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Copa do Mundo

Noventa minutos em que o Brasil volta a caber em si

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma coisa que a Copa do Mundo faz e que nenhuma eleição, nenhum discurso e nenhuma rede social conseguiu produzir: durante noventa minutos, o Brasil parece lembrar que ainda é capaz de torcer junto.

É uma cena bonita de observar.

O evangélico, o católico, o espírita, quem frequenta terreiro, quem não acredita em religião nenhuma. A professora, o motorista de aplicativo, a médica, a diarista, o estudante, a criança e o aposentado. O empresário e o desempregado. A vizinha que nunca conversa com ninguém e o senhor que sabe a escalação da Seleção desde 1970.

Todos olhando para a mesma bola.

Talvez seja por isso que a Copa seja tão fascinante. Ela não elimina nossas diferenças, mas, por alguns instantes, faz com que elas deixem de ser o centro da conversa.

O antropólogo Roberto DaMatta dizia que o futebol é um dos principais rituais da sociedade brasileira. E todo ritual tem essa capacidade extraordinária de produzir pertencimento. Não porque todos pensem igual, mas porque todos compartilham um mesmo acontecimento.

É curioso perceber como o verde e o amarelo mudam de significado durante uma Copa.

Nos últimos anos, essas cores foram sequestradas por disputas políticas que dividiram famílias, amizades e até vizinhos. Muita gente deixou de vestir a camisa da Seleção porque ela deixou de representar um país e passou a representar um lado.

A Copa devolve, ainda que temporariamente, essas cores ao seu lugar de origem.

Elas voltam a ser apenas cores.

As cores de um menino que pinta o rosto pela primeira vez.

Da avó que assiste ao jogo na mesma poltrona há décadas.

Do churrasco improvisado.

Da bandeira pendurada na janela.

Da esperança infantil de que “dessa vez vem o hexa”.

O sociólogo Benedict Anderson escreveu que as nações são “comunidades imaginadas”. Não conhecemos a maioria das pessoas que compartilham nossa nacionalidade, mas, em determinados momentos, sentimos que fazemos parte de algo comum.

A Copa talvez seja a maior materialização dessa ideia.

Por algumas horas, um gol marcado do outro lado do planeta provoca o mesmo grito em Manaus, Curitiba, Salvador, Porto Alegre e em milhares de cidades que jamais aparecerão na televisão.

É como se um país acostumado a tantas desigualdades, tantos conflitos e tantas dores respirasse no mesmo compasso.

Claro que o apito final chega.

As diferenças continuam existindo.

Os problemas permanecem.

O Brasil continua sendo feito de muitos Brasis.

Mas talvez não devêssemos desprezar esses breves instantes de encontro.

Em um tempo em que quase tudo nos empurra para a polarização, descobrir que ainda somos capazes de comemorar juntos já diz muito sobre quem fomos — e talvez sobre quem ainda podemos ser.

Porque há coisas que só o futebol explica.

E há sentimentos que só a Copa do Mundo consegue fazer um país inteiro experimentar ao mesmo tempo.

E descobrir que, às vezes, a única coisa que salva uma noite difícil é alguém disposto a permanecer.

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