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Queremos remakes e reboots

O manifesto dos ícones esquecidos da TV

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Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Como faço de cinco em cinco dias, estava abrindo o Word do meu PC na tentativa de capturar mais um conto digno de publicação e… repentinamente, aconteceu tudo outra vez!

A exemplo do que ocorrera no dia do inexplicável evento já relatado em A rebelião dos personagens malditos, a tela do meu fiel assistente foi invadida por semblantes humanos e frenéticas luzes piscantes, desta vez ao som clássico do rock Losing My Religion da banda R.E.M., uma das minhas top “teen”.

Meu coração voltou a disparar enquanto eu apreciava o magnífico espetáculo, mas desta vez eu já tinha ideia do que se tratava e do que esperar. Após o fim da música, ainda emocionado, fiquei aguardando a comunicação do objetivo da nova visita cósmica ao meu recanto.

Ela veio sem muita demora através de uma voz masculina que não me era inteiramente estranha:

— Olá, autor, fique calmo, temos uma missão para você.

— Olá, visitante, como posso ajudar? Respondi, ainda extasiado.

— Eu e meus parceiros queremos que você publique um manifesto e alguns depoimentos de nossa lavra.

— À disposição, prezado visitante! Posso saber a sua identidade e quem você representa?

— Eu sou Charlie Harper e represento personagens dos melhores seriados da história da TV, aqueles produzidos nos anos 1970, 80 e 90.

— Uau, Charlie Harper de Two and a Half Men? Sou fã de carteirinha do seriado, exclamei.

— Imaginei que sim! Bem, como você sabe, apesar das nossas séries ainda estarem sendo exibidas em TVs fechadas e em algumas plataformas, as novas gerações nos veem como ultrapassados ou mesmo nem nos conhecem direito.

— Verdade, muitos jovens só conhecem vocês de ouvir falar.

— Sim, e, além do mais, estamos entediados por estarmos vivendo sempre as mesmas histórias à la O dia da marmota. Queremos corrigir tudo isso!

— Entendo, Charlie! Mas qual seria exatamente a proposta de vocês?

— Reboots e remakes dos seriados dos quais participamos. Achamos que somos melhores do que as produções atuais das plataformas de streamings tanto em talento, conteúdo, carisma etc. E temos perfeitas condições de concorrer com elas. Basta que as plataformas contratem roteiristas talentosos para adequar os nossos contextos aos distópicos tempos atuais.

— Olha, Charlie, concordo muito com você, mas como seria isso? Muitos intérpretes dos seriados antigos já se foram e a maior parte dos que ainda estão entre nós, convenhamos, já estão em idade por demais avançada para atuarem, não concordas?

— Ora, autor, eu e os parceiros que represento somos personagens, não intérpretes. Eu sou Charlie Harper, não Charlie Sheen, se bem que, no caso, ele poderia continuar me representando digna e brilhantemente. Quando isso não for possível, cabe aos produtores e diretores encontrarem atores e atrizes em condições satisfatórias e adequadas para os papéis.

— Entendi, suspirei, já imaginando o tamanho do desafio para os possíveis novos intérpretes de personagens tão icônicos.

— Muito bem, Charlie, vocês podem contar com o meu total apoio, falei, encantado com a ideia.

— Obrigado, autor! Então, mãos à obra, eu fui designado para trazer a mensagem central do grupo — a qual já expus —, mas personagens de outros seriados também querem deixar o seu recado particular aos leitores e ao mundo do entretenimento.

— Claro, Charlie, vieram muitos com você? Como começamos? Questionei, mais do que curioso e excitado.

— Você verá, vamos começar comigo. Pronto para as anotações?

— Sem dúvida, me dê apenas dois minutos para mais um gole de café!

Charlie Harper [Dois Homens e Meio – Two and a Half Men]:

— Mais do que nunca, somos muito necessários e oportunos. Abaixo o moralismo e a hipocrisia! Ah, troquem o idiota do diretor do seriado, esqueçam o Aston Kutcher e tragam o Charlie Sheen e a Chelsea (Jeniffer Bini Taylor) de volta. E, desta vez, a minha casa de praia tem que ficar próxima de uma das mansões do “Bili” Vorcaro aqui na Califórnia.

Senhor Spock [Jornada nas estrelas – Star Trek]:

— Muito mais do que antes, o planeta Terra precisa de um Vulcano e o universo observável precisa do capitão Kirk e da tripulação da Enterprise. Vida longa e próspera para todos em busca da última fronteira!

Jerry Seinfeld [Seinfeld]:

— Assim como Nova York sempre será a capital cultural e afetiva do planeta, Elaine, George, Kramer e eu sempre seremos a cara e a alma de Nova York. Somos a melhor série porque tiramos (quase) tudo do nada.

Tenente Theo Kojak [Kojak]:

— Do sul de Manhattan para o mundo, minha calvície charmosa, meu pirulito de uva e meu carisma investigativo jamais foram igualados. E que trilha sonora do Billy Goldenberg, interação perfeita e inigualável com o meu charme policial-professoral.

Steve Austin [Cyborg, o homem de seis milhões de dólares]:

— Depois de mim, vieram muitos cyborgs, mas nenhum com o apelo original da perfeita conjugação entre homem e máquina. E tudo ficou melhor ainda quando tive a parceria da mulher-biônica… interações biônicas e existenciais para ninguém botar defeito!

Maxwell Smart [Agente 86]:

— Quem melhor do que a agente 99 e eu para enfrentar com graça, charme e eficiência o “kaos” que atualmente toma conta do mundo? Sem falar que o nosso seriado tem a abertura mais icônica da história da TV, não é mesmo, 99?

Dana Scully e Fox Mulder [Arquivo X]:

— Prezados leitores, eu e meu parceiro Mulder somos atualíssimos e necessários. O que representa melhor o primeiro quarto desse século do que mistérios alienígenas e de outra dimensão escondidos em arquivos governamentais das grandes potências? Precisamos de novas histórias para desvendar tudo e concluirmos o nosso trabalho.

Rachel Green [Friends]:

— Gente, impossível existir novamente na TV um grupo de amigos tão amoroso e irresistível quanto Joe, Lisa, Ross, Chandler, Monica e eu… fomos e sempre seremos a gloriosa referência de todas as “Repúblicas” hilárias, afetivas, eróticas e felizes desse planeta.

Sheldon Cooper [The big bang theory]:

— Claro que, mais do que todos os meus colegas de seriado, eu represento a ascensão do poder nerd neste universo, mas Penny, Leonard, Howard, Amy e Rajash também têm os seus méritos nessa temática. Outrossim, nenhum seriado na história da TV ofereceu tantas informações para a ignara massa de telespectadores adquirir o básico do básico de cultura científica. E BAZINGA para todos vocês!

Terminada a ácida/hilária peroração de Sheldon, fez-se um breve silêncio.

Perguntei então ao meu ilustre interlocutor originário e representante do grupo se os depoimentos haviam terminado. Calmamente, ele respondeu:

— Paciência, escritor! Ainda tem alguns personagens chegando no pedaço. Então, o que você está achando dos seriados já listados?

— Magníficos, Charlie, assisti a todos e adorei! Com destaque, é claro, para Two and a Half Men, acrescentei, pois nunca é demais massagear o ego de um interlocutor talentoso, vaidoso e famoso que invade a tela do seu computador.

— Muito bem, vamos prosseguir, chegaram os últimos colegas que fazem questão de deixar recados para o mundo dos streamings e para os leitores do Café Literário/Notibras.

Miranda Hobbes [Sex and the City]:

— Homens de todo o mundo, apesar de vocês continuarem a contar com a benevolência das minhas iludidas amigas Charlotte, Samantha e Carrie, continuo firme na minha inabalável convicção de que vocês todos são um caso perdido: misóginos, oportunistas, covardes e mentirosos. Então, quero novas histórias do nosso seriado para confirmar essa verdade antropológica. Me aguardem!

Benjamin “Hawkeye” Pierce – Falcão [M*A*S*H*]:

— Ninguém jamais encarnou melhor do que a nossa equipe médica o lado trágico e cômico da guerra. Patentes, disciplina, hierarquia e tudo o mais, nada valem perto do poder de salvar vidas ou de mitigar sofrimentos. Então, f*-se, vão ter que nos engolir!

Jennifer e Jonathan Hart [Casal 20]:

— Nós somos o puro suco dos gloriosos anos 1980: “ELA é 10, ELE é 10: juntos, formam o casal mais raiz da história da televisão”. Depois de nós, muitos tentaram, mas o que sempre viverá no inconsciente coletivo do público é o signo do insuperável Casal 20, sorry!

Angus MacGyver [MacGyver, profissão perigo]

— Quem nunca desejou ser um “mago-faz-tudo” que consegue solucionar qualquer problema prático que apareça na sua frente? Pois esse soy jo, consigo derrotar todos os inimigos sem o uso de nenhuma arma que não seja a minha inteligência e um borogodó jeitoso. Qual utopia é mais atual?

John Bosley [As Panteras – Charlie’s Angels]:

— Que chefe não gostaria de ter Sabrina, Kelly e Jill – três garotas-investigadoras lindas, adoráveis e espertas – trabalhando sob suas ordens diretas? Pois é, eu, Bosley, braço direito do Charlie, realizei esse sonho. Mas quem era o Charlie, o misterioso chefe supremo do qual só conhecemos a voz? He, he, talvez um reboot da nossa série solucione esse mistério…

Após novo silêncio, Charlie Harper tomou novamente a palavra:

—Tudo anotado, autor?

—Tudinho, palavra por palavra.

— Ótimo, então finalizamos por hoje.

— Maravilhoso, Charlie! Uma série mais deliciosa do que a outra… se bem que eu sou suspeito para opinar, afinal, sou representante da geração X.

— Entendo, mas tenho convicção de que, nas mãos certas, a nossa trupe também pode encantar as novas gerações. Então vamos aguardar a publicação do conto, confiamos no seu taco.

— Grato pela confiança, Charlie, mas como eu já disse em outra ocasião para uma sua irmã de alma, farei a minha parte, todavia, a publicação dos importantes reclames de vocês não depende somente de mim…

— Hum, você assistiu àquele episódio de Two and a Half Men em que uma suposta feiticeira — jovem amiga da minha mãe — me adverte, caso eu não concordasse em gerar um filho do “Grande Satã” com ela? Lembras da ameaça que ela fez?

Sentindo um calafrio, me lembrei da situação:

— Sim, ela ameaçou você com o “secamento e fenecimento da sua árvore” caso você não cumprisse a missão…

— Pois é, então ficamos assim, estaremos à espera da publicação. Grato pela atenção, apoio e boa sorte para todos nós!

— Boa sorte para todos nós, Charlie… e que todos os bons seriados e todas as árvores do planeta tenham uma vida longa e profícua!

…………………………….

Leia aqui a A rebelião dos personagens malditos a que o autor faz referência, conto já publicado no Café Literário:
https://www.notibras.com/site/a-rebeliao-dos-personagens-malditos/

J. Emiliano Cruz [Instagram @Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS, disponível no link da Estante Virtual:
.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

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