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Beba com sabedoria

Bêbados eruditos

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Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Nessa maratona de jogos da Copa, pinta sempre um comercial de cerveja com Ronaldinho gaúcho. O que me chamou a atenção foi a última frase da peça, a mensagem ética (sic) da coisa: “Beba com sabedoria”.

Beba com sabedoria! Se “Beba com responsabilidade” ou “Beba com moderação” já são eticamente questionáveis – sei, por dolorosas experiências, que doses que me fariam convocar o Hugo não fariam cosquinha em um profissional etílico do jaez do compositor Carlos Cachaça –, “Beba com sabedoria” é um escárnio.

Mas, ainda assim, consigo imaginar uma tertúlia de pinguços eruditos. O folclore e a literatura da China estão repletos de monges joviais, em geral taoístas, que não davam a mínima pra severidade confucionista e percorriam as estradas com um odre de vinho na mão e um sorriso de bêbado no rosto. Estavam muito além de Marrakesh, e não apenas em termos geográficos.

Da China para a Pauliceia: a boa e velha Abril Cultural era conhecida por abrigar uma plêiade de pinguços eruditos, euzinho entre eles. Muitos recém-saídos de prisões políticas (meu caso, entre tantos outros), decididos a tirar o atraso, a esquecer a abstinência involuntária atrás das grades enfiando o pé na jaca.

E então, depois do expediente, a galera se reunia para atacar as cervas e as talagadas de cachaça. E entre os risos, paqueras e discussões políticas, talvez fosse possível ouvir frases eruditas, parafraseando outras, mais famosas (talvez, não lembro se foram pronunciadas, mas sem dúvida ornariam a noite). Alguns exemplos:

O “penso, logo existo” de Descartes se metamorfosearia num “bebo, logo existo”.

Shakespeare forneceria porradas de motes, do hamletiano “beber ou não beber, eis a questão”, passando por Ricardo II, “sentemo-nos no chão, e contemos histórias tristes sobre a morte por coma alcoólica de reis” e chegando em Ricardo III: “Meu reino por uma dose de cachaça!”

A cereja do bolo poderia ser a paráfrase das palavras do romano Pompeu, o Grande, transformadas em verso por Fernando Pessoa e divulgadas entre a tigrada tupiniquim por Caetano Veloso: “Beber é preciso. Viver não é preciso”.

E, na alta madrugada, algum estraga-prazeres parafrasearia a síntese do colossal Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: “Beber é muito perigoso”. E a moçada se dispersaria, que ninguém é de ferro.

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