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Como uma onda no mar

No futebol brasileiro, nada do que foi será novamente

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Nem sempre a alegria e a emoção conseguem ser superiores à energia do ódio e do divisionismo instalados na mente fraca e oprimida de mal-amados e fanáticos por debilóides que só sabem viver se tiverem poder. Politicamente, como tentativa de unir o país, a Seleção Brasileira precisava muito da vitória contra a Noruega. Ela não veio e, pelo visto, não virá tão cedo. Os políticos terão de se virar em outubro. A classificação não foi apenas um acidente de percurso. Infelizmente temos de admitir que, para a autoestima do povo brasileiro, foi uma tragédia anunciada pelo menos desde as Eliminatórias para a Copa do Mundo.

É claro que qualquer revés é um fiasco. A Seleção fracassou, mas não consigo avaliar a derrota com um vexame, como dizem e escrevem os que têm urgência em apelar para qualquer coisa que possa atingir o adversário do pífio candidato que eles apoiam à Presidência da República. Entretanto, sou obrigado a concordar que a participação na Copa de 2026 representa a pior campanha da secular história da Seleção Brasileira em um mundial desde o torneio de 1990, na Itália. A contar do pentacampeonato, em 2022, a Seleção Brasileira não vence adversários europeus em fases eliminatórias.

Antes dos noruegueses, perdemos para a Bélgica, em 2018, na Rússia, e para a Croácia, em 2022, no Catar. Ainda mais nocivo do que o amargo sabor do jejum é ser desclassificado por um time que jamais chegou à semifinal de um certamente mundial. Perdemos, voltamos para casa e temos de ter a humildade de reconhecer que, mesmo com técnico e jogadores milionários, não jogamos o suficiente para ganhamos de ninguém, nem mesmo daqueles dos quais ganhamos. Na verdade, a Seleção não foi nem um mil réis do que o Brasil e o mundo esperavam.

Entre frustrados e conscientes de que não evoluímos nada nesses 24 anos de insucessos consecutivos, a tristeza maior é a certeza de que chegaremos à próxima Copa, em 2030, com um hiato de 28 anos sem erguer a taça. Tempo demais para uma nação que, por muitos anos, foi conhecida, reconhecida e enaltecida como o país do futebol. Sem personalidade, os jogadores que os brasileiros elegeram como protagonistas podem não ter sido bizarros, mas estiveram longe, muito longe, daquilo que poderiam produzir.

Contrastando com a involução do Brasil, é fato que há décadas o mundo vem experimentando uma evolução no futebol. Cabo Verde e os demais países da África são os exemplos da afirmação. Considerando que a “amarelinha” não assusta mais ninguém, nem mesmo venezuelanos e bolivianos, tomara que a performance dos “canarinhos” em gramados norte-americanos não nos remeta para um futuro de muitas bizarrices no futebol. Não é normal creditar a desclassificação a um ciclo malconduzido por gestões anteriores na CBF.

Tanto não é que o atual comando da CBF programou o reinício do Brasileirão para dois dias antes da final da Copa do Mundo dos EUA. Ou seja, os dirigentes não acreditavam no produto que tinham. Mesmo assim, os brasileiros torceram, choraram, remaram e lamentaram a falta de criatividade de alguns jogadores. Para ilustrar, Marrocos, com quem o Brasil empatou na estreia, tem organização, competitividade e está nas quartas-de-final com um treinador que assumiu há apenas quatro meses. Longe de mim querer personalizar a derrota, mas os dois gols da Noruega saíram após o bolsonarista Neymar Júnior entrar em campo.

Aliás, depois do gol, ele, seguindo o exemplo do ídolo, desrespeitou o goleiro adversário, mostrando ao mundo que não sabe perder. Nessa sequência de erros, bravatas e de falta de respostas em campo, viramos uma marolinha no mar revolto do futebol. Parafraseando Nelson Motta e Lulu Santos, hoje a Seleção é como uma onda, isto é, nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo muda o tempo todo no mundo. Só o futebol e política dos que não sabem fazer política continuam a mesma. Se servir de consolo para a precoce eliminação, informo que 2030 está logo ali. Faltam apenas 1.433 dias para a Copa do Mundo da Espanha, Portugal e Marrocos. Será nossa oitava chance de conquistar o tão sonhado hexa.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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