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Futebol ecumênico

Sem talentos, fé pode manter Brasil na Copa

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

No futebol, curiosidades nem sempre são apenas curiosidades. Às vezes, elas viram histórias que ganham o mundo e, na linguagem da internet, viralizam. Outras só se tornam conhecidas quando um desavisado percebe e as divulgam. Por exemplo, todos sabem que a Seleção Brasileira é a maior vencedora da história do futebol, sendo a única pentacampeã mundial e o único país a participar de todas as 23 edições da Copa do Mundo da FIFA. A primeira foi em 1930, no Uruguai.

Qualquer torcedor, brasileiro ou não, também sabe que o Brasil levantou a taça em 1958 (Suécia), 1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos) e 2002 (Japão e Coreia do Sul). Em duas dessas conquistas, a “amarelinha” teve um aproveitamento perfeito, vencendo 100% dos jogos disputados. Ronaldo Fenômeno é o maior artilheiro do país em Copas do Mundo, com 15 gols marcados entre os torneios de 1998 e 2006, vencidos, respectivamente, pela França e Itália.

Ao longo de todo esse tempo de competição mundial, alguns detalhes não chegaram ao grande e distinto público. Na Copa de 1938, na França, o craque carioca Leônidas da Silva, ex-Flamengo, São Paulo e Peñarol, marcou um gol descalço no jogo em que o Brasil venceu a Polônia por 6 a 5. Com o campo encharcado, a chuteira de Leônidas, rasgou e, como ele calçava 36, não havia reposição. Diz a lenda que o árbitro não percebeu devido à lama e aos meiões pretos.

Conhecido como “Diamante Negro” e Homem-Borracha”, Leônidas se notabilizou por popularizar o lance identificado como “bicicleta” no futebol. A maior goleada imposta pela Seleção Brasileira ocorreu na Copa de 1950, no Brasil, quando venceu a Suécia por 7 a 1. Quis o destino que, também no Brasil, 8 de julho de 2014, fôssemos, solene e silenciosamente, goleados pelo mesmo placar na histórica derrota para a Alemanha de Toni Kroos. Como o jogo foi disputado no Mineirão, em Belo Horizonte, a estonteante derrota até hoje é conhecida como “Mineiraço”.

Tudo a ver com outra inesquecível derrota, a de 16 de julho de 1950, em pleno Maracanã. Há exatos 76 anos, os “canarinhos” precisavam apenas de um empate para serem campeões, mas, por conta do “otimismo exagerado”, acabaram perdendo por 2 a 1 para o Uruguai de Ghiggia. O terrível espetáculo ganhou até um nome próprio: “Maracanazo”. Como normalmente há o lado bom nas coisas ruins, o recém-inaugurado Estádio Mário Filho recebeu o maior público da história das Copas. O número oficial de torcedores pagantes no Maracanã é inimaginável para os dias de hoje: 173.850 pessoas. Incluindo jornalistas, autoridades, convidados e penetras, o quantitativo oficioso ultrapassou 200 mil pessoas.

Dos números à combinação de cores, o icônico uniforme reserva na cor azul surgiu na Copa de 1958, na Suécia. O chefe da delegação à época, Paulo Machado de Carvalho, era devoto de Nossa Senhora Aparecida e escolheu o tom exato da santa para a camisa. Por falar em crendices, apesar da forte predominância de atletas evangélicos na atual Seleção (Alisson, Ederson, Weverton, Endrick, Raphinha, Gabriel Martinelli e, dizem, Neymar Júnior), temos um selecionado ecumênico. Como detalhe, certamente nem todos prestaram atenção, mas o Brasil empatou a duras penas com o Marrocos no dia 13 de junho, Dia de Santo Antônio, e venceu a Escócia no dia 24, Dia de São João, ambos santos católicos.

Não é nada, não é nada, mas enfrentaremos o Japão no dia 29, Dia de São Pedro. Embora o Brasil seja um dos maiores símbolos do ecletismo religioso, com elementos, doutrinas e rituais de diferentes sistemas de crença, sou daqueles fervorosos simpatizantes de Deus como figura única, emblemática e, obviamente, suprema. Por isso, em nome Dele, rogo a todos os santos que, como a Seleção não anda lá essas coisas em termos de talento, que a gente consiga pelo menos ganhar na fé. Se preciso, acendo até fogueira, dou os sete pulinhos e juro com a Bíblia na mão que nunca mais falo mal do Vasco. Tudo em nome da vitória.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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