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Ócio necessário

O prazer de não fazer nada

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Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

Minha caixinha de joias da memória se abre em momentos curiosos, e quase sempre um evento aleatório me leva a algum lugar do passado; lembranças riquíssimas, guardadas, jamais esquecidas, prontas para serem acessadas em algum momento.

Era uma tarde de sábado de verão em Cachoeiro, aquele dia bem quente. Entro no ônibus a caminho da casa da minha irmã. Por ser um sábado à tarde, estava quase vazio. Quando o ônibus se aproxima da rua Bernardo Horta, me levanto; comigo se levantam mais três passageiros, e um deles está com cheiro de um hidratante de mamão com aveia.

Em minutos, minha cabeça retorna a um passado não tão distante: um grande amor já esquecido, ou muito bem guardado. Desço do ônibus, sigo a pé pela beira-rio e sorrio comigo mesma com a lembrança de alguém que marcou minha vida e com o despertar da memória devido a uma fragrância. Enquanto caminho, penso em cheiros importantes, e a lembrança se dispersa; outra, bem mais distante, toma conta: o cheiro de arruda.

A vida nem sempre foi fácil. A pobreza e a falta de acesso nos impunham algumas dificuldades, mas nada que o conhecimento feminino de minhas avós não pudesse resolver. Quando os bebês nasciam, existia todo um cuidado para com a pele delicada e, até o sexto mês, elas ferviam arruda para o banho, esse era o sabonete. Me lembrei do porquê de me sentir tão revigorada e energizada com o cheiro de arruda: é a lembrança dos cuidados das minhas avós. Caminho pensando na sabedoria de cada uma delas; nenhuma das duas estudou, mas a sabedoria de cada uma era marcante. Aos poucos, elas deixaram seus ensinamentos e conhecimentos. Para mim, são imortais.

Dias depois, estou diante do terapeuta. Essa é uma ciência que elas não me ensinaram, mas aprendi que corpo e mente devem se manter em equilíbrio, embora por vezes algo se desconecte e precisemos retornar. Novamente, vem a lembrança da minha avó paterna: as conversas, as orações, os chás, as rezas ou benzimentos. Rio e digo:

— Minha avó teria sido queimada como bruxa.

O terapeuta sorri e diz:

— Você também.

Nesse momento, percebo que, embora elas não conhecessem nada sobre psicologia, conheciam sobre a mente. Me lembro das rodas de conversa sem fazer nada, ou do silêncio à noite para observar a lua, ou de se atentar para o som dos pássaros.

Uma frase escapa da minha caixinha de joias:

— O que você está fazendo? Às vezes meus avós perguntavam.

— Nada!

— Fazer nada é muito importante. Respondiam.

Quando adulta, por um tempo comecei a acreditar que eles estavam errados, mas hoje, diante do excesso de informações, da falta de senso crítico sobre o que consumimos e da necessidade de chamar a atenção, eu entendo exatamente o significado de não fazer nada. A necessidade de parar; sem celular, sem informações, apenas jogar conversa fora ou observar a lua, o sol, ou nada.

Me despeço do terapeuta e prometo:

— Domingo irei ver o sol nascer, vou me sentar na praia e não farei absolutamente nada.

Nesse momento, percebo que elas, com cuidado, me ensinaram a não carregar a culpa de ser mulher e ter que dar conta de tudo. Elas o fizeram, mas me ensinaram a descansar. Silenciosamente, elas modificaram as filhas e as netas.

……………………………….

Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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