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Acordar assim...

O Rio não é mesmo para amadores

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Foto Francisco Filipino

Nem lá, nem cá.

Sabe aqueles dias em que você acorda sem vontade de levantar, sem vontade de ver ninguém? Um mau humor que parece ultrapassar até mesmo a menopausa, essa companhia que insiste em me assombrar.

Posso afirmar que talvez ela não esteja sozinha nessa história.

Morar em um enorme subúrbio de uma das cidades mais conhecidas do mundo não é para qualquer um. Como dizem por aqui, o Rio não é para amadores.

É tentar adormecer ao som alto do funk, com as janelas tremendo madrugada adentro. Ao longe, um estranho encontro entre o forró e os estampidos vindos da estrada principal.

E, quando o dia amanhece, a primeira tarefa não é preparar o café, nem agradecer por mais uma manhã. É ligar o rádio, abrir os canais de notícias e descobrir por onde será mais seguro atravessar a cidade. Onde houve operação? Onde a polícia entrou? Onde o trânsito parou? Onde a violência resolveu acordar antes de todo mundo? Por aqui o código é: O café com a civil é na. Rs

“Seguro”…

Por aqui, essa palavra nunca foi exatamente uma certeza. É apenas uma tentativa. E seguimos.

Não sei se isso acontece apenas onde moro. Se é regional, nacional ou mundial. O que sei é que existe um mau humor que, muitas vezes, nem eu reconheço em mim.

É uma irritação que chega sem pedir licença. Uma vontade irracional de responder atravessado, de descontar no primeiro que aparecer, de explodir por motivos que nem sempre pertencem ao momento.

Se já inventaram remédios para controlar a ansiedade, estabilizar o humor e amenizar tantos excessos, ainda espero o dia em que criem, enfim, pequenas bolinhas de felicidade. Dessas que não anestesiam a vida, mas devolvem um pouco da leveza que vamos perdendo pelo caminho.

Faz tempo que acordo assim. Em algumas manhãs, com raiva do mundo.

Em outras, com um rancor silencioso de mim mesma. Como se a exaustão tivesse criado morada e resolvesse abrir os olhos antes de mim.

Depois, o dia acontece.

As horas passam, o trabalho ocupa os pensamentos, as pessoas distraem a mente, e, aos poucos, esse peso parece diminuir. Não desaparece, apenas muda de lugar.

A vida segue.

Porque, no fim das contas, continuar também é uma forma de resistência.

E talvez exista uma coragem silenciosa em levantar da cama justamente nos dias em que a única vontade era permanecer deitada, esperando que o mundo, por um instante, fizesse menos barulho — aqui fora e, principalmente, aqui dentro.

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