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Ideiais e ideais

Haiquadras

Publicado

Autor/Imagem:
Luiz Martins da Silva - Texto e Aquarela

Companhias

Quando é madrugada,
(Pensamentos vagueiam)
Seguem pela calçada
Um gato e a lua cheia.

Flamboyants

Outra vez, tinturas:
Assopros do mundo.
Folhas-calendários:
Pétalas aos nimbos.

Cigarra

Melhor não seria
Meu corpo assovio?
Delego ao frio,
Casca fina de mim!

Devaneios

Impossível contar
Tantos carneiros.
Nuvens ao léu
Revolvem novelos.

Arrepios

Noites temporais
(O Céu e a Terra)
Trocam segredos,
Com amor e medo.

Passagem

A tarde se foi,
Parquinho vazio.
Tão logo mancebo,
A infância dormiu.

Fermentos

Cheiro forte
(terreno baldio).
Saliva de larvas
Fechando o estio.

Umectâncias

Paiol úmido
(parece degelo).
Não tarda o estrume
Irromper cogumelos.

Feto

Broto de feijão
(na terra encharcada).
Pescoço no chão,
Futuro no caldo.

Oráculo

Trevo na estrada
(a sorte se lança).
Deus joga dados?
Senão, prenúncio.

Bafos

Chá de poeta
(chaleira em vapor).
Versos de asceta,
Verão de torpor.

…………………………….

*Haiquadra. Desde o ano 2000 o autor Luiz Martins da Silva realiza experimentos na busca de um sincretismo do haicai (japonês) com a quadrinha (brasileira), laboratório ao qual denomina “haiquadra”, diálogo intercultural, talvez, por viver em uma cidade marcada no seu planejamento por quadras e superquadras, mas sobretudo pelo que os dois gêneros de ‘poema curto’ têm em comum, uma certa espiritualidade despretensiosa. Essa prática já resultou em publicações, entre elas, os livros Realejo e Haicais, haigas e outras percepções.

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