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Fado tropical

Lado moral de Aristarco, o velho português imoral que não viu a subida de R7

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

Meu avô Aristarco Pederneira partiu dessa para melhor na plenitude de seus 92 anos. Por obra do destino, ele não conseguiu ver seu imenso Portugal se classificar para as oitavas da Copa de 2026.  Atleta de alcova e trapezista de janelas alheias na calada da noite, o velho, aos 70 anos, chegou a correr dez km por minuto. Acho que até mais. Não há como precisar porque sua última corrida só terminou quando o redescobrimos, às vésperas de seu passamento. Dizem as más e boas línguas que o vizinho corno partiu antes, mas, como último suspiro, prometeu encerrar a maratona somente depois do acerto de contas com o idoso de testosterona de menino.

O velho não era abastado. No entanto, tinha expertise e a malandragem popular adquirida para dar, vender e emprestar. Não era um Cristiano Ronaldo, mas, ensaboado até a alma, nas cinco ou seis vezes que teve de renovar a carteira de habilitação jamais levou a velha. Na única vez em que precisou de psicólogo, se assustou com o preço exorbitante da consulta e acabou optando por pagar pouco mais de 10% do valor ao chofer de carro de aluguel, o atual motorista de Uber. O resultado foi o mesmo. Fugia dos afazeres domésticos como os evangélicos fogem de um tête-à-tête com Deus.

Embora nunca tenha se casado, viveu como minha avó por mais de 60 anos. Quando instado a lavar pelo menos um prato, dizia que declinou da empreitada para não atrapalhar a concentração do detergente concentrado. Nem sempre conseguia acompanhar as novas gerações, mas tinha resposta para todo tipo de pergunta. Durante uma consulta com um clínico do bairro, ouviu a mesma indagação das dezenas de visitas anteriores: “O senhor bebe?” Para não ser descortês, vovô acabou aceitando um gole para acompanhar o doutor.

Nascido no Nordeste de Portugal, foi criado com água fisiológica, bacalhau de córrego, azeitona do Cerrado e mel da marca Gibson. Do tipo ponta avançado, era um touro com pele humana. Logo após sua chegada ao Brasil, ainda rapazote, se imaginou pecuarista suburbano. Dono de meia dúzia de vacas, das quais ele era o próprio reprodutor, abandonou o negócio ao perceber que, já naquela época, a turma da propina bovina andava solta no pasto. Um dia sim e outro também lá estava o fiscal da antiga Sunab em busca de um deslize para multar o velho.

Os tempos, os governantes e os parlamentares eram outros, mas a safadeza era a mesma. É aquela antiga história de que mudam as moscas, mas não a bosta. Em outras palavras, no velho reino da ladroagem e novo mundo da sacanagem, nem as moscas são novas. Nele, o mais honesto continua invadindo berçários para surrupiar chupetas. A ladainha do homem da lei é a mesma. Nos dias pares, o malandro queria saber o que as vaquinhas haviam comido. Se lavagem, multa de 100 dinheiros de então. Nos dias ímpares, o perguntório se repetia. Era a chamada herança do fado lusitano.

Frutas e legumes para os animais, mais 100 dinheiros. Sábados, domingos e feriados, lá estava o animal fantasiado de fiscal. Se o prato destinado às vacas fosse sopa de entulho, outros 100 dinheiros. Em um daqueles dias em que minha avó havia dormido com o barbante do pijama para trás, o velho nem esperou pela pergunta do safardana representante do governo local e, aos berros, disse que tinha dado 100 dinheiros para as vacas comerem no boteco da esquina. Nunca soube se o camarada aceitou a mentira como verdade. O que sei é que as chupetas evoluíram para coisas muito mais hediondas. Hoje se rouba merenda da boca de estudantes que não têm o que comer. É a consolidação do fado da imoralidade absoluta.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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