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Campo dos Goytacazes

O enterro da dona Cotinha

Publicado

Autor/Imagem:
Fernando de Assis - Texto e Foto

Penso que um cronista é um sujeito sempre muito atento, de maneira que passar para o papel o que lhe chega aos olhos e ouvidos, é, de maneira comparativa, como chegar na cozinha, ver os ingredientes que tem a sua disposição e preparar uma comida apetitosa.

O caso que passo a narrar eu soube através de um amigo, o Francisco Salgado. Aconteceu em Campo dos Goytacazes, um município da região sudeste aqui do Rio de Janeiro, e nessa ocasião, o Salgado residia por lá.

Conta a tal história que a dona Cotinha faleceu. Cotinha era uma vizinha do Chico Salgado, uma senhora muito querida no bairro. O Tião, também vizinho, soube da morte de Cotinha de forma intempestiva. Tião era dado a uma canjebrina, bebia todos os dias, e como o povo costuma dizer: dormia bêbado e acordava calibrado. Mas Tião era religioso, desses católicos fervorosos. Tão religioso que não bebia sozinho sua cachaça, compartilhava o precioso líquido despejando no canto da parede um pouquinho para o santo. Aliás um hábito que meu saudoso pai também tinha. Certa vez, de brincadeira, Tião comentou que já tinha matado uns quatro santos de cirrose. Mas Tião era um sujeito vaidoso, andava sempre bem trajado, e como não podia faltar, carregava na lapela um cravo. E não era um cravo qualquer, era um cravo violeta, sempre violeta, aliás, ouvi dizer que o cravo violeta tem algo de misterioso e quase sempre é carregado por pessoas solitárias.

— O senhor vai ao enterro? – perguntou uma vizinha ao ver Tião sair do bar.

Era exatamente nove da manhã.

— Enterro?! Quem morreu? – reagiu Tião.

— O senhor não soube? Dona Cotinha.

— A Cotinha?! Ela morreu?! – espantou-se Tião, e tinha os olhos bem abertos, ressaltando o susto que a notícia lhe causara.

A cabeça da mulher subiu e desceu.

— Ontem à noite – complementou, e fez uma careta. – Infarto.

De fato, não tinha como Tião ter tomado conhecimento. Na noite anterior, como em todas as outras, ele estava mais pra lá do que pra cá.

— Onde vai ser o enterro?

— No cemitério do Caju – disse a vizinha, e completou: – O corpo está sendo velado na Igreja Nossa senhora da Boa Morte.

Cotinha era uma senhora muito ativa e de nada se queixava. Alguns diziam que ela tinha uma saúde de ferro, de modo que sua morte surpreendeu parentes e vizinhos. Mas Cotinha morreu conforme sempre desejou, de modo repentino, sem dar trabalho a ninguém. A notícia afundou Tião. Cotinha fizera parte de sua infância. Brincaram juntos de amarelinha, pique esconde e de queimado. Até bola de gude e pipa soltaram juntos. Fizeram a primeira comunhão no mesmo dia. A vida passou, fluiu sem que percebessem. Tião tinha acabado de beber uma cana quando recebeu a má notícia, mas assim que sua vizinha se foi ele retornou para o bar.

— Bota uma! – disse, muito sério.

— Uma não… outra, né? O que houve? Você parece aborrecido – quis saber o dono do bar. Um português baixo, de olhos investigativos e desconfiados.

— Cotinha… ela se foi – respondeu Tião com voz melancólica e fazendo pausa na frase.

O português não compreendeu bem o que ouviu.

— Se foi? Ela nem saiu de casa hoje.

Tião ficou bravo.

— Ôôôô, Maneu. Você deve estar brincando com a minha cara.

— Eu? – reagiu o portuga. – Toda manhã dona Cotinha passa aqui em frente e me dá bom dia. Hoje ela não passou.

— Ele não passou hoje e nem vai passar mais. Eu Cotinha morreu.

— Ora! Que lamentável! – espantou-se o portuga – Desculpe-me! Eu não sabia.

Tião tomou mais duas antes de ganhar a rua, depois foi em casa para trocar de roupa. Colocou um terno preto de gabardine e um par de sapatos de couro de jacaré. Passou no jardim colheu um cravo violeta, ajustou na lapela e se foi. A Igreja Nossa Senhora da Boa Morte ficava a não mais que cinco quilômetros do lugar onde Tião morava. Era perto, mas convinha pegar um Taxi, no entanto, Tião era andarilho, não gostava de conduções, de modo que saiu caminhando pela rua, aporrinhado e triste. Foi parando em cada boteco que encontrava pelo caminho. Aliás, ele bem os conhecia. Entrava no estabelecimento sempre com a mesmo pedido:

— Bota uma!

O último boteco que ele entrou foi o do Júlio, a uns quinhentos metros do portão do templo sagrado. Quando Tião chegou, já a tarde ia pelo meio. Buscando o equilíbrio, ele se dirigiu a uma entrada lateral, uma sala onde era costume realizar velórios, parou na soleira, fez o sinal da cruz, se aprumou tentando parecer sóbrio, ajeitou o paletó, e após erguer discretamente a mão acenando para os que estavam na assistência, caminhou até onde estava o caixão, sobre o catafalco.

Ali, diante da morta, Tião fechou os olhos e fez uma demorada oração, depois se debruçou na beira da urna e começou a dizer coisas para a morta.

— Cotinha! Como é que você faz uma coisa dessas? Abandonou a gente. Nós vamos sentir muito sua falta. Você não podia ter nos deixado.

Tião Lamentou e despejou sua dor em forma de lamento e lágrimas. Ficou longo tempo em seu monólogo, até que alguém da assistência, se sentindo incomodado, levantou-se e foi até ele.

— Tião! – chamou o sujeito pondo uma mão em seu ombro.

Ainda curvado sobre a morta, Tião o olhou meio de lado e o reconheceu, era o João, então aguardou para saber o que ele tinha a dizer. João prosseguiu.

— Essa é a dona Maria. O corpo da Cotinha já foi para o cemitério. Ela foi sepultada às duas da tarde.

Tião se aprumou e a bebedeira pareceu curada. Na assistência todos o observavam, mudos. As paradas nos botecos atrasaram sua chegada, e o que era pior, o fizeram cometer um engano despedindo-se da pessoa errada. Dirigira palavras a uma defunta pensando que era outra. No entanto, apesar do vício, Tião era posudo e cheio de recursos. Pondo a mão na lapela, Tião retirou o cravo e se dispôs a ajeitá-lo cuidadosamente ao lado da morta. Ele ainda tinha a mão no cravo quando começou coma voz lamentosa, mas firme:

— Dona Maria! Eu sei que a senhora vai para o mesmo lugar onde está a Cotinha. Faça um favor para mim, leve este cravo e entregue a ela.

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