menos esperamos nos vemos diante da solução. Uma solução que nos chega parecendo vir do nada; enfim, a resposta tão desejada. Obra do acaso? Não creiam nisso, meus amigos. É claro que não é obra do acaso. Seguramente que tem a ver com nosso espírito, que de modo incessante e por vezes em momento de desprendimento, trabalha buscando conexões com outras mentes e coisas, e repentinamente… Eureka! Está lá, diante de nossos olhos a solução! Pois foi assim que, de tanto matutar em busca de uma solução, aconteceu com Nilton.

A ideia do poço foi genial. Não, não é um poço de verdade, mas quem o vê pensa que é, principalmente as crianças. Sim o poço está lá, a um canto do Espaço Raiz, destacado de maneira estratégica; visível e de acesso fácil, porém inofensivo, pois como disse, não é um poço de verdade, e, portanto, não oferece nenhum tipo de risco, nem a crianças nem a adultos. Enfim, se quisermos usar uma palavra mais na moda para nos referirmos ao tal poço do Nilton, podemos chamá-lo de ‘poço fake’.

Que maravilha! Um poço ao melhor estilo. Feito de tijolinhos, no formato circular, com telhadinho e tudo. Parece um daqueles poços de vilas medievais. Ora, mas o que o poço ‘fake’ do Nilton tem de tão especial? E que raios tem a ver com a tal laranjeira? Calma que eu chego lá. O poço do Nilton foi construído aos moldes das histórias infantis, saído dos contos de fadas – um poço falante. É isso mesmo. O Nilton colocou um sistema de som com sensor de proximidade e deu voz ao poço. Basta uma criança se aproximar e a coisa fala.

— Ooooiiii! Qual é o seu nome?

Ainda tem aquela esticadinha no tal ‘Ooooiiii’, e obviamente que tem também o intervalo para a resposta. É claro que a criançada fica encantada e de imediato diz o nome. E a coisa não para por aí:

— Qual o seu time?

Pronto, o diálogo está estabelecido. A conversa continua:

— Vocês gostam da natureza?

Quase lá! A criançada gosta, é claro. Passarinhos, árvores, formigas e borboletas. O poço adverte:

— Então, meus amiguinhos… não arranquem as laranjinhas, elas ficam tristes quando são tiradas tão jovens de sua mamãe laranjeira.

Caramba! O Nilton foi genial nessa. Foi mesmo.

Mas acontece que embora seja falante e inofensivo, o poço pode ser também assustadoramente medonho. É isso mesmo. Pois vejam o que aconteceu. Certo feita, o Espaço Raiz recebeu um grupo de adultos num evento onde crianças não estavam presentes, era um evento ecumênico. Bem, o Nilton, sempre zeloso, e pensando em deixar as pessoas o mais à vontade possível, espalhou as cadeiras aqui e ali; algumas na grama, outras em área coberta. Enfim, a noite prometia que seria quente, então convinha tal providência.

Era um fim de tarde para o anoitecer e o horário combinado para início do evento se aproximava. De forma providencial, Nilton cuidou de ligar os disjuntores que alimentam a iluminação do salão, do jardim e de tudo o mais. No entanto, sem se dar conta, Nilton acabou energizado o circuito da tal engenhoca que dá vida ao poço, ou melhor, voz.

Os convidados foram chegando, e logo todos confraternizavam. Porém aconteceu que, lá pelas tantas, uma senhorinha, sentindo-se acalorada buscou assento em uma das cadeiras no jardim, longe de todos. Por certo que buscava ar fresco, fora do salão, pois a noite estava mesmo quente, e assim ela fez, sentou-se em uma cadeira sob o céu. Num primeiro momento nada aconteceu, o local onde a idosa senhora se sentou parecia adequado para o tão salutar repouso, mas assim que ela começou a remexer o traseiro sobre o assento da cadeira, o tal sensor de proximidade do poço entrou em ação, e em alto e bom som a coisa emergiu com o seu prolongado e cordial cumprimento.

— Ooooiiii! Qual é o seu nome?

Nem é preciso dizer que a senhora tomou um grande susto, não é mesmo? Sobressaltada e com os olhos excessivamente abertos devido ao assombro, a senhora saltou na cadeira que então adernou devido ao brusco movimento levando-a a se estatelar no chão, desmaiada. O filho, atento, viu o que se sucedeu e partiu desesperadamente em socorro da mãe. O Nilton, muito alarmado e no mais completo senso humanitário de prestação de socorro à senhora, também correu até o lugar. Indiferente ao que acontecia, o poço prosseguiu.

— Qual é o seu time?

Àquela altura o alvoroço estava estabelecido. Alguém foi buscar uma garrafa de álcool, outro chegou com alho esmagado, ambos para serem inalados. Ao final, e para a felicidade geral, a senhora voltou a si. Água fresca para beber e um bom abanador foram mais que suficientes para restabelecer a lucidez.

Quando tudo parecia contornado, foi que a senhora se deu conta de que fora vítima de algo muito infantil. Sentindo-se meio envergonhada pelo ocorrido, ela saiu em sua própria defesa:

— Não me importei quando ouvi a voz dizendo ‘Ooooiii!’. No entanto, quando aquelas mãos geladas apertaram meu pescoço… vi tudo rodar e desmaiei.

Agora vejam só! ‘Mãos geladas no pescoço’. Que bela saída teve a senhorinha. Mas levemos em consideração que um pouco de imaginação não é nada demais, não é mesmo? Os idosos também possuem esse senso que por vezes observamos nas crianças. Afinal, todos já ouvimos dizer que quando envelhecemos voltamos à mais tenra idade, e porque não dizer, ao nosso espaço raiz.

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