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Cantinho do Leitor

João Alves de Matos, o leitor que vê o Brasil através do Café Literário

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Natural de Formosa do Rio Preto, no extremo oeste baiano, João Alves de Matos traz no sorriso a calmaria da sua terra natal e, no passo firme, a malandragem de quem adotou o Rio de Janeiro como lar há quase quarenta anos. Autodeclarado “baioque” — uma mistura afetiva de baiano com carioca —, ele é o convidado especial de hoje na nossa coluna Cantinho do Leitor. João é o retrato vivo do imigrante brasileiro que aprendeu a amar o Cristo Redentor sem jamais esquecer suas raízes ou deixar de saudar Iemanjá, carregando no peito dois corações que batem no ritmo sincretizado do Brasil real.

A conexão com a leitura e o espaço da colunaÉ nessa intersecção cultural que floresce a sua paixão incurável pela literatura, um hábito que ele cultiva como um ritual diário de escape e reflexão diante das miudezas da rotina urbana. Leitor assíduo do Café Literário, João encontrou no portal uma escrita viva e sem frescuras, capaz de traduzir desde o calor infernal da Avenida Brasil até o cheiro nostálgico de dendê da infância. Na entrevista a seguir, ele compartilha no nosso Cantinho do Leitor, com sua ginga e pimenta características, como as crônicas e contos independentes se tornaram o seu “vício” definitivo.

“O Café me mostrou que tem uma moçada independente produzindo texto com a ginga da rua, sem frescura”

De que forma a leitura das nossas publicações mudou o que você pensa sobre a literatura independente no Brasil?

Olha, o Café Literário abriu meus olhos de um jeito bonito. Eu achava que a literatura de peso no Brasil estava presa só nos grandes eixos do passado. Mas o Café me mostrou que tem uma moçada independente produzindo texto com a ginga da rua, sem frescura. É uma escrita viva, que não pede licença e mostra o Brasil real.

Qual gênero do Café Literário é o seu “vício” definitivo, aquele que você devora até a última linha? Por quê?

A crônica, sem sombra de dúvidas. Sou baiano, gosto de prosa, de prosear olhando o movimento. E a crônica tem esse espírito. Ela pega o miúdo do dia a dia — o ônibus lotado na Avenida Brasil ou o calor infernal — e transforma em arte. Devoro logo no café da manhã, antes de encarar a rotina.

Qual conto, crônica ou poesia daqui parece que foi escrito sob medida para a sua rotina ou para a sua realidade no Brasil?

As crônicas urbanas que falam de transição e de calçadas. Moro no Rio há quase 40 anos, sou praticamente um “baioque” (baiano com carioca). Quando leio textos sobre o contraste do sotaque, a saudade da terra natal e a correria da Central do Brasil, sinto que o autor sentou do meu lado no boteco para escrever.

Algum texto do portal já te fez parar tudo, repensar a própria vida e mudar de perspectiva sobre algo?

Teve um conto sobre a velhice e as memórias da infância que me pegou de jeito. Me fez largar o celular por uns minutos, olhar pela janela aqui no Rio e lembrar do cheiro do dendê da minha saudosa mãe lá na Bahia. Me deu um estalo sobre o tempo que passa rápido demais e a importância de não esquecer de onde vim.

O que muda para você entre a experiência rápida de ler no Café Literário e o ritual de folhear um livro físico?

O Café Literário é o meu “vapt-vupt” no metrô ou na fila do banco, aquela dose de cultura rápida para aliviar o estresse do Rio. Já o livro físico é o meu momento “oxalá”. É para o fim de semana, com calma, uma cerveja gelada do lado, sentindo o cheiro do papel. Um complementa o outro perfeitamente.

Quando um conto ou poesia mexe com você, você costuma compartilhar nas suas redes para indicar aos amigos?

Sempre compartilho com os colegas do trabalho. Às vezes, quando o texto é muito marcante, compartilho no Instagram.

 

“Eu sou baiano, gosto de um bafafá e de uma boa conversa”

Você costuma debater os textos com outros leitores do Café Portal, ou prefere fazer uma leitura mais silenciosa e individual?

Eu sou baiano, gosto de um bafafá e de uma boa conversa! Às vezes deixo meu pitaco lá, misturando minha vivência de Salvador com a malandragem que aprendi por aqui. Acho bacana ver como o mesmo texto bate de forma diferente em cada cabeça.

Qual foi o novo talento ou autor revelado no portal que te conquistou logo de cara pela escrita? O que ele(a) tem de especial?

Tem uma autora, a Fabiana Saka. Olha, que escrita arretada e cheia de ironia! Ela bota uma pimenta sutil nas palavras que faz a gente ler sorrindo da audácia da personagem. Tem a ginga que eu gosto.

Qual foi o último texto lido aqui que te deixou com aquela ressaca literária do tipo “preciso de uma continuação urgentemente”?

Foi justamente esse conto da Fabiana. Era sobre um casal de namorados que faz juras de amor eterno, mas depois cada um segue seu caminho. E todos nós temos um caso assim, eu acho, que imaginamos que era para sempre, mas o destino apronta coisas

Se você mandasse na nossa redação por um dia, qual tema ou assunto pediria para os escritores do Café Literário escreverem?

Pediria uma série especial sobre os “imigrantes invisíveis” do Brasil. Queria ver crônicas sobre os nordestinos, nortistas e mineiros que constroem as grandes metrópoles como o Rio e São Paulo, misturando a saudade da terra deles com o amor pela cidade que os acolheu.

Se a próxima crônica ou conto publicado no Café Literário fosse assinado por você, qual história você contaria ao mundo?

Eu contaria a história de um rapaz que saiu de Salvador de ônibus nos anos 80, com uma mala cheia de sonhos e quase nenhum tostão, e que aprendeu a amar o Cristo Redentor sem nunca deixar de saudar Iemanjá. Uma história sobre como ter dois corações batendo no mesmo peito.

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Caro leitor, caso você também queira ser entrevistado para o Cantinho do Leitor, entre em contato conosco através do e-mail: concursocontosecronicas@notibras.com

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