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Inaldo ou Sovinaldo

Até carimbada serve

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Autor/Imagem:
Fernando de Assis - Foto Francisco Filipino

Outro dia eu estava passando pelo comércio aqui perto de onde moro e vi um sujeito perguntar a um desses vendedores que expõe mercadorias sobre a calçada, o preço de uma raquete de matar mosquitos. O vendedor respondeu prontamente:

— Trinta reais!

O sujeito pareceu se desinteressar, então seguiu seu rumo. Percebendo que não iria vender a raquete, o vendedor tentou retê-lo.

— Mas posso fazer por vinte e cinco pro senhor.

O camarada ouviu a proposta, mas continuou andando, sem dar atenção.

— Se me der vinte em dinheiro pode levar – insistiu o camelô mais uma vez.

O sujeito retornou. Enfim, venda feita.

O caso me fez lembrar de um amigo. Certamente que a redução substancial do preço agradaria ao Inaldo; porém, com Inaldo, a coisa iria mais adiante, pois antes de fechar negócio, ele perguntaria se não seria possível fazer por quinze.

Sovinaldo, pois é assim que entre amigos chamamos o Inaldo, pede desconto em todos os negócios que faz; com camelôs e em balcão de loja a coisa chega a ser sagrada e até mesmo constrangedora. Não que eu ache que o Inaldo esteja errado em pedir desconto, e para ele a coisa é desse jeito, é assim que funciona.

Certa vez ele se dirigiu a um menino que suava carregando uma pesada caixa de isopor ao sol, na praia:

— Não dá pra fazer um desconto?

O menino o encarou. Fiquei estupefato. Inaldo queria desconto num picolé de dois reais. Mesmo assim o menino se rendeu:

— Um e oitenta.

Vinte centavos de desconto. Aquilo agradou muito o Inaldo. Vi isso em seus olhos.

Em outra ocasião eu soube o que aconteceu no banco, e foi o próprio Inaldo quem me contou. Ele disse ao caixa do banco que por estar pagando o boleto com um dia de adiantamento, desejava que fosse considerado um desconto. Diante da impossibilidade de ser atendido em sua reivindicação, foi sem a menor cerimônia que Inaldo recolheu o boleto e disse que voltaria no dia seguinte para pagar.

Mas houve outro caso mais intrigante, e esse eu presenciei, aconteceu num bazar. A mulher do caixa recebeu das mãos de Inaldo a mercadoria para processar o pagamento; era um desses conjuntos com meia dúzia de copos.

— São vinte e quatro reais – disse a mulher após passar o código de barras pela leitora.

— Vinte e três reais e noventa e nove centavos – corrigiu Inaldo.

Até aí ele estava certo; mania que tem as pessoas de fazer esses arredondamentos indevidos. É somente um centavo, mas não é correto, afinal, o preço está determinado no código lido pela leitora e na etiqueta exposta ao público.

Bem, a conversa seguiu depois da atendente torcer o nariz para aquela observação.

— Mas não tem nenhum desconto? – já era o Sovinaldo falando.

— Não senhor – devolveu a mulher secamente, insatisfeita pela correção que ele fizera e que soara como uma bronca.

Inaldo olhou para uma senhora atrás do balcão, ao lado da caixa. Ela parecia ser a dona do negócio, então dirigiu-se a ela:

— Puxa! É isso mesmo? Sem desconto?

A tal senhora se dirigiu a ele com educação:

— Lamento, mas não temos como dar desconto nas mercadorias em promoção – explicou.

— Nem se eu pagar em dinheiro?

— Não – dessa vez foi a mulher do caixa quem falou.

Mas Inaldo tinha os olhos muito ativos, e não deixou de perceber um pote de balas sobre o balcão.

— E umas balinhas, pode ser? – Perguntou sorrindo, com cara de menino, e ainda insistiu. – É só pra adoçar a boca.

Percebi que as duas mulheres acharam aquilo bem idiota.

— O preço da bala está no pote – espetou a mulher do caixa em tom de vingança, sob o olhar da patroa.

No início havia duas pessoas atrás de Inaldo, mas àquela altura a fila crescia, todos o observando. Inaldo não era pessoa de sair sem um desconto ou mesmo um agrado, mas sua insistência estava atrasando o serviço e tirando a caixa do sério. A senhora o observava com cautela, desejando que ele fosse logo embora. Por fim, Inaldo abriu a carteira, tirou vinte e cinco reais e fez o pagamento. Por sua vez a atendente lhe devolveu a sacola com os copos, a nota do caixa e uma moeda de um real. Inaldo observou seu troco; ele sabia que moedas de um centavo não existem, mas não se conformaria em abandonar seu dinheiro, mesmo que um único centavo. Colocou a moeda de um real no bolso e enquanto o fazia, seus olhos foram na direção de um carimbo ao lado da mulher do caixa. A caixa percebeu e se aprumou, cautelosa. Sem pestanejar Inaldo estendeu o braço colando a mão fechada sobre o balcão, com as costas da mão virada para cima, e então determinou:

— Dá uma carimbada aqui.

Aquele pedido era ridículo, o cúmulo do absurdo. Revoltada, a mulher olhou para a patroa, pegou o carimbo e depois de o bater forte três vezes contra a almofada de tinta, chapou a coisa com vontade, contra as costas da mão de Inaldo. Ele soltou um gemido de dor, mas em seguida o cretino deixou escapar um belo sorriso.

Foi somente depois, quando já estávamos do lado de fora da loja que compreendi aquele pedido ridículo do Inaldo: além de não ter ficado satisfeito por não obter o tal desconto, Inaldo não tencionava abandonar seu centavo, queria a qualquer custo receber seu troco, e nada mais justo do que levar um pouco da tinta do carimbo da loja. Afinal, para o Inaldo é desse jeito, se não tem desconto, até uma carimbada serve.

Nas costas da mão de meu amigo Sovinaldo se podia ler na tinta deixada pelo carimbo, com as letras bem grandes:

“PAGO”.

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