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Inquietude

Fome do quê?

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Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Foto Francisco Filipino

Não sei você, mas, às vésperas de datas natalinas, algo em mim se desencontra. É como se o eu perdesse, por instantes, o sentido do pertencimento. As dúvidas chegam sem pedir licença e, de repente, tudo aquilo que parecia simples até então ressurge com uma força inquietante, desafiando algo que sei existir, embora não consiga nomear.

Percebo claramente que há uma ausência. Mas, ao mesmo tempo, existe um vazio que insiste em permanecer, um espaço silencioso que pede para ser preenchido, acolhido e reafirmado.

Então surgem as lembranças. Algumas parecem vir de um lugar tão antigo que se confundem com memórias uterinas. Não sei se realmente as vivi ou se apenas as incorporei pelas histórias que tantas vezes ouvi. Ainda assim, elas me atravessam como se fossem minhas.

É estranho reconhecer a falta e, ao mesmo tempo, não compreender exatamente do que se sente falta. É como carregar uma fome sem saber o nome do alimento capaz de saciá-la.

São emoções que se misturam. A vontade de um carinho despretensioso, de um abraço demorado, de palavras ditas com ternura. E, curiosamente, ao admitir essa necessidade, quase sinto vergonha, como se eu sempre tivesse aprendido que não deveria precisar de ninguém.

Quem observa de fora talvez veja uma muralha, uma fortaleza inabalável. Mas poucos imaginam que, por dentro, existe um cristal: raro, belo e resistente até certo ponto. Um cristal que também corta, mas que pode se partir com a mesma facilidade com que reflete a luz. Ainda assim, continua brilhando, mesmo quando ninguém percebe.

Como não enlouquecer nessa fase? Como impedir que o orgulho ocupe o lugar da sensibilidade? Como acolher a chegada de mais um ano de vida carregando uma bagagem marcada por cicatrizes, escolhas, perdas e silêncios?

Confesso que, com o passar dos anos, a aproximação de um novo ciclo tem me encontrado mais reservada, mais seletiva e, por vezes, mais intolerante. Isso me incomoda. Reconheço. Mas há uma parte de mim que também não deseja mudar. Talvez porque esse endurecimento tenha sido, por muito tempo, a forma que encontrei para sobreviver.

E então me pergunto…

Será que a fome é mesmo de carinho? De companhia? De palavras bonitas?

Ou será que a verdadeira fome é de voltar a habitar a própria alma sem medo? De encontrar, dentro de mim, um lugar onde eu me reconheça por inteiro, sem precisar provar força o tempo todo?

Talvez a resposta nunca venha.

Talvez algumas fomes não tenham sido feitas para serem saciadas, mas para nos lembrar, vez ou outra, de que continuamos profundamente humanos.

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