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O pé frio

Arruda vive sonho da Copa e pesadelo das urnas

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José Seabra- Foto Reprodução das Redes Sociais

A política costuma produzir cenas que desafiam a lógica. Mas, vez ou outra, ela também oferece momentos que parecem escritos por um roteirista de humor involuntário. O vídeo divulgado pelo ex-governador José Roberto Arruda (PSD), contando que sonhou com Endrick marcando o gol da vitória do Brasil sobre a Noruega, acabou seguindo exatamente esse roteiro.

No sonho, o jovem atacante nascido em Taguatinga entrava em campo e decidia a partida. Na vida real, a seleção brasileira foi eliminada. O sonho virou pesadelo antes mesmo do apito final.

Nas redes sociais, porém, a derrota da seleção rapidamente ficou em segundo plano. O centro das atenções passou a ser o próprio narrador do sonho. Adversários políticos aproveitaram a coincidência para lançar uma pergunta carregada de ironia. Se um sonho sobre futebol pode terminar tão distante da realidade, será que também existe um sonho político que insiste em ignorar os fatos?

A provocação faz referência à insistência de Arruda em manter vivo o discurso de uma candidatura ao Palácio do Buriti, apesar do histórico de condenações por improbidade administrativa e das barreiras jurídicas que hoje cercam sua elegibilidade. Para seus críticos, a campanha parece caminhar mais no terreno da esperança do que no da viabilidade.

A história recente do ex-governador também continua sendo lembrada sempre que seu nome retorna ao debate público. O episódio que lhe rendeu o apelido de “Zé Panetone” permanece como uma das imagens mais marcantes da política brasiliense. Flagrado recebendo dinheiro durante as investigações da Operação Caixa de Pandora, Arruda afirmou, à época, que os recursos seriam destinados à compra de panetones para distribuição a pessoas carentes no período natalino. A justificativa atravessou os anos muito mais como símbolo de descrença popular do que como explicação aceita pela opinião pública.

Desde então, sua trajetória política passou a conviver com condenações judiciais, recursos, tentativas de retorno e sucessivos obstáculos legais. Ainda assim, o ex-governador continua alimentando o discurso de que poderá voltar ao comando do Distrito Federal.

É justamente aí que a metáfora do sonho encontra a realidade. Sonhos são livres; já a legislação eleitoral, não costuma ser. Enquanto a imaginação não conhece limites, a elegibilidade depende de decisões judiciais, requisitos legais e do calendário eleitoral, fatores muito menos românticos do que uma partida de futebol decidida por um garoto de Taguatinga.

A política brasileira sempre conviveu com personagens que se recusam a abandonar o palco. Alguns retornam pela força das urnas e outros permanecem em campanha permanente, como se a repetição pudesse substituir a realidade. No fim das contas, talvez o maior ensinamento do vídeo nem seja sobre futebol. Sonhar é um direito de qualquer cidadão, contudo, a diferença é que alguns sonhos terminam ao soar do despertador, enquanto outros insistem em continuar mesmo quando a realidade já entrou em campo há muito tempo.

Veja o vídeo

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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