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Misoginia

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Autor/Imagem:
Edna Domenica e Gilberto Motta - Texto e Foto

1.
Naquela noite, Arnaldo entrou no puteiro.

Olhou para a mulher de lábios carmim.

Dançaram pela noite e foram para a “alcova”

Na semana seguinte Arnaldo voltou. E tudo aconteceu novamente.

Na terceira semana, Arnaldo voltou e disse:

— Eu vou tirar você desse lugar. Eu vou levar você pra morar comigo.

2.
Vinte anos depois, Arnaldo e Carmim com as duas meninas e o filho Ataíde festejaram aquela noite.

— Encontrei a mãe de vocês que me salvou.

As crianças beijaram pai e mãe e foram felizes para como sempre deveriam ser.

3.
Como é perversa a juventude de nossos corações (Belchior)…

Na tarde calorenta, a família foi jogar bola na beira da praia até o tempo virar e encher de chuva a praia, as memórias, tudo.
(Gilberto Motta)

4.
Enquanto isso, na igreja ao lado, um macho alfa fazia sua confissão ao pastor Claudir Digitamais…

Tudo andava nos conformes até aparecer aquela messalina possuída. A endemoniada que queria se dar bem às custas do suor do Breno.

A possessa queria usar o fruto de uma orgia pra arranjar a vida dela. Aquela Salomé achou que ia rolar a cabeça do meu “amigo de fé”.

Aquela Madalena não arrependida pensava que a cabeça dela de Medusa ia continuar a espalhar veneno.

Pensei sem meus botões (pois só visto regata):

— Tá amarrado em nome de Jesus!

Então, como um fiel escudeiro defendi o Nosso Reino, preservando a família, a propriedade e a amizade, ajudei a acabar com aquela impura. Aquela maldita, maligna, malandra, travessa, tinhosa, teimosa, furiosa. Lúcifer. Mefistófeles. Diogo. Devassa. Diaba. Demo. Demônio. Belzebu, beiçudo, pé-de-bode. Satã, satanás, sete-peles. Capeta, canhoto, cão, coxo, coisa-ruim, cramulhão, chifrudo.

Ajudei a acabar com quem era o próprio Mal.

— Fiz tudo em nome do Senhor, Pastor Claudir. Eu juro em cima dessa bíblia sa(n)grada!
(Edna Domenica)

……………………………..

Edna Domenica é autora de O setênio (Tão Livros, 2024) e co-autora de Rapsódia da Rua da Mooca (Tão Livros, 2024). Vive no lugar de fala de quem enxerga o ato de escrever não como uma fuga, mas como um diálogo visceral com as agruras do mundo.

Gilberto Motta é co-autor de Rapsódia da Rua da Mooca (Tão Livros, 2024). Vive na Guarda do Embaú, caminhando, observando, até o tempo virar e encher a praia de chuva fina de memórias musicais, para depois escrevê-las e instigar alteridade.

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