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Cantinho do Leitor

Andanças e leituras de Rilma Ribeiro

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A literatura tem o poder mágico de encurtar distâncias e costurar as diferentes fases da nossa vida. É exatamente essa colcha de retalhos afetiva que encontramos na trajetória da nossa leitora de hoje, Rilma Ribeiro. Nascida sob o mormaço e a rica tradição poética de São Luís do Maranhão, ela passou décadas de sua vida moldada pelas linhas geométricas, pela secura e pela imensidão de céu aberto de Brasília. Há anos, Rilma decidiu que era hora de fazer as malas e retornar em definitivo para as suas raízes litorâneas, trazendo na bagagem a maturidade de quem viveu intensamente o Planalto Central, mas escolheu redescobrir o sotaque suave e o vento do mar da sua terra natal.

Foi nesse movimento de retorno ao lar e de busca por respiros no cotidiano que Rilma encontrou no Café Literário o seu oásis particular. Para ela, ler os autores independentes do portal tornou-se um ritual sagrado de fim de tarde, uma pausa restauradora onde a pressa das metrópoles silencia para dar lugar à sensibilidade das palavras. Puxe uma cadeira, sirva-se de uma xícara morna de café e acompanhe este bate-papo encantador no nosso Cantinho do Leitor, onde Rilma nos conta como divide seu coração entre as saudades, seu amor devoto pela poesia de Luzia Couto e as surpresas narrativas que a fazem fechar os olhos e saborear a boa leitura.

De que forma os textos do Café Literário mudaram os seus critérios para escolher novas leituras fora do circuito das grandes editoras?

Mudaram completamente. Eu, que nasci na tradição poética de São Luís, passei muitos anos vivendo no quadradinho de Brasília e há algum tempo decidi retornar para o meu Maranhão, costumava buscar literatura apenas nas livrarias tradicionais. O Café Literário quebrou esse hábito. Ele me mostrou que a força da palavra não depende do selo de uma grande corporação. Hoje, meus olhos procuram o frescor e a liberdade que só o autor independente tem para traduzir nossas andanças reais.

“A poesia é o meu prato principal, o meu arroz de cuxá afetivo”

Se o Café Literário fosse um cardápio real, qual gênero seria o seu prato principal e obrigatório em cada visita? Por quê?

A poesia é o meu prato principal, o meu arroz de cuxá afetivo. Mas os contos e crônicas são acompanhamentos obrigatórios. Meu tempo em Brasília me ensinou a valorizar a literatura de formato mais ágil por causa do ritmo da capital. Hoje, de volta a São Luís, mantenho esse hábito de ler narrativas breves, mas agora as saboreio com a calma que o mormaço da ilha pede.

Qual texto lido aqui capturou de forma mais fiel a alma, os sons e os cenários da cidade ou regionais onde você mora?

Lembro-me de uma crônica belíssima que falava sobre o reencontro com o mar e o sotaque da terra natal após anos de ausência. Senti um nó na garganta. O texto descrevia perfeitamente a sensação de pisar novamente no Centro Histórico de São Luís, ouvir o sotaque suave da nossa gente e sentir o vento litorâneo que limpa a poeira que a gente acumula quando mora longe de casa.

“Nós nos tornamos uma colcha de retalhos das cidades que habitamos”

Qual crônica ou conto serviu como um “espelho incômodo”, fazendo você enxergar uma mania ou hábito seu sob uma nova ótica?

Foi um conto sobre a “saudade reversa” — aquela sensação de passar anos sentindo falta da terra natal e, ao voltar, começar a sentir falta do lugar que você deixou para trás. Como passei grande parte da vida em Brasília e retornei há anos para São Luís, o texto me tocou fundo. Fez-me perceber que o coração da gente nunca fica em um lugar só; nós nos tornamos uma colcha de retalhos das cidades que habitamos.

O formato digital do Notibras funciona para você como uma pausa restauradora no meio do caos diário ou como o ponto de partida do seu dia?

É a minha pausa restauradora de fim de tarde. Abro o portal quando o sol começa a baixar aqui na ilha e as obrigações dão uma trégua. É o meu casulo para desligar do barulho do mundo e mergulhar na sensibilidade dos autores.

Quando uma frase ou estrofe te impacta profundamente aqui no site, qual é a sua reação imediata?

Releio várias vezes em silêncio e fecho os olhos por alguns segundos. Gosto que a palavra assente no peito primeiro. Só depois de digerir bem aquela beleza é que eu penso em guardar na memória ou compartilhar com alguém.

“Leio todos os outros escritores, mas a Luzia Couto é a que leio primeiro”

Se você precisasse indicar apenas um escritor descoberto aqui no portal para um amigo estrangeiro entender o Brasil de hoje, quem seria?

Eu indicaria a Luzia Couto. As poesias dela mexem comigo. Sou muito romântica, acredito no amor. Leio todos os outros escritores, mas a Luzia Couto é a que leio primeiro.

Qual texto lido aqui deixou em você aquela sensação incômoda de que a história terminou, mas os personagens continuam vivendo a vida deles por aí?

Um conto, foi neste ano, era sobre um pai que encontra a filha na rodoviária. A relação deles não era boa, o pai havia se separado da esposa há muitos anos. Acho que é do Daniel Marchi, mas não tenho certeza. Aliás, acho que é dele sim. Sim, é dele com certeza.

Qual narrativa do site subverteu totalmente as suas expectativas, entregando uma reviravolta que você jamais conseguiria prever?

Uma crônica que parecia ser uma declaração de amor profunda e nostálgica de um homem para sua companheira de décadas, detalhando seus silêncios. No último parágrafo, descobrimos que ele estava falando da sua velha máquina de escrever de infância. Achei genial e de uma delicadeza ímpar. Não me lembro quem a escreveu. Ah, a memória vai falhando com o tempo.

“A poesia é o meu prato principal, o meu arroz de cuxá afetivo”

Se você pudesse encomendar um texto exclusivo para o seu escritor favorito do Café Literário, sobre qual dilema da vida moderna você pediria para ele escrever?

Pediria uma crônica bem afiada sobre o retorno para casa. Sobre como é redescobrir as suas próprias raízes depois de passar décadas sendo moldada pelos horizontes e pela arquitetura geométrica de Brasília. O desafio de se readaptar ao lugar de onde você saiu, sendo uma pessoa completamente diferente.

Qual memória esquecida da sua infância daria uma excelente crônica de abertura se você ganhasse uma coluna no Café Literário hoje?

Escreveria sobre o dia em que arrumei as malas para voltar em definitivo para São Luís. O contraste entre o céu aberto do Planalto Central que eu deixei para trás e o cheiro de mar que me esperava no desembarque. O título seria A geometria do horizonte e a curva do mar.

Para fechar com chave de ouro e publicar no portal, o que você acha de darmos um título bem bonito para esse perfil?

Eu sugiro:  Andanças e leituras de Rilma Ribeiro. Se quiser ver outras opções de títulos ou precisar de ajuda para divulgar o questionário, me avise!

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Caro leitor, caso você também queira ser entrevistado para o Cantinho do Leitor, entre em contato conosco através do e-mail: concursocontosecronicas@notibras.com

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