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Falsos profetas

Mercadores da fé, pastores trocam os púlpitos pelas páginas policiais

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto Editoria de Imagens/IA

Didaticamente, pastores evangélicos são líderes e conselheiros espirituais em congregações cristãs. Religiosamente, a função deles é interpretar a Bíblia e conduzir cultos baseados exclusivamente na palavra de Deus. No Brasil, existem desde líderes midiáticos, influenciadores digitais até teólogos com visões progressistas e conservadoras. Não frequento igrejas evangélicas, mas, em decorrência do assustador crescimento desse segmento religioso, sou obrigado a acreditar, com todas as possíveis ressalvas, que boa parte deles realmente prega honestamente.

O problema são os apelos sensacionalistas incomuns em outras religiões. Por exemplo, o dia a dia nos mostra que, em lugar da exposição coerente das escrituras, muitos desses pregadores se utilizam de revelações, sonhos mirabolantes e falsos milagres destinados à exploração da ingenuidade dos chamados crentes. Como acreditar em um homem comum que, com a Bíblia debaixo do braço e retórica acima da média, fecha os olhos e foca suas “orações” especificamente em doações, campanhas financeiras e promessas de enriquecimento em troca de bênçãos?

Com todo respeito aos que se apresentam como sérios, para os hipócritas religiosos e falsos moralistas não há outra adjetivação que não seja a de falsos pastores ou profetas. São os fariseus, aqueles que usam a fé para enganar, manipular e explorar fiéis, visando exclusivamente ao lucro e ao poder. Segundo a teologia cristã, eles costumam se disfarçar de ovelhas, mas são logo reconhecidos pela ganância, ensinamentos antibíblicos e estilo de vida que contradiz o Evangelho. Infelizmente, os que ilegitimamente se proclamam detentores de dons do Espírito Santo estão milionários. Alguns bilionários.

São aqueles que, de pregadores da palavra de Deus, se transformam em mercadores da fé nos cultos e nas casas de leis. Tipos como esses estão por todo canto do Brasil, inclusive no Congresso Nacional e nas mais diversas esferas da política nacional. Vaidosos e em busca de imunidade/impunidade, muitos deles não se limitaram a se eleger deputados ou senadores. Unidos e sempre em nome de Deus, criaram no Congresso a Frente Parlamentar, por meio da qual atuam fortemente na defesa de pautas conservadoras ligadas aos costumes, à família e à liberdade religiosa.

De heróis de incautos a vilões dos pagadores de impostos, fazem de tudo um pouco, menos seguir os ensinamentos de Deus. Por isso, muitos têm trocado os púlpitos pelas páginas policiais. Mais uma vez o nome do deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL, aparece envolvido em ações suspeitas de corrupção. Como pastor evangélico, a decência e o respeito a seus seguidores exigem explicações convincentes. Classificar a investigação da Polícia Federal contra ele como “uma clara perseguição” não cola mais. Nem o mais esperto dos mortais consegue explicar como o dinheiro brota em sua casa ou na casa de pessoas próximas. Nada do que ele diz à PF bate com a realidade. Seu dinheiro não é de Deus.

Muito pelo contrário. O dinheiro encontrado com Sóstenes era oriundo de diferentes empresas, todas localizadas em um mesmo endereço, com apenas uma sala de diferença entre elas. Portanto, a investigação não pode ser avaliada como uma “grande injustiça” contra um deputado que “nunca sequer cometeu um crime”. O mesmo deve estar dizendo o pastor Marco Pôncio, preso na quinta-feira (02), no Rio de Janeiro, por ligação com a “Máfia do Cigarro”. Como aos pastores ou qualquer outro religioso não basta ser honesto, enquanto os citados senhores da Bíblia não parecerem honestos, eu e boa parte do Brasil não acreditaremos em uma só palavra dita por eles.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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