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Dr. Mario

A terapia

Publicado

Autor/Imagem:
Fernando de Assis - Foto Francisco Filipino

Aqui na região onde moro, doutor Mário é conhecido por ser um psiquiatra que vai direto ao ponto. Muitos dizem a seu respeito com grande admiração: “Doutor Mário é cirúrgico.”

Foi devido ao conhecimento dessa nobre característica, que em certa manhã, o senhor Antônio aguardava ansiosamente sua vez sentado na suntuosa sala de espera do consultório do doutor Mário. Após longos e angustiante minutos, a porta da sala finalmente se abriu e uma senhora surgiu acompanhada pelo médico. Depois de se despedir da mulher, o psiquiatra olhou a tela do iPad que tinha na mão, e em seguida, por sobre a lente dos óculos, se dirigiu a seu novo paciente:

— Bom dia. É o senhor Antônio?

Antônio ficou de pé.

— Bom dia, doutor. Eu mesmo – confirmou.

Aquela era sua primeira consulta com o doutor Mário. Diferente de outros médicos, este não o chamou sem se levantar da cadeira; pelo contrário, o recebia na porta, e essa primeira impressão foi muito boa. Mal sabia Antônio que aquele comportamento fazia parte de um ritual – era preciso tratar muito bem o paciente, fazê-lo se sentir importante, e nesse sentido, buscá-lo na recepção e após a consulta levá-lo até a porta era uma prática que, além de salutar, ia de encontro a tal propósito.

— Como tem passado? – perguntou o médico enquanto apertava a mão de Antônio e o conduzia para o interior da sala.

— Nada bem, doutor. Nada bem – respondeu com desânimo o paciente.

Após fechar a porta, o médico convidou o senhor Antônio a se sentar numa cadeira próxima à sua mesa de trabalho. A sala era ampla e muito bem decorada, o que deixava Antônio bem à vontade; além da mesa havia um divã e um pequeno sofá confortável, ambos mais afastados, dando a impressão de pertencerem a um outro ambiente – doutor Mário era psiquiatra e psicanalista.

— Fale um pouco do que o aborrece, senhor Antônio – pediu o médico enquanto depositava o iPad sobre a mesa e se posicionava do outro lado, onde um MacBook o aguardava. A palavra ‘aborrece’ veio das observações previamente feitas do que ouviu como resposta e do semblante carregado de seu paciente, uma experiência que doutor Mário adquirira devido aos anos na profissão.

— Eu não sei se estou ficando louco, doutor, mas constantemente me pego conversando sem que ninguém esteja presente a não ser eu – disse Antônio, e em seguida completou cheio de receios – Tem vezes em que discutimos, quero dizer… discuto, eu comigo mesmo, entende? – Essa última revelação foi feita com grande expectativa. Antônio tinha receios de que de fato estivesse louco.

Doutor Mário se ajeitou diante do computador e encarou o senhor Antônio, agora percebendo sinais de que ele estava pior do que havia percebido num primeiro momento.

Antônio prosseguiu:

— A coisa é tão séria que por vezes penso em suicídio – desabafou.

O médico se inclinou para frente a fim de se aproximar, queria chamar a atenção de Antônio para o que tinha a dizer.

— Senhor Antônio, o que está acontecendo com o senhor não é incomum.

— É mesmo!? – reagiu Antônio, surpreso e com um meio sorriso, estranhamente satisfeito em saber que outros sofriam do mesmo mal.

— Acredite. Não é nada que não possa ser curado – arrematou o médico.

A maneira como doutor Mário falava provocava em Antônio um certo relaxamento. Parecia que a solução de seu caso seria menos complicada do que imaginara num primeiro momento.

— O senhor costuma ir para a frente do espelho nessas ocasiões? – continuou o médico.

Antônio o encarou, parecia que o homem adivinhava.

— É muito comum, doutor – respondeu.

O médico teclou no computador.

— O senhor faz uso de bebida alcoólica?

— Sim… um pouco – respondeu, mas dessa vez receoso, pois o médico tocara em seu ponto fraco.

Novamente tecladas. Doutor Mário continuou com a investigação.

— É comum as tais conversas acontecerem após a bebida?

— É… tem vezes que sim… quero dizer… nem sempre, mas acontece.

Mais tecladas.

— Afinal… o que é que eu tenho, doutor? – perguntou Antônio, mas já se sentindo nervoso com a investigação.

— Provavelmente o senhor esteja sofrendo de TDI – respondeu doutor Mário.

— Como disse?

— T-D-I – retornou o médico pausadamente, e complementou em seguida. – Transtorno Dissociativo de Identidade ou Personalidade. Mas ainda é apenas uma hipótese.

— Essa TDI é grave, doutor?

O médico não respondeu, ficou de pé, pegou novamente o iPad sobre a mesa, e enquanto se afastava fez um convite.

— Deite-se ali no divã e vamos conversar.

Os olhos de Antônio se abriram excessivamente e de imediato ele se aprumou estranhando o convite. Antônio nunca tinha ido a uma seção de terapia. Achou aquilo desnecessário; o que precisava era apenas de alguns remédios, talvez um exame da cabeça, nada mais que isso. Porque teria que se deitar, pensava.

— Faz parte do tratamento, senhor Antônio – disse o médico, agora dando a Antônio a certeza de que de fato adivinhava. – Deite-se ali no divã e relaxe um pouco – continuou, e em seguida arrematou com olhar crítico. – O senhor não bebeu hoje, bebeu?

— Não! – devolveu Antônio. – De jeito nenhum, doutor.

Ainda incerto quanto a obedecer ao convite feito pelo médico, Antônio se levantou, estava receoso, mesmo assim caminhou lentamente se dirigindo até o tal divã.

Quando já estava bem próximo do objetivo, o médico o fez parar.

— Um minutinho, senhor Antônio – solicitou.

Antônio paralisou ao ver doutor Mário olhar na direção do divã com feições duras, e como se não bastasse foi falando num tom irritadiço:

— Bonito, hein? Resolveu atrapalhar meu trabalho novamente, não é mesmo?

Antônio ouviu aquilo completamente extasiado. O médico falava para um divã vazio, e como se não bastasse continuou.

— Por que você não vai lá fora arejar a cabeça? Aproveita e leva o Bob para passear e fazer cocô.

Não! Isso não é comigo, pensou Antônio. Seguiu-se que o ambiente se fez silencioso; os olhos do médico pareciam acompanhar os passos de alguém completamente invisível para Antônio.

— Aí não! – advertiu doutor Mário, e estava bastante aborrecido. – Eu falei para ir embora.

Nesse ponto foram os olhos de Antônio que se dirigiram para o nada. Ele pensou em seu próprio rival imaginário.

— Acho que ele pirou – disse Antônio consigo mesmo, mas falou alto o suficiente para ser ouvido.

— Pirou nada, senhor Antônio – reagiu o médico, mas virou-se rapidamente olhando na direção da cadeira onde Antônio estivera sentado, e que agora parecia estar ocupada pelo tal visitante imaginário. – Muito bem. Resolveu não obedecer, não é mesmo? – disse doutor Mário, e em seguida dirigiu-se novamente a Antônio. – Não liga não, senhor Antônio. Já que ele quer ficar, que fique, não dou a mínima. se tem que ser desse modo, então que seja. Por favor, peço que o senhor se deite no divã.

Antônio já estava prestes a obedecer quando a discussão recomeçou.

— Ah! O irmãozinho mimado resolveu ir embora.

O médico agora olhava na direção da porta que estava fechada, como tinha deixado, mas foi até lá e a abriu, e Antônio soube que era para a saída do intruso.

— Tchau! – despediu-se. – E não se esqueça do Bob – arrematou doutor Mário, irônico.

Aproveitando-se do fato da porta estar aberta, foi completamente perplexo que o senhor Antônio também se encaminhou na direção da saída.

— Senhor Antônio, aonde o senhor vai? – perguntou o médico ao ver que o paciente estava prestes a abandonar a consulta.

— Vou lá fora tomar um ar.

— Mas nós nem conversamos ainda.

— Já estou me sentindo melhor, doutor – disse, mas já do lado de fora da sala.

— Que ótimo! Sendo assim, espero o senhor na semana que vem, o que me diz?

— Pode deixar. Semana que vem eu retorno.

— No mesmo horário, viu?

— No mesmo horário – repetiu Antônio, e se foi para o hall do elevador.

Momentos antes, Antônio tinha chegado ao consultório do doutor Mário completamente transtornado; conforme dissera ao médico, pensava até em suicídio, mas agora estava relaxado, sentia-se muito bem. Conforme ouvira o doutor dizer, sua doença era mesmo muito comum.

Depois que ganhou a rua, Antônio viu um sujeito com um cão preso a uma coleira passeando pela calçada, então riu a valer, ficou imaginando se não seria o Bob e o irmão imaginário do doutor Mário. Que se danasse o tal TDI. Antônio ia tomar uma cachaça, e quem sabe rolasse em seguida uma boa discussão com seu inimigo imaginário.

Enquanto isso, dentro do consultório, doutor Mário fazia anotações no MacBook. Por certo que sua encenação tinha dado resultado e a ideia de suicídio tinha sumido da cabeça do senhor Antônio, pensava enquanto teclava. Tudo se tinha evaporado como uma gota d’água em frigideira quente. Na próxima semana confirmaria o resultado e continuaria o tratamento; mas somente se o senhor Antônio voltasse, e se não voltasse, então já estaria curado.

Era mesmo conforme os pacientes costumavam dizer:

Doutor Mário vai direto ao ponto. Ele é mesmo cirúrgico.

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