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Vozes da Literatura

O diálogo interno e as múltiplas facetas da escritora Ana Paula Rocha

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Vozes da Literatura traz hoje um bate-papo com a escritora e pedagoga Ana Paula Rocha, uma autora que enxerga a escrita criativa não apenas como arte, mas como um poderoso processo terapêutico e de diálogo interno. Com uma visão sensível moldada pelas vivências cotidianas e pelas teorias de pensadores como Vygotsky e Wallon, Ana Paula traz para suas páginas uma literatura direta, humanizada e profundamente conectada com as emoções reais de seus leitores. Para ela, o ato de criar funciona como um refúgio e um método de alívio diante das complexidades do mundo contemporâneo.

Longe dos holofotes das métricas digitais e focada na autenticidade das conexões humanas, a escritora equilibra sua rotina multifacetada entre a educação, a tecnologia e as letras. Defensora ferrenha da democratização do acesso à leitura, Ana aborda nesta entrevista os desafios da era da pós-verdade, a importância de espaços literários independentes e compartilha a forte filosofia que guia sua jornada pessoal e artística: a de que um diagnóstico nunca deve ser encarado como uma sentença.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Acredito que sim! São as falas práticas, vivências colocadas no momento certo que nos impulsionam a refletir.

“Sou pedagoga de amor e formação, sempre busquei os detalhes”

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Sou pedagoga de amor e formação, sempre busquei os detalhes. Vygotsky e Wallon sempre me vêm à mente quando vou avaliar o mundo e suas representatividades. Dos atuais, há muitos que você não consegue definir uma linha, pois parecem livros de autoajuda.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Na minha realidade é um misto de possibilidades, jovens que não querem pensar, buscam facilidades e situações prontas e um outro lado que preserva um acalmar de quem conheceu o poder da leitura tem. Cheirinho de livros, não rabiscar, guardar na estante.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

São duas realidades que batem de frente, os jornais de fofoca que atualizam a realidade local (falo os de Face e Instagram) e aqueles que informam.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Eu amo ler misturas, verdadeira ou não. Acho que assim como as músicas tem dias em que você está voltado para cada estilo. E que venham as diferenças…

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Hoje eu acho que é difícil ter esta percepção ou classificação. Eu mesma escrevo e utilizo a IA para correções. Claro que algumas situações mudam, mas muitas permanecem.

“Minha colocação é direta, com pensamentos muito direcionados a situações e pessoas”

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Minha colocação é direta, com pensamentos muito direcionados a situações e pessoas. Quem me conhece como a Ana Paula sabe que não faço diferente, a emoção precisa estar ali.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Não tenho contato direto. Leio aleatoriamente.

“Me impressiono como a alfabetização mudou”

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

De verdade, eu tenho muito medo, como professora de informática, eu tenho realidades diferentes em um mesmo bairro. Por muitas vezes, isso me assusta apesar de trabalhar no ramo há 25 anos. Me impressiono como a alfabetização mudou, como o uso das ferramentas é abordado de formas diferentes. Ora produtivas, e outras só métodos de reprodução. E na área médica também.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Para a minha pessoa é um método de alivio. Terapêutico

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

E quem não age desta forma? Não sendo exclusividade feminina, mas precisamos ocupar vários postos durante o dia, semana. Seja na vida pessoal, profissional ou igreja (religiões). Ninguém cabe em uma só personalidade.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Interessante, mas neste momento é uma realidade que não me cabe. Por motivos de saúde desativei as redes deixando apenas o WhatsApp por necessidade trabalhista.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Creio que facilitar a apresentação do que para muitos seriam impossíveis. Mesmo na época dos blogs, onde as pessoas criavam suas páginas e o engajamento precisava exclusivamente do trabalho que quem criava.

“Diagnostico não é sentença e por isso vivo e faço acontecer!”Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Não foi minha obra, mas levo a ferro: Diagnostico não é sentença e por isso vivo e faço acontecer!

Hoje eu penso assim!

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