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Vontade ceifada

Teatro de sobrevivência

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Queria ser atriz. Não a donzela que no final da cena era beijada pelo mocinho. Atriz de verdade, que arranca sentimentos enrustidos na plateia.

Benedita Oliveira de Sousa, sem tempo para subir ao palco, deslocou o talento para a realidade. Foi de tudo e fez quase tudo para sobreviver.

Ainda menina, teve um interlúdio com a avó diante da fogueira mais generosa do que o conteúdo na panela sobre as chamas:

— Benedita, minha garotinha inocente, prefira sempre a dissimulação.

— O que é isso, vovó?

— Finja, minha filha. Finja até quando o mundo disser chega.

Lavou, passou, cozinhou, varreu, tomou conta de crianças da sua idade e até maiores. Foi recompensada com esmolas e tapinhas nas costas. Que fosse! Era muito para alguém vindo de onde ela veio. Que levantasse as mãos para o Céu e buscasse alento em Deus; o Inferno, ela há muito conhecia.

Casou-se contra a vontade, que lhe fora ceifada ao nascer, engravidou sem saber, quis dar de mamar aos seus enquanto seus seios eram sugados pelos filhos de outrem. Sem tempo de pensar, agiu para sobreviver às pancadas. Filhos, netos e até dois bisnetos. Se a comida rareava, taca-lhe água e um punhado de farinha.

Monique, nove anos, quer ser atriz. Vai atuar de verdade. Peça na escola, papel pequeno, não importa.

— Bisa, quero que a senhora vá.

— Aonde, minha filha?

— Vou ser beija-flor.

— Beija-flor?

— É. Quer ver?

O pátio do colégio se fez de teatro. O público se acomodou do jeito que deu. Princesa, príncipe, sapo, beija-flor, jabuti, macaco, coelho, bruxa. Cadê a bruxa? Ficou doente, faltou.

— Dona Benedita, a Monique me disse que a senhora é atriz.

— Eu?

— Não é?

— Isso é coisa da cabeça dela.

— Não quer ser a bruxa?

— Outra vez?

Pegou o papel. Ganhou a plateia. Olhos tristes, Benedita percebeu que o que machuca de verdade é a risada.

— Dona Benedita, a senhora arrasou! Que atriz!

— Finjo bem, professora. Finjo muito bem.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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