Curta nossa página


Padroreira da Patada

Obrigada, dona Márcia

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

É cada uma que me aparece, difícil manter a classe, algo que, confesso, raramente me fez companhia. Se é de família, talvez coisa herdada de vovó ou, não descarto, tenha sido influência de uma vizinha que nos atazanava com tiradas que deixavam a todos boquiabertos. Ah, que saudade da dona Márcia!

— Que tal uma xícara de café, dona Márcia?

— Que tal uma boa xícara de cuide da sua vida?

Pois é, aquela senhora não deixava barato, ainda mais quando tentavam intimidades desnecessárias. Em vez de me causar constrangimentos, as falas da mulher me enchiam de ousadia para enfrentar possíveis agruras que todas nós carregamos nos ombros.

— Jéssica, tu vai sair mesmo com essa saia?

— Não sabia que o meu ex-namorado fosse o Yves Saint Laurent.

— Quem?

Ainda tenho dúvida se o que me fez largar o Zé Carlos na pista tenha sido o fato do cara querer se meter no meu guarda-roupa ou, então, foi a ignorância que pesou. De qualquer forma, obrigada, dona Márcia.

Sempre trabalhei, pois não tive o raro privilégio de nascer princesa. Será que eu me adaptaria a uma vida cheia de luxo, a criadagem aos meus pés? Não sei, nem gosto de pensar nessas impossibilidades. O certo é que ralei que nem queijo parmesão.

Sou bancária desde 1992, quando passei no concurso do Banco do Brasil. Uma alegria e alívio por não ser mais explorada por ninharia. Antes fui de tudo um pouco, desde atendente de lanchonete, passando por cobradora de ônibus e, pouco antes de tomar posse, trazia muamba do Paraguai para vender. Uma loucura, pois nem sempre era fácil me livrar dos honestíssimos policiais na rodovia.

— Rapazes, esta aqui é a Jéssica, a nova colega.

— Até que enfim, Soares, alguém que cheira bem.

O dono dessa fala ridícula foi o Geraldo, um tipo detestável, imaginei. Não que estivesse errada por completo; o sujeito, como soube algum tempo depois, estava em processo de divórcio. A esposa o havia trocado por outro. Se ela tivesse conhecido a dona Márcia, nem teria se casado com o traste.

Voltando àquele momento de apresentações, sorri. Pois é, simplesmente sorri até a próxima observação, agora do Augusto.

— Agora sim, Soares, o BB vai ficar mais bonito.

— Que o pessoal daqui é feio, reparei quando entrei, mas um banho de vez em quando é de bom-tom, né!

Obrigada, dona Márcia. Nem sei o que seria de mim sem a senhora.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.