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Sem estourar a gema

A sociologia do ovo frito

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existem dias em que o auge da maturidade é conseguir fritar um ovo sem estourar a gema.

Demorei anos para entender isso.

Quando entrei na universidade, imaginei que a vida adulta seria composta por grandes decisões: escolher uma profissão, defender ideias, mudar o mundo, escrever artigos importantes, orientar pessoas, viajar para congressos e discutir Marx em alguma mesa de bar enquanto alguém citava Weber para discordar.

Ninguém me avisou que boa parte da vida adulta seria decidir o que fazer para o almoço às onze e quarenta da manhã.

Curiosamente, Marx talvez entendesse esse momento melhor do que qualquer coach contemporâneo. Afinal, ele passou páginas inteiras nos lembrando que a existência material organiza nossa experiência no mundo. O problema é que eu não imaginava que essa experiência material envolveria abrir a geladeira e concluir que um ovo representa estabilidade econômica.

Existe uma dignidade extraordinária no ovo.

Ele nunca prometeu ser picanha.

Nunca quis impressionar ninguém.

Está ali, silencioso, resolvendo problemas.

É democrático, rápido e eficiente. Talvez seja o alimento mais funcional já produzido pela humanidade. Se Mauss escrevesse hoje sobre as trocas sociais, talvez precisasse incluir o vizinho que empresta dois ovos no fim do mês. Poucas dádivas produzem tanta gratidão.

Percebo que passamos boa parte da vida esperando grandes acontecimentos.

A promoção.

O amor.

A viagem.

A casa própria.

O artigo publicado.

A defesa da tese.

Enquanto isso, a felicidade passa despercebida porque chegou disfarçada de café recém-passado, roupa limpa no varal, uma ligação inesperada ou um ovo frito com arroz.

Bourdieu provavelmente diria que até nosso gosto alimentar é socialmente construído.

Eu concordo.

Mas acrescentaria que existe uma sociologia da geladeira quase vazia que nenhum clássico investigou com a atenção necessária.

Foi a vida, e não os livros, que me ensinou isso.

Há alguns anos, talvez eu tivesse vergonha de admitir que um almoço simples poderia me deixar feliz.

Hoje penso exatamente o contrário.

Vivemos numa sociedade que glamouriza o extraordinário e despreza o cotidiano. Como se felicidade precisasse de passaporte, vinho caro ou restaurantes sofisticados.

Talvez seja por isso que gosto tanto de pastel de feira.

Ele nunca tentou ser alta gastronomia.

E, ainda assim, produz memórias melhores do que muitos jantares elegantes.

Da mesma forma, um ovo jamais quis competir com uma picanha.

Ele apenas comparece.

E existe uma beleza enorme em quem comparece.

As pessoas também são assim.

Aprendi que há quem apareça apenas nas fotografias das grandes conquistas.

E há quem apareça com uma marmita, um chá, um cobertor ou uma mensagem dizendo: “Chegou em casa?”

Nenhuma teoria social me convence do contrário: são essas pequenas presenças que sustentam a vida coletiva.

Durkheim dizia que a sociedade existe porque somos ligados por vínculos que ultrapassam o indivíduo.

Talvez ele estivesse falando, sem saber, daquela amiga que manda um áudio de sete minutos para perguntar se você comeu.

Ou daquele amigo que aparece com remédio antes mesmo de você pedir.

Ou da vizinha que oferece café.

Ou do cachorro que deita aos seus pés enquanto você trabalha.

No fundo, viver nunca foi sobre grandes acontecimentos.

Foi sobre quem permaneceu quando o extraordinário acabou.

Talvez seja por isso que continuo acreditando que a vida acontece muito mais na cozinha do que nas redes sociais.

Entre uma frigideira, um café e um ovo frito, existe uma filosofia inteira que ainda não foi escrita.

E, sinceramente?

Acho que ela explica o mundo melhor do que muita gente por aí.

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