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Vozes da Literatura

O eco das fraturas cotidianas na escrita de Maga de Moraes

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Há quem enxergue os livros como monumentos estáticos, mas para a escritora Maga de Moraes a literatura é um organismo vivo, dissecado diariamente sob o olhar atento de quem equilibra o rigor jornalístico e a liberdade da ficção. Ex-frequentadora assídua de oficinas literárias e defensora da técnica como ferramenta de libertação criativa, Maga carrega na escrita as marcas de uma observação aguçada do cotidiano. Em suas obras, a crônica urbana ganha o fôlego de uma resistência deliberada contra a pressa dos algoritmos digitais, encontrando no contato direto com o leitor o silêncio necessário para fazer ecoar as complexidades das relações humanas.

Nesta entrevista exclusiva para a coluna Vozes da Literatura, a autora mergulha nas tensões filosóficas que servem de bússola para os seus conflitos narrativos — transitando do realismo brutal de Schopenhauer às análises contemporâneas de Byung-Chul Han sobre a sociedade do cansaço. Com um posicionamento firme sobre o papel coletivo no mercado editorial brasileiro e os desafios de se fazer arte na era da pós-verdade, Maga de Moraes revela como a leitura crítica de clássicos como Machado de Assis molda sua voz e redefine o ato radical de escrever. Confira a conversa na íntegra a seguir.

“A leitura útil para quem escreve não é a leitura contemplativa, mas a leitura dissecante”

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Fundamental, sempre e cada vez mais, quanto mais escrevo. Há uma armadilha que os leitores de clássicos conhecem bem: a tentação de reverenciá-los de longe, como se fossem monumentos intocáveis em vez de textos vivos. Aprendi cedo que a leitura útil para quem escreve não é a leitura contemplativa, mas a leitura dissecante. Quando releio Machado, por exemplo, não estou só “tendo um bom momento” — estou estudando. Os clássicos funcionam como escola permanente, e a humildade que eles ensinam é de entender que há uma distância enorme entre o que se quer dizer e o que se consegue dizer. E encurtar essa distância é o trabalho de uma vida.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Minha escola primária é Schopenhauer e Nietzsche, o que talvez explique certa tendência nos meus textos ao pessimismo elegante, àquela ideia de que o sofrimento não é acidente, mas condição. Schopenhauer me interessa pelo realismo brutal: o mundo como vontade cega, e a arte como único refúgio possível dessa pulsão. Nietzsche me interessa pelo movimento contrário: a potência, a recusa da resignação, o eterno retorno como desafio. São pensadores que se tensionam entre si, e essa tensão me parece muito fértil para construir conflitos de personagens. Mais recentemente, tenho me aproximado de Byung-Chul Han, que me parece o filósofo mais preciso para entender o que estamos vivendo agora: o esgotamento, a transparência forçada, o desaparecimento do outro. Há algo nas suas análises sobre a sociedade do cansaço que ressoa de maneira quase desconcertante com o que observo ao redor.

“Rubem Braga cabia num jornal de papel porque o jornal de papel permitia essa respiração”

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

É uma questão que me persegue, porque eu genuinamente não sei responder, mas a crônica sumiu da imprensa, isso é um fato. Não acho que o leitor tenha deixado de querer ler bem, mas parece que o mercado decidiu que não havia espaço para um texto que precisa de pausa, de atenção, de um certo silêncio ao redor. Rubem Braga cabia num jornal de papel porque o jornal de papel permitia essa respiração. A crônica é um gênero que exige que o leitor desacelere, e estamos vivendo a ditadura da velocidade. Decidi escrever crônicas no meu Substack não como nostalgia, mas como resistência deliberada. Talvez a internet, paradoxalmente, seja o novo espaço para a crônica sobreviver, fora dos algoritmos das grandes plataformas, num contato direto entre escritor e leitor. Se Rubem Braga tivesse um Substack, acho que ele estaria muito bem.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

O jornalismo deixa marcas que não se apagam. A mais profunda delas, e a que mais aparece quando escrevo ficção, é a compulsão pela clareza. Há uma frase que ouvi na faculdade e nunca esqueci: “escreva para o seu leitor mais distraído.” Levo isso comigo até quando estou inventando mundos que nunca existiram. A ficção me permite elucubrar, desviar, mergulhar nas ambiguidades que o jornalismo não tolera, mas carrego o jornalismo como uma âncora que impede o texto de flutuar demais. O que me fascina, na verdade, é justamente a zona de fronteira: os textos que embaralham ficção e realidade de um modo que o leitor nunca tem certeza de onde está pisando. O jornalismo me deu o olho para a verdade; a ficção me deu a liberdade de mentir.

“O que mudou não é a função da literatura, mas o ruído ao redor dela”

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

A literatura sempre fez isso: questionar a realidade, desconfiar do consenso, habitar as contradições que o discurso oficial apaga. O que mudou não é a função da literatura, mas o ruído ao redor dela. Vivemos num momento em que a ficção concorre com a desinformação, e nem sempre a literatura leva vantagem, porque a desinformação é mais rápida, mais simples e mais inflamável. Mas há algo que a literatura pode fazer que o fact-checking não consegue: criar empatia. A narrativa literária obriga o leitor a habitar uma perspectiva diferente da sua, a sentir o que o outro sente. Numa era de trincheiras, isso me parece o ato mais radical possível.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Liberta, mas só depois de preso por um tempo. Aprender técnica é necessariamente constrangedor no início: você está ciente de tudo o que está fazendo errado, de cada frase que soa falsa, de cada diálogo que nenhum ser humano real diria. É um período ingrato. Mas há um momento (difícil de nomear, fácil de reconhecer) em que a técnica deixa de ser checklist e vira instinto. Quando isso acontece, a cabeça fica livre para o que realmente importa: a história, o personagem, a emoção que você quer produzir. A diferença entre o escritor amador e o profissional não está no talento bruto, está na capacidade de sustentar um texto inteiro com consistência. Técnica é o que permite isso.

“ficção é, por definição, o exercício de habitar o que você não é”

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Sou mulher, e a literatura tem uma dívida histórica enorme com as mulheres que escreveram e foram ignoradas, publicadas postumamente, atribuídas a pseudônimos masculinos. Não escrevo sobre isso diretamente — não é minha temática central — mas escrevo a partir desse lugar, que é diferente. O que me interessa, no entanto, é exatamente a capacidade de sair do meu próprio ponto de vista: me colocar na pele de personagens masculinos, de diversas orientações sexuais, de experiências que não são as minhas. Há quem ache que escritores deveriam escrever apenas sobre o que viveram. Discordo completamente: ficção é, por definição, o exercício de habitar o que você não é.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Concordo plenamente, e acho que essa é uma das lições mais difíceis de aprender num campo que, por natureza, cultiva o individualismo: é o seu nome na capa, a sua voz na página. Mas o mercado editorial no Brasil é pequeno, competitivo e concentrado, e escritores que só trabalham pelo próprio sucesso tendem a contribuir para um ecossistema mais pobre. A generosidade intelectual — recomendar outros autores, abrir espaços, criar redes — não é altruísmo ingênuo. É reconhecer que a literatura sobrevive como cultura coletiva ou não sobrevive.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Fui frequentadora assídua de oficinas literárias durante anos — “rata”, como costumo dizer. E o que aprendi nelas foi muito além de técnica. O maior ganho das oficinas não é o que o professor fala sobre o seu texto: é ouvir como os outros leitores o recebem, descobrir onde o que você queria dizer não chegou até eles, entender que o texto tem uma vida própria fora da sua cabeça. Há algo muito revelador em ver um leitor tropeçar exatamente na frase que você mais amava. As oficinas me ensinaram que escrever sozinho é necessário, mas escrever só para si mesmo é perigoso.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Não tenho uma opinião formada sobre qual é a melhor geração de escritores, confesso. O que vejo com mais clareza é o papel da internet na democratização do acesso: autores que não teriam nenhuma chance nas grandes editoras encontraram leitores, comunidades, e em alguns casos carreiras inteiras através das plataformas digitais. Isso é real e é positivo. O que ainda não consigo avaliar (e acho que ninguém pode, honestamente) é o impacto da inteligência artificial. Não no sentido alarmista de “vai substituir escritores”, mas num sentido mais sutil: o que acontece com a linguagem quando ela é processada, recombinada e devolvida em escala industrial? Essa é a pergunta que me mantém acordada.

“Há textos que escrevo e que são claramente um ajuste de contas comigo mesma”

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Pode ser as duas coisas, e a beleza está exatamente nisso, na ambiguidade da função. Há textos que escrevo e que são claramente um ajuste de contas comigo mesma. E há textos que são olhar para fora: a cidade, o absurdo do cotidiano. O mais interessante é quando essas duas dimensões se confundem, quando o espelho e a janela ocupam o mesmo lugar…

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Sou jornalista e trabalho com produção de conteúdo, o que significa que a escrita não é apenas vocação para mim, é ofício diário. Há algo de paradoxal nisso: escrever tanto profissionalmente poderia drenar a escrita criativa, torná-la mais uma obrigação. Às vezes drena mesmo. Mas na maior parte do tempo o movimento é inverso: o contato constante com a língua, com histórias reais, com pessoas que precisam ser compreendidas e traduzidas, alimenta a ficção de um jeito que nenhuma pesquisa deliberada conseguiria substituir. Vejo colegas em profissões completamente alheias à escrita para quem a literatura funciona como alívio, como contrapeso. Para mim é mais embaralhado, e prefiro assim.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

É um equilíbrio instável, e não vou fingir que tenho a resposta. O mercado editorial hoje exige que o autor seja também divulgador, assessor de imprensa e criador de conteúdo — e isso pode ser uma distorção enorme do que a escrita deveria ser. No meu caso, o problema não é exatamente a resistência às redes: tenho interesse genuíno pelas plataformas digitais. O problema é tempo e, confesso, a aversão a gravar vídeo e editar minha cara no Capcut. Mas vejo a presença digital como parte inevitável do trabalho contemporâneo do escritor.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Precisamos de muito mais espaços como este! O mercado editorial brasileiro é concentrado, e as grandes editoras operam com lógicas que favorecem o conhecido, o previsível, o que já tem público formado. Espaços independentes de jornalismo cultural e publicação democrática são estruturalmente necessários para que a literatura não se torne um clube fechado. É onde os novos autores aprendem a existir em público, onde os leitores descobrem vozes que as listas dos mais vendidos jamais alcançariam. São, talvez, o que a imprensa já foi para a crônica: o espaço onde a literatura respira.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Apenas quero contar boas histórias. Nada mais que isso. Até porque contar boas histórias é, a meu ver, o ato mais ambicioso que existe.

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Maga de Moraes é jornalista, escritora e estrategista de conteúdo. Formada em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior (SBC), com Pós-Graduação em Relações Públicas pela Fundação Cásper Líbero e Mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), transita com naturalidade entre a narrativa literária e a palavra que funciona.

Publicou ficção infanto-juvenil pela Editora Ática — com O Pinguim que não veio do frio, da coleção Vaga-Lume — e pela Escala Educacional, com Pescadores de Pedras. Também assina livros corporativos e biográficos, além de artigos publicados em sites, coletâneas e revistas acadêmicas.

Hoje atua como estrategista de conteúdo, ghost writer, preparadora de textos e consultora editorial, ajudando escritores e marcas a transformarem ideias em obras. Quer trocar ideias? Fale comigo através do e-mail magademorescomunicacao@gmail.com

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