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Segredos doces

A Máscara da Falsidade

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Era uma vez, numa cidade dourada entre montanhas, uma mulher chamada Lira. Todos a conheciam pela beleza serena de seu rosto: olhos de mel que pareciam guardar segredos doces, sorriso que acalmava tempestades e voz que soava como canto de harpa ao entardecer. Ninguém suspeitava que aquele rosto não era dela.

Lira usava a Máscara da Falsidade.

Forjada por um artesão sem nome nas sombras de um beco esquecido, a máscara era perfeita. Tão perfeita que se fundia à pele, tornando-se indistinguível. Por trás dela, escondia-se um rosto comum, sem graça, marcado por cicatrizes antigas de inveja e ressentimento. Mas o que ninguém via nem mesmo aqueles que mais se aproximavam era o punhal que a máscara guardava nas costas, preso por correntes invisíveis de astúcia.

A cidade a amava. Os poetas lhe dedicavam versos. Os mercadores lhe ofereciam as melhores sedas. As mulheres pediam conselhos sobre o amor, e os homens, sobre a vida. Lira ouvia todos com paciência infinita. Secava lágrimas, prometia lealdade eterna, abraçava com ternura e sussurrava:

Eu estou sempre aqui para ti.

E por trás da máscara, o punhal sorria.

Havia um jovem escultor chamado Theo. Suas mãos transformavam pedra bruta em deuses. Lira o viu um dia na praça, trabalhando sob o sol, e sentiu inveja daquela pureza. Decidiu que ele seria seu.

Durante meses, ela foi sua confidente, sua musa, sua amiga mais querida. Sentava-se ao lado dele no ateliê até altas horas, elogiando cada traço que ele esculpia. Quando Theo duvidava de si, ela o erguia. Quando ele falava de seus sonhos, ela prometia ajudá-lo a alcançá-los.

És o irmão que nunca tive dizia ela, e os olhos de mel brilhavam sinceros.

Theo, de coração aberto como suas esculturas, acreditou. Entregou-lhe seus segredos, seus medos, o nome da mulher que amava em silêncio. Lira guardava tudo com carinho aparente. E, nas noites solitárias, por trás da máscara, afiava o punhal.

Chegou o dia da grande exposição. Theo apresentaria sua obra-prima: uma estátua de mármore chamada Esperança, uma mulher de rosto erguido para o céu. A cidade inteira estaria lá. Lira prometeu estar ao seu lado, como sempre.

Na véspera da exposição, Lira visitou o ateliê pela última vez. Abraçou Theo longamente.

Amanhã o mundo verá teu talento murmurou.

Quando Theo adormeceu, exausto de emoção, a máscara agiu. Com movimentos precisos e silenciosos, ela derramou um frasco de ácido sobre a base da escultura. Depois, escreveu uma carta anônima ao conselho da cidade, acusando Theo de plagiar a obra de um artista falecido. Por fim, deixou cair, perto da estátua, um anel que pertencera ao pai de Theo prova falsa de roubo.

Na manhã seguinte, o escândalo explodiu.

A Esperança estava arruinada. Theo foi humilhado publicamente. Seus amigos o abandonaram. A mulher que ele amava o olhou com nojo. E Lira? Lira chegou à praça com lágrimas nos olhos, o rosto da máscara perfeito em dor.

Como puderam fazer isso com ele? lamentava ela diante da multidão. Eu o conhecia melhor que ninguém!

Theo, destruído, procurou-a naquela mesma noite. Bateu à sua porta com os olhos vermelhos.

— Lira… preciso de ti. Só tu restaste.

Ela o recebeu, abraçou-o, deixou que chorasse em seu ombro. E enquanto ele soluçava, a máscara sorria. O punhal, nas costas, reluzia, pronto.

Mas Theo, mesmo em meio à dor, sentiu algo estranho. Um frio. Um cheiro metálico. Quando se afastou do abraço, seus dedos tocaram acidentalmente a nuca de Lira. A máscara, por um segundo, falhou um fio quase invisível se desprendeu.

Ele viu.

Não o rosto inteiro, mas o suficiente: o brilho frio do metal atrás da orelha, a sombra de algo que não era pele. E, pior, viu nos olhos de mel um brilho que nunca tinha notado o brilho da vitória.

— Foste tu… — sussurrou ele, recuando.

A máscara não negou. Apenas inclinou a cabeça, triste e bela.

— Eu te amei, Theo. Do meu jeito. Mas teu brilho ofuscava o meu. E o mundo só tem espaço para uma luz de cada vez.

O punhal, enfim, saiu das costas. Não era mais necessário escondê-lo.

Theo nunca mais esculpiu. Fugiu da cidade dourada e tornou-se sombra entre as montanhas.

Lira, por sua vez, continuou brilhando. Novos amigos chegaram. Novos abraços. Novas promessas.

A Máscara da Falsidade permanecia impecável.

E nas noites calmas, quando ninguém via, ela a tirava por alguns instantes, olhava seu verdadeiro rosto no espelho e murmurava:

— Bonita, não sou?

Mas o punhal, sempre afiado, respondia em silêncio:

Ainda mais.

E afiava-se novamente, esperando a próxima costa desprotegida.

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