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Ano de 1325

O poder da palavra

Publicado

Autor/Imagem:
Fernando de Assis - Foto Francisco Filipino

Era o ano de 1325 quando uma comitiva do papa liderada por um frei cruel, braço da Santa Inquisição, chegou ao lugar. Na ocasião o povo do vilarejo soube que Emma estava em apuros. Emma era uma velha mulher que vivia num casebre próximo ao vilarejo de Willdorf. Muitas gerações já se tinham passado, dezenas delas, mas Emma permanecia no mesmo lugar, no mesmo velho casebre. Alguns diziam que o tempo havia dela se esquecido; outros achavam que era porque Emma era uma bruxa e havia feito um pacto que a mantinha sobre a terra.

Cercado de uma comitiva e da guarda do papa João XXII, frei Italo se manteve sobre o cavalo mesmo depois que entrou no vilarejo. Com olhar perscrutador e ares de desprezo, estudou e captou todas as impressões conforme era seu costume agir. Não demorou e a gente simples do lugar começou a se juntar, admirados e receosos pela presença dos soldados, mas também pela pompa do ilustre homem, com vestes e olhares que o tornavam temível, mais que os soldados, por isso mantiveram-se silenciosos e à distância. Com ares de superioridade, o sacerdote foi dizendo ao povo que aos poucos se reunia à sua volta. Seu tom de voz era arrastado, e suas feições, hostis.

— Eu sou frei Italo, membro da Igreja de Roma, servo de Sua Santidade o Papa. Venho a este lugar mundano em busca daqueles que praticam a heresia, para que se confessem, e sejam purificados no fogo santo. E se o faço é na intenção de que a justa causa de Deus seja consagrada.

Um velho desdentado, de nome Lut, que devido a uma chaga na perna andava apoiado numa vara, se adiantou denunciando.

— A bruxa mora para aquelas bandas da floresta, meu senhor – disse apontando a direção.

Um largo e enigmático sorriso surgiu no rosto de Italo.

— Ora! Vejo que tenho diante mim um homem prudente.

O povo se manteve em silêncio, muitos com medo, outros consonantes com o velho que denunciou Emma, mas a maioria lamentava o que ele fez, porém como temiam o que lhes pudesse acontecer caso repreendessem o velho Lut, decidiram permanecer calados.

Não demorou para frei Italo e sua comitiva estarem diante da humilde casa de Emma. Após observar a fumaça que saia através da palha do telhado, o sacerdote desceu do cavalo, e, sem ser convidado, foi entrando na casa acompanhado de dois soldados. No pequeno ambiente havia pedras, ervas secas, ossos e cabeças de animais; algumas daquelas coisas estavam penduradas, outras espalhadas numa mesa e até mesmo no chão. Havia no centro do cômodo um fogão de pedras aceso, e sobre ele um caldeirão pendurado nas traves do teto. A coisa despejava fumaça no ambiente tornando a visão difícil; era a mesma fumaça que frei Italo havia visto quando estava do lado de fora. Após se deter observando todas aquelas coisas com ares de nojo e repulsa, o sacerdote viu finalmente a velha mulher, silenciosa, sentada atrás do que lhe pareceu ser um altar, a observá-lo.

— Ah! Aí está você, bruxa! – exclamou com desprezo.

Emma não se incomodou com o que ouviu.

— Porque o senhor não se senta e diz a que veio? Talvez eu possa ajudá-lo.

Italo olhou para o banco que a mulher apontou, mas ficou incerto se deveria aceitar o convite. Seus olhos ainda não tinham se acostumado por completo com a escuridão do ambiente.

— Vamos! Sente-se! – insistiu a idosa mulher.

Certo de que a velha nada poderia lhe fazer de mal diante de seus soldados, Italo se sentou.

— Agora diga-me… em que posso ajudá-lo? – perguntou a mulher.

— Em nada. Eu vim lhe trazer a salvação – devolveu o frei com um sorriso cáustico.

Emma deixou transparecer seu costumeiro ar de serenidade.

— Salvação! – repetiu ela. – Mas eu não preciso de salvação.

— Precisa sim. Você é uma bruxa! – devolveu Italo asperamente, e se inclinou para frente a fim de explicar sua oferta. – Deus me incumbido de lhe dar a chance de sair das garras de satanás.

— O senhor tem a opinião formada a respeito de pessoas que não conhece. Suas palavras ferem – repreendeu Emma. – Que deus é esse que transmite tanto ódio através da tua língua e olhos?

— É meu Pai, Pai de todos. Venho de longe. Já atravessei aldeias e vilas, e não será você, maligna criatura, que irá me enganar – disse ele achando que a intimidaria.

Os olhos de Emma abaixaram na direção do chão e sua cabeça oscilou em sinal de reprovação àquela ofensa. Depois de um tempo reflexiva, a velha mulher encarou o visitante novamente.

— Ouvi dizer que tua igreja tem um sino que badala reunindo homens como ovelhas.

— E não é mentira o que ouviu – confirmou frei Italo, orgulhoso.

— Mas como eu não sou o tipo de ovelha que deseja para o seu rebanho – Emma o encarava –, imagino que pretenda me queimar numa fogueira conforme já deve ter feito com tantos outros?

— Certamente! Mas somente depois que você, bruxa, confessar os crimes que praticou contra as leis de Deus.

A velha mulher deixou os olhos se deterem em algo que frei Italo trazia na mão.

— Que livro é esse? Por acaso é o das tais leis e ensinamentos do qual ouvi falar?

Italo apertou o livro santo com ambas as mãos, exibindo-o.

— É a nossa bíblia. Você irá conhecê-la. Não agora. Quem sabe depois que sua alma for libertada.

— Por que não me deixa ver o livro? Estou curiosa – Emma estendeu a mão à espera.

Frei Italo se aprumou, pondo-se na defensiva. Recolheu os braços trazendo o livro mais para si, como se desejasse protegê-lo. Ao perceber seus modos receosos, Emma insistiu desafiadoramente.

— Vamos, deixe! O que poderia uma velha mulher fazer contra um livro santo, não é mesmo?

Não desejando demonstrar fraqueza diante dos guardas, frei Italo colocou o livro sobre a mesa. Emma o tocou com dedos magros; ia arrastá-lo para próximo de si, mas o sacerdote a deteve.

— O que pretende fazer? – reagiu, impedindo-a.

— Ora! – disse a mulher com um sorriso. – Para que servem os livros senão para serem lidos?

— Não há nele uma só palavra que sua alma pecadora possa compreender.

Sem que houvesse tempo para que fosse impedida, Emma puxou o livro e o abriu, e após fazê-lo depositou uma folha de sálvia entre as páginas e o fechou. O sacerdote reconheceu a planta.

— O que você fez, sua bruxa? – indignou-se, arrastando o livro de volta para si. O horror estava estampado na face do sacerdote. A mulher o repreendeu novamente.

— O senhor entrou em minha casa sem ser convidado dizendo que veio purificar minha alma de meus pecados, mas parece recear que eu possa de alguma forma prejudicá-lo.

— Isso não tem fundamento – gritou frei Italo. – É óbvio que eu não a temo.

A mulher sabia que seu visitante estava longe de conseguir manter o equilíbrio numa conversa civilizada. Aquele homem estava mais acostumado a expor seu orgulho e arrogância.

— Pois bem! – foi dizendo a mulher. – Abra o livro na página em que coloquei a sálvia e leia o que está escrito. Mas faça-o agora, caso contrário, em outro momento, poderá ser tarde demais.

— Bruxa! Você enlouqueceu! – disse o frei, sem a intenção de obedecer.

— Bem! Se não vai abrir, então prossiga com o que veio fazer. Mas advirto, nada devo a seu deus nem a sua igreja, e sinceramente acho que seria mais prudente se o senhor fosse embora.

Pondo-se de pé, com o livro sagrado nas mãos, frei Italo disparou, agressivo e enojado:

— Vejo que não deseja se redimir de seus pecados, bruxa maldita. Sendo assim, não farei nenhuma oração por sua alma. Tudo será preparado e você será queimada – por fim, inclinou-se e alertou. – Mas antes que dê o último suspiro, irá me implorar para ouvi-la em confissão.

Ao redor do local de sacrifício, pessoas do povo se juntavam para assistir o martírio de Emma. É verdade que alguns desejavam vê-la morta, mas a maioria sofria por saber que Emma seria queimada viva numa fogueira. A velha mulher havia ajudado muitos daquele povo.

Com empurrões e escaramuças, Emma foi arrastada e amarrada ao mastro. A lenha e a palha ao redor já estavam embebidas em óleo quando frei Italo se aproximou do local de martírio.

— Então, bruxa… quer confessar seus pecados antes que eu mande acender a fogueira?

— O senhor teve sua chance, mas seu orgulho o mantém cego – disse a mulher.

Tomado de ira, o sacerdote emissário de Roma mandou que o fogo fosse acesso.

Na multidão muitos esconderam o rosto pedindo pela alma de Emma, outros choravam assistindo seu fim. A chama se elevou rapidamente, mas a velha mulher se manteve firme diante da dor. Emma tinha os olhos fechados, reunia forças para suportar o martírio. Frei Italo já se afastava para escapar do calor do fogo quando foi chamado pela mulher.

— Frei!

O chamado fez o emissário do Papa se encher de orgulho e efusiva alegria, então retornou se aproximando do fogo, certo de que ouviria uma confissão.

— Terás que arcar com as consequências de seus erros – despejou Emma.

Frei Italo indignou-se. Tinha na mão direita um terço e na outra o livro sagrado de Deus.

— Diga o que quero ouvir sua bruxa imunda! Confesse seus pecados, maldita! – gritou.

Mas Emma o surpreenderia.

— O sol irá nascer e se pôr sete vezes antes que a morte o arraste para si – imprecou a velha mulher. – Tu e os que te seguem não ficarão impunes. Seus corpos irão tremer diante do fogo que os há de consumir até a morte, e mesmo depois dela – paralisado diante da praga, frei Italo ouviu quando Emma concluiu. – Tudo conforme o que está escrito no livro que carregas.

Imediatamente a lembrança da folha de sálvia que a velha mulher colocou dentro do livro santo assaltou frei Italo. Apressadamente e cheio de temores ele o abriu e viu a folha da planta, antes viçosa, agora completamente desbotada. Estava lá, numa página do livro de Isaias. Curiosamente a seiva da planta tinha deixado marcas em um trecho do texto sagrado. Sem esconder que as palavras da mulher o haviam abalado, frei Italo se pôs a ler em quase silêncio, com lábios sibilantes e mãos trêmulas o trecho destacado pela seiva.

“A palavra que sair de minha boca, não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a enviei.” (Isaias 55:11)

Os olhos de frei Italo se abriram excessivamente abandonando a página do livro santo para encarar a mulher; mas Emma já não estava mais entre eles, seu espírito já havia abandonado o corpo. Foi somente após ler o texto sagrado, que o sacerdote entendeu a forma enigmática como a coisa se dera: primeiro quando a mulher colocou a folha de sálvia dentro do livro fechando-o em seguida, e depois, com a marca deixada pela planta no texto santo. Tudo lhe deixando claro que a mensagem contida no livro, nas palavras que Deus ditara ao profeta Isaias, eram as mesmas palavras das quais a bruxa se servira para dar o recado de que sua imprecação tinha poder e prosperaria. Talvez frei Italo nunca tivesse se dado conta de que não só as palavras, mas o pensamento e as atitudes possuem um poder maior do que suas orações estéreis.

Conta a história que naquele mesmo dia, depois que partiu do vilarejo, frei Italo e todos os que o seguiam foram acometidos de um mal – uma febre voraz os impediu de prosseguir viagem. Mas como já estivessem longe do vilarejo, e devido à debilidade que a febre e as dores os subjugavam, não havia como retornar. Para frei Italo, seus rogos a Deus de nada mais adiantariam. Sua soberba seria sua derrocada, afinal… “A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto” (Provérbios 18.21). Conforme Emma imprecou, pois de algum modo ela sabia quando marcou o texto sagrado: sete dias e sete noites de agonia com febre intensa e delírios se seguiram à espera do fim, e nem mesmo uma sepultura cristã, frei Italo e seus homens tiveram.

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O conto O Poder da Palavra foi publicado na antologia Bruxas ao Luar“em maio de 2023. Uma antologia organizada pela Editora Gatos e Histórias, sob coordenação da Aryane, da Eduarda e do Henrique. O perfil é @editoragatosehistorias.

A obra encontra-se à venda na Amazon, em e-book e em livro físico. O autor (@f.assi_autor) também tenho alguns exemplares da primeira edição, porém atualmente existe edição ilustrada para venda.

Bruxas ao Luar: Edição de Luxo Ilustrada (Antologias)
 https://a.co/d/0gwxbNBG

Link do áudio do conto no Google Drive: 
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